Páginas

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Eu sou mais eu

Essas quatro palavrinhas tão utilizadas por tantas pessoas que não sabem a dimensão do que elas podem querer dizer.
Eu sou mais eu e isto me impede diariamente de me entregar de qualquer forma que seja. Seja numa conversa legal num barzinho qualquer com algum (des)conhecido -que sempre parece pouco interessante-, seja num relacionamento com promessas de eternidade -que nunca dura esse tanto porque sempre tem algo no outro que não me satisfaz. Eu sou mais eu e isso me impede de evoluir no trabalho, porque sempre acho que estou à frente, que o meu trabalho é melhor e que as minhas ideias são mais viáveis que as dos outros. Eu sou mais eu e às vezes nem permito que as pessoas conheçam o meu modo de ver o mundo porque a maioria deles sequer seria capaz de compreendê-lo. Eu sou mais eu e por isso não posso aceitar que nenhum ser humano me obrigue a me anular em circunstância alguma, mesmo que eu ame esse alguém. Eu sou mais eu constantemente, o tempo todo, a cada segundo. Como uma bomba-relógio, sem descanso. A qualquer momento de entrega a qualquer sensação, sentimento ou pessoa, eu me dou conta de que ninguém merece esse risco e então volto ao meu centro e decido caminhar por conta própria. Eu sou mais eu e por isso não consigo baixar a guarda, ceder, dar o braço a torcer, porque simplesmente é demais pra esse EU tão grande que ocupa tanto espaço e que me sufoca mas que concomitantemente rejeita qualquer traço de anulação. Eu sou tão mais o meu jeito de viver que isso me impede de compreender quando as pessoas preferem um jeito alternativo. Eu sou tão mais os meus gostos e as minhas preferências que rejeito tudo o que é novo, diferente, inovador.
Eu sou mais eu e isso me faz só. Ninguém mais cabe nesse egocentrismo todo, não há espaço para outros pontos de vista, outros planos de vida, outros personagens. Alguém que venha mudar meu centro de lugar, que venha me apontar novos horizontes, ou que me faça abrir mão de qualquer convicção. Eu sou mais eu, por isso mesmo não sou mais outro alguém. Muito menos sei ser dois.
E tudo o que eu queria nessa vida é ser menos eu. Ser menos eu e ser mais você. Ser menos eu e mais qualquer outra coisa nessa vida. Qualquer plano maior, qualquer sonho coletivo. Qualquer vida em par.
Eu-sou-mais-eu e este é o meu maior defeito.

domingo, fevereiro 19, 2012

"O primeiro passo dado na direção certa abre precedente pros demais, que se tornam mera consequência. Toma impulso. O que faz a diferença é não hesitar."

Trecho do texto Pequenas Coisas do blog Live in Skin, de Nicolle Albiero

Toda Paz Que Houver no Caminho

Cada segundo em que eu sofri por você, cada um deles. Cada minuto em que eu observei seus gestos de longe. Cada momento em que eu pensei em nós dois. Cada um dos dias que eu passei esperando seu amor. Nenhum deles se compara ao que eu estou sentindo agora. Aquela dor toda me consumia por inteiro, revirava meu estômago, devorava meu fígado, exauria meus pulmões. Mas, ironicamente, isso me mantinha viva. Era como um tapa na cara dessa vida ingrata dizendo 'ei, você tá viva, enche esse pulmão de ar e continue andando, ainda que com o rosto arrastando no chão'. E funcionava, como se o seu amor me cortasse em pedaços e como se eu deixasse de existir por dentro só pra abrigar essa dor excruciante e latente e irritantemente perseverante. E isso me mantinha acesa, eu tinha algo por que viver, eu tinha alguém em quem pensar à noite, eu tinha um motivo pra acordar de manhã. E na falta de um par de ouvidos pacientes pra tamanha intensidade, pra tamanha profusão de sentimentos, minhas mãos afoitas usavam qualquer pedaço de papel como válvula de escape.
Depois de tudo o que a gente passou juntos e separados, depois desse tudo que agora já nem parece tanto, depois de dois cadernos e meio gastos com seu nome, com a descrição dos seus olhos, com nosso passado, com nosso presente e, principalmente, com nosso futuro, meu coração finalmente voltou a bater em um ritmo normal, meu cérebro finalmente encontrou um horário adequado pra repousar, meus órgãos voltaram a exercer suas funções vitais que é viverem em função do meu bem estar físico e mental e eu finalmente encontrei um cantinho nessa vida em que eu pudesse me acomodar. Eu finalmente encontrei um ponto na estrada que eu pudesse chamar de lar.
E agora tudo parece tão calmo e milimetricamente encaixado que eu poderia dizer que cheguei no fim, na morte. Não há nada que eu tenho que fazer que não possa esperar até amanhã ou até semana que vem ou que não possa ser feito por outro alguém. Não há ninguém esperando minha ligação e não há ninguém pra quem eu queira ligar às 1h07 da manhã. Não há ninguém por quem eu possa derramar uma lágrima, de alegria ou de tristeza. Não há nada que me faça querer escrever palavras de amor ou de ódio.
É assim essa paz, essa calma. É vazia assim?
Chego a duas possíveis conclusões: eu preciso me apaixonar de novo ou eu preciso reaprender a escrever quando em paz.
Porque pra me sentir viva de novo, intensa de novo, e cheia de novo, e inteira de novo, mesmo que de cheia e inteira e intensa só me reste a dor, pra ser parte de algo ou alguém, mesmo que as custas de mim mesma, eu deixo pra trás toda paz que houver no caminho.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Descabido

Você percebe que as coisas estão fora do lugar quando você esquece que nome dar pra tudo o que você já viveu, quando você não se lembra mais de como se sentia. E, quando você se dá conta de que já é tarde demais, de que já passou pra todo mundo e você é o único preso naquela realidade puída, o único que não se apegou a mais nada, é aí que você começa a mendigar umas razões pra viver. Você passa uma semana sem se lembrar e, quando se lembra, sente culpa, e culpa insana já que você é o único que segue cultivando aquele apego bobo, infantil e ultrapassado. É aí que você começar em vão a tentar se lembrar do que te faz feliz. E então você percebe que, de alguma forma inexplicável, essas coisas que te fazem feliz já nem existem mais. E que você não consegue, nem emagrecendo vinte quilos ou se cortando em mil pedaços, se encaixar no óbvio. E que você não é capaz há muito tempo de ser feliz ou sequer de caber no espaço milimetricamente pouco e ingrato que o universo é capaz de te oferecer.

Amorescendo

Tudo na gente era fabulosa e alegoricamente bom até o dia em que você tropeçou nas suas promessas e fez aquilo que eu mais poderia odiar. Você atropelou nosso sonho de perfeição e capotou todos os nossos planos, fez tudo virar uma ilusão confusa. No espelho atrás de você eu pude assistir o pavor cisalhando meu rosto, fazendo-o parecer amargo, enquanto você procurava palavras pra explicar os motivos de você não poder me amar da forma que eu sempre pedi. Você misturava uns pedidos desajeitados de desculpas com justificativas bem elaboradas e eu não sabia mais se você queria o perdão ou um jeito suave de jogar tudo pela janela. Eu não me aguentei muito tempo naquela intensidade toda e saí correndo, esquecendo de pegar meu casaco, de terminar a conversa e de dizer adeus ou volto logo.
Eu cheguei na minha casa ainda me esquecendo de toda a força que eu prometi ter quando as coisas saíssem do jeito errado, quando a vida forçasse as escolhas por mim. E foi assim que eu dormi, chorando pela inevitabilidade de ser eu mesma naquele momento vivendo aquele desvio de curso. De amar como eu amava e de necessitar especificamente e intensamente da forma como eu precisava, não bastando pra mim outra forma qualquer de amor. E eu chorei e me escondi um dia. E outro. E mais outro até se alterarem os padrões de cores no pedaço de céu que eu via da janela do meu quarto, e até mudar a temperatura da noite e até que eu mudasse.
Ao longo de alguns dias ou algumas semanas ou alguns anos eu percebi que a vida brinca com aquilo que chamamos de destino e troca as nossas opções de lugar, mas não nos impede de seguirmos o alvo que escolhemos, só nos obriga a andar por um trajeto diferente. Eu precisava de que o meu amor fosse como eu queria. Mas no meio dessa espera do dia em que eu iria mudar a forma como eu via o nosso amor eu descobri algo de que precisava muito mais do que estar certa: eu precisava de você, com toda a sua insegurança, seus desvios e oscilações. Eu precisava de você por tempo indeterminado, pois era a minha única chance de te ter pra sempre.
Eu aprendi de uma forma desgostosa que eu amava você de verdade, e pela primeira vez eu me senti pronta pro nosso amor porque agora sim eu estava pronta pra amar seus defeitos, e eu não estou falando do seu mau gosto pra filmes ou do seu corte de cabelo inadequado, estou falando dos seus desvios morais e das suas falhas de caráter que eu entendi que todo mundo tem um pouco. Estou falando daquilo que você sempre vai fazer ou dizer mesmo que eu sempre reclame e mesmo que você me ame demais, porque você é você muito antes de ser meu.
Eu não fui atrás de você enquanto as lágrimas ainda escorriam só de ver sua foto, mas sim quando meus olhos já tinham amadurecido e aprendido a lidar com o fato de eu te amar mais do que meu orgulho. De quando meu coração aprendeu a pesar os prós e contras dessa exposição toda que é o amor. E se amor rima com dor e não rima com felicidade não deve ser coincidência. Porque rimar amor com dor é fácil, mas rimar amor com felicidade requer muito peito pra enfrentar o caos deste universo transposto, deslocado e aparentemente injusto e muita maturidade pra se permitir arriscar numa incerteza tão profusa e assertivamente insana.
Eu não sei se eu sou madura pra aguentar, mas eu amo o suficiente pra apostar todas as minhas fichas e pagar com a minha alma no final se eu tiver as cartas erradas.
Eu te amo, meu bem, e eu quero pagar pra ver. E é por isso que é bom olhar nos seus olhos agora e enxergar não a surpresa de quem não sabia que eu viria depois de tantas estações, mas sim o esgotamento da espera de quem creu que eu era inteligente demais pra entender tudo e voltar rápido.
Eu demorei mas cheguei, meu bem. E agora eu tô pronta pra gente se amar da forma que der, do seu jeito fundido com o meu, com sorriso satisfeito, torto, orgástico, surpreso, feliz, alegre, amarelo, desgastado e, principalmente, com um sorriso enrugado de quando chegarmos juntos ao final de nossas vidas.

Book Me

A coisa mais sexy em você não é o jeito que você penteia o seu cabelo ou deixa de pentear, e sim esses óculos que não saem do seu rosto, que te tornam sempre pronto para uma nova leitura. O lugar mais sensual do seu apartamento não é a sua cama com lençóis de seda egípcia ou com travesseiros de penas de ganso, mas sim aquela prateleira amontoada de livros sobre uma escrivaninha que já está abarrotada de papeis, de livros gastos, com cheiro de poeira, orelhas e páginas amarelas, porque você não tem dó de usá-los e de tirar o máximo deles. A coisa mais atraente em você não é a forma como você se veste e nem o fato de você ir ou não à academia, e sim a sua inteligência que parece querer transbordar. O seu vocabulário desafiador e os seus assuntos intermináveis. A sua capacidade de falar de tudo e de convencer todo e qualquer ser humano do que você quiser, sem sequer ousar se impor. A coisa mais fascinante no nosso amor é você se importar tanto com a minha forma de pensar, a ponto de se esquecer de que eu tenho celulites ou de que eu passei duas semanas do dia de retocar a tintura do cabelo. A coisa mais sedutora da sua boca não é o sorriso, e sim a agilidade com que ela se move pra falar de qualquer coisa, e a forma como tudo nela vira poesia. O melhor gosto da sua boca não é de pasta de dente, de bala halls, tampouco de um whisky. O melhor gosto da sua boca é do beijo que você me dá ainda com gosto do café que você bebeu pra aguentar terminar aquele capítulo fascinante daquele livro que você tá lendo pela quarta vez porque te faz lembrar de nós dois por motivos que você repete pra mim quando vem pra cama, e este é o melhor começo de todo o resto. O lugar onde eu mais gosto de ir com você não é aquele restaurante chique no centro da cidade que precisa de reserva com um mês de antecedência, e sim cada lugar que você me revela, me ensina, me descreve, me permite viver. Cada lugar de cada capítulo de cada livro, todos saindo da sua boca, enquanto eu te interrompo com beijos sedentos. A minha melhor roupa não é aquele vestido caríssimo de marca que você me deu no nosso primeiro aniversário de namoro, mas sim aquela camisa desbotada que já tem o cheiro do seu perfume, dos seus livros e da sua esperteza. A coisa mais sensual em mim não são meus olhos com uma cor incomum, tampouco é um formato curvilíneo tipicamente brasílio.
A coisa mais sensual em mim é, de longe, o fato de você me desejar.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Incomedido

Todos os dias acordo pensando que nasci pra amar.
Toda vez que me pego amando eu sou inteira. Mesmo que inteiramente entregue, completamente disponível. Eu amo de forma completa, incomedida. Algumas pessoas chamam de descabida a minha forma de amar, e repetem isso tanto que já quase me convenceram disso por duas ou três vezes. Mas eu nunca soube ser pelas metades, e tamanha entrega me dá prazer. Mas às vezes não cabe, e eu acabo entornando. E isso assusta quem quer que esteja dividindo o colchão comigo. 
É sempre assim. Eu sou a primeira a dizer eu te amo, a primeira a convidar pra uma festinha de família, a primeira a dar sinal de ciúmes, a primeira a perdoar, a primeira a enxergar um futuro, a primeira a enxergar o que temos em comum e o que em nós está em desacordo. Eu sou sempre a primeira a enxergar uma relação, um compromisso, uma intimidade, bla bla bla. E todo esse papo chato cansa cada cara que aparece na minha vida tentando ser amado por mim, e eu começo a apostar comigo mesma quanto tempo cada um deles vai durar. Às vezes eu penso que algum babaca covarde espalhou seu DNA pelo mundo. Mas às vezes eu converso muito com pessoas normais e acabo achando que eu to vivendo errado, fora do roteiro de uma vida saudável para os pulmões, para o estômago, para a mente, para a alma. Mas rapidinho eu me canso desse tédio todo e só consigo pensar 'pouco, pouco, pouco', e volto a procurar avidamente por um all star estiloso no meio da multidão, ou por um olhar de ressaca, ou por um telefone quieto deixado de lado num canto de mesa, ou por um pár de óculos em frente a um romance policial, ou por um café com creme duplo em cima, tentando achar uma história que bata com a minha, tentando achar a pessoa certa pra receber tanto amor.
Aí eu não encontro de novo e torno a cair nesse dilema existencial e me pergunto se eu não deveria me fingir de polida, comedida, milimetricamente controlada, racional e compreensiva, apenas pra dar a um cara qualquer o tempo que ele precisa pra me amar tanto quanto eu o amei desde o primeiro momento em que o vi. Então eu começo a rir e penso que eu nunca me contentaria.
Eu sei que só vai ser pra sempre quando ele me amar primeiro e com olhos intensos e mãos afoitas e palavras gaguejadas. E ele irá fazer tudo errado e irá derramar café em mim e irá me fazer perguntas inadequadas e irá ter pressa de tudo comigo. E irá me amar no sofá e no tapete da sala e irá cuspir um eu te amo no nosso primeiro café da manha juntos. E então eu vou saber.
Mas eu erro toda vez. Eu já caí muita vez nesse ciclo, e de contar nos dedos só faço me sentir velha. Eu penso 'tá demorando'. Aí eu me deito debaixo do edredom mais macio, me enrolo como uma criança mimada e só não faço birra porque moro sozinha e não tenho ninguém pra me adular. Aí eu aperto os olhos e oro de uma forma infantil, que é como sou capaz de me lembrar. E depois não sobra nada. Nem a bebedeira de gente grande tira de mim esse vazio que me faz querer chorar como uma criança.
Todos os dias eu durmo pensando que eu não nasci pra ser amada.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Verbo Amor

Eu te seduzo com palavras, te chamo por pronome possessivo, e te adjetivo todinho como eu bem entendo. Em todas as minhas orações você é o sujeito e eu não me importo quando você rasga o verbo e me faz de objeto. E quando você se dirige a mim você me subjuga, e parece não ter ideia do efeito de sentido que causa em mim. Eu me entrego aos seus recursos linguísticos, estilísticos, metalinguísticos. E é aqui, entre quatro parênteses, que nosso amor discorre nessa narrativa sensual, desta forma tão peculiar. Te amo da forma mais eterna que sou capaz: te amo com as palavras.

Guardei pra depois...

Aquela manhã estava tão cheia de Sol que lembrar de ti foi natural. Me veio a imagem de você na sua casa na praia que eu nunca vi nem foto e na minha mente você fazia pose de dono daquele oceano. E me lembrei da exata cor da sua pele, do seu cheiro e do seu jeito de pegar na minha mão. Me lembrei até da sua tatuagem clichê de um dragão no braço. Me lembrei da sua cor de canela daquele Sol quente da Bahia, do seu cheiro de mar misturado com um aroma de inocência de interior, da sua pegada forte de uma intrepidez de capital.  E você é mesmo tudo isso, essa coisa louca, é tudo em um só, só pra me fazer te querer de todas as maneiras possíveis. Me faz querer tirar o que te sobra de inocência e me desvairar na sua inconsequência. Esse jeito de Brasil afora, essa lábia internacional e esse sorriso que parece de outro planeta. Me lembrei tanto de você que quase me esqueci do que estava falando. Ah!, claro. Me lembrei das madrugadas perdidas em conversas nas quais você me fez perceber o quanto eu não sei nada de nada. Então eu ia dormir me sentindo cada vez mais burra. E me lembrei daquela noite em que você me levou pra caminhar no mar e era madrugada. E eu achei que estávamos caminhando a esmo mas você tinha preparado uma rede pra nós dois, um vinho barato e uma toalha no chão, do jeitinho da nossa simplicidade de ser, e nós falamos de tudo. E aquela noite foi tão longa que eu poderia dizer que ali se foi metade de minha vida. E como durou tanto eu me lembro de muito pouco. Mas eu me lembro de você mexendo nos meus cachos e de fingir que eu era sua. E de fingir que você queria que eu fosse sua. E você, diferente de todos, nunca me tratou como menina, mas como mulher e eu queria ser essa mulher pra você. Você sabia que eu não era assim tão inocente desde sempre. Desde aquela vez que você me chamou de bebê e eu fechei a cara. E desde aquela vez que você disse que eu tava parecendo mulher feita e eu retribui com o sorriso mais sedutor que eu consegui. E desde aquela vez em que eu tirei o vestido e fiquei só de lingerie e fingi que não sabia que você podia me ver, e você, claro, fingiu que acreditou que eu não sabia mesmo, e depois desse dia você nunca mais me olhou do mesmo jeito. Mas nessa noite foi a primeira vez em que você ousou me tocar mais ousadamente, e fez um convite disfarçado, como quem não quer nada 'bora caminhar na beira da praia?'. Mas você sabia que eu iria, é claro que sim. Você sabia o quanto eu te queria desde sempre. E por uma noite só a gente foi um do outro. Eu sabia que você não tinha nada de meu. Você não tinha nada de ninguém. Você nunca foi homem de se deixar pertencer. Eu te conheço há muito tempo, tempo suficiente pra saber mil histórias sobre o quanto você consegue ser canalha. Mas naquela noite eu fui sua. E você foi meu. E eu não me importava de explicar para o mundo que não havia razão de ser, que não havia justificativa plausível, e que nós não tínhamos nada em comum, e que você nunca seria capaz de me amar. E a verdade é que eu nunca seria capaz de lidar com a noção de você me pertencer de alguma forma, eu não saberia dividir você com ninguém, porque eu te gosto de uma forma possessiva, e detesto te ver olhando pra outras mulheres. E por isso mesmo eu não me jogaria num relacionamento tão autodestrutivo. Mas a gente foi tão bom naquela noite. Tão bom. Mas a noite acabou quando mais parecia querer durar pra sempre. E você me pediu pra ficar até o Sol nascer, mas eu te disse que isso não era possível, porque de mulher eu só tinha a vontade de você, e precisava estar na cama quando a casa acordasse. Daí você olhou e me fez jurar que eu guardaria pra ti um por-do-Sol. E hoje eu já sou mulher, pago minhas contas e cumpro com todas as minhas obrigações de gente grande. E estou esperando o dia em que você vai me ligar e pedir pelo Sol que guardei pra depois.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Calendário

Dois segundos de distração e me empurraram uma taça de champagne e em seguida começaram a tilintar suas taças contra as minhas. Então começaram a me abraçar e a derramar um emaranhado de palavras confusas, que recaíram sobre mim como uma grande responsabilidade, porque só conseguia ouvir palavras avulsas como sucesso, conquistas, sonhos realizados e saúde e eu não sei se dá tempo de fazer tudo em 2012. Me assustei porque nos meus planos alguns dos meus projetos levariam a vida inteira, e aí essas pessoas vieram querendo que eu dê conta de tudo em 365 dias e eu enlouqueci. E eu sempre deixei um certo espaço para as surpresas da vida, mas tudo o que eu ouvia era pessoas requerendo de mim firmeza e determinação, então eu me senti sufocada. Mas brindei e bebi e então esperei o fim da contagem, aquele momento em que tudo iria mudar e... e nada. Eu me sentia da mesma forma, com a mesma confusão, com os mesmos objetivos, com a mesma calma em viver e com as mesmas pessoas estranhas em volta. Meus amigos ainda pareciam os mesmos, minha mãe com o mesmo semblante de sempre, e aquele mesmo bando de gente estranha que pareciam iguais às pessoas que estavam na festa da semana passada, e iguais às que estavam na balada de semana retrasada. Aquele monte de gente com roupas iguais, com o mesmo jeans de marca, com o mesmo cabelinho alisado e luzes californianas, com os mesmos sonhos. Aquele consumismo moderno e aquela cultura que torna tudo descartável. Aquela mesma urgência, aquela mesma pressa de queimar etapas de suas vidinhas medíocres, pra ver quem conquista mais rápido o sonho do outro. E eu me senti tão deslocada, tão desinteressada em comemorar a virada de um dia qualquer, que se resume à troca do calendário que estava na minha parede. Como assim ano novo se meus sonhos são os mesmos? Se eu continuo querendo abraçar o mundo e ele continua não cabendo nas minhas mãos? Como assim conquistar meus objetivos se eu nem conquistei ainda meu jeito de sonhar? Se eu planejo hoje e amanhã me reinvento? A minha vida mudou tantas vezes no último ano que eu poderia ter trocado de calendário várias vezes, brindado várias vezes, me vestido de branco, vermelho, amarelo ou verde, porque minha vida recomeçou em pequenas surpresas, e se reinventou em pequenos encontros. A minha pressa não é de sonhar, não é de conquistar, não é de obter. A minha pressa é uma só, e é de viver. O que eu quero hoje eu vou atrás pra ver aonde me leva. Ou senão eu digo pra esperar e vou viver o meu tempo debaixo do cobertor ou na frente de uma tevê que não exige de mim muito o que pensar. Não tenho mais pressa de conceitos, de definições ou de certezas, já que todos esses podem ser reescritos e tudo dependerá de mim. E boa sorte aos pobres mortais que só se permitem mudar uma vez por ano, porque o relógio pra eles estará correndo. Enquanto isso eu estou aqui, e posso largar tudo, jogar pro alto e mudar a minha vida quando eu bem entender. E se precisar eu jogo fora o calendário pra não ter que olhar pra ele nunca mais. Porque eu quero sonhar quantas vezes eu for capaz.

domingo, janeiro 01, 2012

Outro pedaço de realidade escapa pelas minhas mãos.
Eu novamente me pergunto o porquê de mudar tanto.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Ckarinho?

Sabe as coisas importantes das nossas vidas? As decisões relevantes? Como que profissão você escolheu pro resto da sua vida, ou com quem você vai casar, ou a cidade em que você mora? Então. Isso daí todo mundo sabe, todo mundo vê. É só saberem teu nome e já vão te perguntando sobre as coisas relevantes da tua vida. O contrário disso é dividir-se nas partes mais peculiares, nos pormenores, naquilo que é intrínseco. E isso é pré-requisito pra aquilo que eu chamo de amizade.
O início desse ano foi de muitas mudancas pra mim. Eu me afastei de uma realidade que ocupava quase todo o meu tempo. E ir de cem a zero de repente foi um bocado dolorido. E pra quem tinha muito o que fazer em um dia com muito poucas horas, eu passei a ter tempo ocioso demais e de cara comecei a reavaliar muita coisa na minha vida. Por isso me coloquei, tanto quanto fui capaz, na posicao de observar. Durante o que considero muito tempo não criei lacos, não me confidenciei com ninguém, estava bastante sozinha, mas confortável. Você sabe bem o que eu penso da amizade, da energia desprendida para cultivar uma dessas, e do desconforto de uma separacão indesejada. Você sabe o que eu penso das pessoas, da ciclicidade de relacionamentos, e dos lacos que construimos ao longo da vida. Você sabe pelo menos o que eu acho que penso. E foi assim, despretensiosamente, dividindo uma e outra perspectiva -duas adolescentes compartilhando visões de mundo, risos- que fui encontrando em você coisas que eu nunca procurei, mas, de cara, fui sentindo que precisava. Eu não sei se é porque, pela primeira vez na minha vida, eu sentia cada vez menos necessidade de aceitacão, ou porque eu buscava cada vez menos criar lacos, que eu fui me mostrando pra você sem me preocupar exatamente com o que você iria achar disso. E você foi gostando de mim e retribuindo a honestidade. Quantas vezes eu não já confessei que pensava de uma forma que me fazia me sentir detestável, e você nunca me julgou por isso. E, é claro, no início trocávamos infinitas frases de carinho ou admiracão, porque a gente ainda carecia desse cuidado, não é? Mas aí a gente foi pegando um jeito uma da outra, o ritmo, o humor, os pontos de vista, e foi se dividindo e se expondo cada vez mais, de uma forma que acontece com poucos. E por não enxergar pessoas assim -talvez pela preguica de procurar- eu fui me acomodando a você, passando a depender do seu ponto de vista, do seu parecer, do seu tom sarcástico e daquela piada que eu já sei que você vai fazer mas ainda assim eu vou rir. E acho que é tão evidente a admiracão mútua que temos, que nós sequer nos damos ao trabalho de ressaltá-las no dia-a-dia, trocando-as por humilhacões em publico e piadas depreciativas que poucos entendem, num humor que faz apenas a gente, acredito, rir sinceramente. Pode parecer patético, infantil, avesso e contradizente, mas isso é a gente, e eu não tenho porque reclamar. Você sempre fica falando essas coisas depreciativas, se colocando num grau abaixo na nossa amizade, e é o único momento em que eu quero te matar, porque parece que você não percebe o quanto eu me tornei você, parecida com você, dependente de você. Eu me assusto porque juro que não é de propósito. Quando eu percebo, eu me lembro de você por algo que eu falo, por uma piada que eu faco mentalmente ou por uma careta, e eu já não faco porque me lembro de você, mas me lembro de você porque as faco. No momento da minha vida em que eu mais queria não ter um amigo pra esquentar a cabeca, não ter alguém que me fizesse querer matar aula pra continuar uma conversa, não ter alguém pra sentir falta nessas drogas de férias, não ter alguém pra sonhar que vai pra mesma universidade que eu, não ter alguém pra fazer planos de dividir o quarto e as aventuras universitárias comigo, você me aparece e praticamente me obriga a te amar, porque simplesmente não tem como ser o contrário. Eu não sei se você já percebeu que eu nunca falei muito nessas coisas. Nunca planejei nada com você pro futuro por minha conta. Porque até hoje eu não me acostumei com a frustracão de ter falhado nesses objetivos no último ano. E dessa vez acho que seria mais dolorido, porque nesse ano que se passou, todas as lembrancas naquela escola e boa parte de fora dela se resumem a você. Parece que meu ano comecou junto com a nossa amizade. Você foi exatamente a pessoa que me ofereceu suporte quando eu não procurei, e eu nem sabia que isso era possível.
Eu não sei explicar o quanto eu te admiro ou o quanto gosto de ti.
Acho que você foi, mais ou menos, a primeira pessoa com a qual eu tive todo o cuidado de reservar minhas demonstracões de afeto, para que essas fossem correspondentes à realidade, e não resultado de uma euforia momentânea. Eu guardei muitos te-amo-amiga que quase me escaparam antes de ter certeza da profundidade do laco que construimos. E depois disso, tudo o que faco em relacao a você é verdadeiro demais, espontâneo demais, e eu quase não tenho receios de me expor a você. E eu sei que, não importa quantas idiotices eu já tenha feito, ou quantas bandas ruins eu já tenha ouvido, ou quantas bandas boas eu goste e você não, ou o quanto eu posso ser paciente com coisas que você jamais seria, ou o quanto eu posso acreditar em algo sem ver, você me ama. E eu vou fazer de tudo pra preservar o seu amor. Porque eu só disse isso antes uma vez na vida e não errei, e agora sei que não vai ser diferente: eu nunca, NUNCA vou encontrar uma amizade que consiga comparar com a sua.
Te odeio.

domingo, novembro 27, 2011

Em Paz

Quando se trata de nós dois, a segunda coisa que eu mais quero nessa vida é te beijar, contar pra o mundo -e pra ti- o quanto eu te desejo quando você vem com esse jeans colado, ou quando você dança perto de mim com essa risada no rosto de quem está só se divertindo, mas com um rebolado sensual que diz exatamente como seu corpo me quer. Mas a primeira coisa que eu mais quero é que você continue na minha vida pra sempre. Eu vivo em cidade grande, pais separados, e mal ouço falar de casais pra sempre. Não assisto novela, mal vou ao cinema, porque não tenho tempo pra me enganar com essa superprodução caríssima de romances baratos. Não tenho tempo pra acreditar em amor eterno. Me desculpe, eu sei que você disse pra sua melhor amiga o quanto você me queria, e que eu era seu melhor amigo, e que você aprendeu num filme que, quando começa com amizade, tem tudo pra dar certo. E eu acho engraçado esse seu jeito firme de acreditar nas coisas tortas. Mas você não teve coragem de dizer isso pra mim, não sei bem o porquê. Talvez porque você, com toda essa pose de mulher crescida de capital, não sabe ainda correr atrás do que quer porque sabe que a nós, homens, nos restam ainda muitos ossos machistas e que prezam o orgulho da conquista. Mas, hei!, eu não seria assim com você, é claro que não. Não importa o quão cafajeste eu já tenha sido com alguém, não tem nada nesse mundo que eu preze mais do que essa nossa amizade. E é por isso mesmo que, quando eu ouvi que você me queria, num primeiro momento meu sangue aqueceu e minhas mãos procuraram afoitas o meu celular no bolso pra te ligar imediatamente. Porém, no momento seguinte, eu enrijeci, meu sangue congelou nas veias, e eu fiz o que deveria ter feito antes: fingi que não ouvi, ou que se tratava de um engano. Você sabe quanto tempo levou pra eu conhecer alguém como você? Tenho trinta e dois anos e, entre colegial, faculdade, trabalho e balada, você é a única mulher que permanece na minha vida e que me conhece por dentro. Não é que eu não tenha mais amigos. Mas é que eu não tenho mais ninguém como você. Você sabe que com os caras eu falo de futebol, de mulher, falo mal do meu chefe, e todo esse papo supérfluo. E é divertido. E eu sei que posso contar com eles. Posso. Posso, mas não conto. É com você que eu conto. Você é boa ouvinte, tem paciência, colo quente e mão leve pra me acariciar. E com ninguém mais eu me daria o direito de me expor. Nem mesmo com minha namorada. Pois o problema todo no amor é a exclusividade. E eu nem estou falando da exclusividade monogâmica, mas sim da especificidade da entrega. Necessita entrega completa e quase que pra uma pessoa só. Restam muito poucas coisas que se pode compartilhar com os outros. E é tão bom o que eu tenho contigo, pois se eu tenho uma semana cheia eu posso muito bem só pensar em ti e saber que eu te amo, e ainda assim não precisar ligar pra você só porque eu tenho obrigação de sentir tua falta. E é tão bom, depois de duas semanas sem te ver, chegar na minha casa e encontrar você na porta com uma pizza na mão, e entender o significado de saudade. É tão bom ir atrás de você e fazê-lo porque eu quero. E ter uma ou outra namorada, mas ainda assim só pensar em ti quando me deito, só me preocupar com você, porque é a quem eu quero o bem. E é por tudo isso que eu não posso nos sacrificar. Eu prefiro passar o resto da minha vida te desejando quieto, tendo apenas essa visão agradável enchendo meus olhos, te tendo só como amiga, te ver me esquecer e se apaixonar por outro, te ver se casar -pois você é menina de casar-, ter filhos, se afastar um pouco de mim, mas nunca deixar de ser minha melhor amiga. E a gente vai passar um tempo sem se ver, mas quando nos esbarrarmos no caixa do supermercado, vamos ter tanto pra lembrar; e vamos marcar um churrasco, e você vai me apresentar pros seus novos amigos na sua nova casa com seus filhos e seu marido e eu vou saber que fiz a coisa certa em te deixar ser feliz; e eu estarei feliz em poder ver isso, ainda que com um amor nostálgico e dolorido no peito. Eu prefiro tudo isso a arriscar tudo o que nós construímos e ver tudo se desgastar por obrigações, cobranças, um compromisso nonsense. A sinceridade vai se tornar perigosa, e nós vamos acabar brigando e não entendendo o porque de a coisa não funcionar, e aí nós vamos nos esquecer porque éramos tão amigos, ou porque nos amávamos tanto, e eu vou te perder pra sempre, e nós nunca mais seremos os mesmos juntos. Então nós vamos jurar que continuaremos sendo amigos, mas vamos nos afastar aos poucos. E então vamos parar de nos ver, de nos ligar, e de nos dividir. E, muito tempo depois, quando nos encontrarmos naquele caixa daquele supermercado, vamos trocar um sorriso sem graça, com polidez e certa indiferença, e o arrependimento por ter te perdido vai doer no meu peito.

Eu prefiro te ver feliz, porque eu não acredito em conto de fadas, mas você acredita e precisa de alguém que esteja disposto a tentar, em vão, viver um contigo. Enquanto isso eu vou sofrer de amor. Mas eu sou frio, e no meu peito esse amor vai doer em paz.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Sem nome

O tempo passa e a gente perde o jeito de sentir saudade. A lembrança vira saudade, a saudade vira nostalgia, a vontade cresce e se anestesia, e o amor vira algo que não tem nome.

Hiperbólico

Eu nunca acreditei. Nunca acreditei que mensagens que acordam alguém no meio da madrugada poderiam fazer sorrir. Ou que uma comédia romântica clichê pudesse ser menos entediante quando se tem uma mão pra segurar. Nem que um beijo poderia te causar calafrios em partes do seu corpo que nem existem. Nunca acreditei muito que confiança fosse uma questão de construção, e sim, mero cálculo probabilístico. Nem nunca achei que trair a confiança fosse falta de consideração, tava mais pra quebra de contrato. Nunca acreditei que o corpo pudesse doer de saudade de algo que não fosse ele mesmo. Ou que as canções de amor fizessem muito sentido. Nunca acreditei que se poderia desejar alguém a ponto de perder o interesse em conversas aleatórias com pessoas interessantes. Ou a ponto de se importar com quem exatamente satisfaz seus desejos. Nunca acreditei que se pode gostar tanto de alguém a ponto de preferir ficar só do que estar acompanhada por um estranho.  Nunca acreditei que café na cama fosse tão necessário assim pra realização de alguém. E sempre detestei flores como presente. Nunca achei que um relacionamento necessitava dessa entrega que todos falam. Relacionamento deve ser cômodo, agradável. Nunca acreditei em calafrios ou coração acelerado. Nunca acreditei que alguém pudesse sentir falta do meu cheiro no travesseiro, ou que fosse adivinhar meu filme preferido só de me conhecer. Nunca acreditei nessa conversa de ler o outro nos olhos, ou de encaixar perfeitamente. Nunca acreditei em querer pra sempre: deixar estar enquanto for satisfatório. Nunca acreditei em brigas calorosas que misturam amor com ódio ou em sexo de reconciliação. E nunca consegui entender a graça do ciúme. Sempre achei meio babaca. Nunca quis querer possuir ninguém, nunca quis nada que me abalasse ou me fizesse sentir desmoronar. Nunca acreditei mesmo nessa coisa de joelho mole ou mãos trêmulas: tudo medo do desconhecido, nosso corpo nos pregando peças, nada mais. Nunca acreditei que alguém pudesse preferir curtir a falta de alguém do que sair pra uma festa, ou que se dispusesse a ficar horas no telefone falando de si. Nunca vi beleza em se expor, afinal, ninguém nunca vai te conhecer mesmo. Nunca fiz questão de ser tão honesta com ninguém além de mim mesma. Sempre o necessário, somente o necessário. Nunca acreditei em querer gastar as próprias energias pra viver por outra pessoa. Muito menos em morrer de amor, em sofrer por amor, em chorar por amor. Nunca pensei que alguém poderia ser estúpido o suficiente pra se secar de tantas lágrimas por chorar de saudade ou de solidão. Nunca acreditei em eterno, incontestável, incondicional, inabalável, incorruptível, pelo menos não quando se tratava de amor. Nunca pensei no amor como... como... como amor, dessa forma hiperbólica, com esse conceito inconstrutível. Na verdade, acho que nunca pensei no amor.

Foi aí que você chegou naquilo que eu chamava de vida, e só então eu comecei a viver.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Namorado*

Brinquei de fazer sombra no teu corpo enquanto você dormia e respirei baixinho pra não te acordar; te trouxe café na cama e escolhi a roupa que você mais gostou. Tenho uma pétala guardada da primeira flor que você me deu e te apresentei pro meu pai antes de te apresentar pra minha melhor amiga. Te contei segredos irrelevantes sobre mim e chorei no teu colo sem te falar o por quê. Segurei na tua mão num dia de chuva e desejei tua companhia todos os dias que você não estava comigo. Te abracei e despedi com um sorriso, mas caí no choro quando vi o ônibus te levar. Quis correr atrás pra te buscar, mas fiquei imóvel sentindo teu cheiro na blusa de frio tua que ficou comigo. Li e reli mais de 15 vezes todas as suas mensagens e toda vez que procuro um motivo pra sorrir é o som da tua voz que o meu subconsciente coloca pra tocar. Tenho uma foto tua no meu celular e choro de vê-la sem poder te abraçar. Te tenho comigo em qualquer lugar e é triste saber que isso só existe na minha mente, e está vazio o teu lugar.

*Texto de Karolina Figueiredo



Ps.: Pra você, meu bem. As palavras não são minhas. Mas os sentimentos, esses eu te garanto, são bastante como os meus. Feliz existência pra você.

terça-feira, novembro 22, 2011

Culpa

Algumas coisas chegam ao fim, e simplesmente não se pode achar culpados. E eu levei muito tempo pra chegar a essa conclusão. Antes, cheguei a várias respostas diferentes, até mesmo na mesma resposta mais de uma vez. E quando achava que tudo fazia sentido, meu cérebro me surpreendia com um novo ponto de vista, e isso me mostrava que a minha mente nunca parou de funcionar tentando chegar a uma resposta definitiva. Mas com a ínfima maturidade que adquiri, só consigo pensar que as coisas acabam. E ninguém é totalmente culpado. E todos são parcialmente culpados. Se eu soubesse o que é a verdade, eu diria que a verdade é que a culpa é um pouco de quem mentiu. Eu, por incrível que pareça, gostaria de poder dizer que não é a primeira vez que eu sou enganada, que já fui traída várias vezes por alguém em quem confiava, só pra poder dizer que, sim, eu sou forte o suficiente pra lidar com isso e que sei exatamente o que fazer, ou que sou esperta o suficiente pra não confiar cegamente em ninguém. Mas isso não é verdade, já que houve esse alguém em quem eu confiei, sobretudo quando era capaz de desconfiar de quase todos à minha volta, e cujo nome se manteve o tempo todo fora das minhas apostas de algum culpado, e que só entrou no meu campo de visão quando apontado diretamente por um dedo amigo. Alguém que tive medo de enfrentar, por não saber se em seus olhos encontraria vergonha, culpa ou cinismo. E depois? Culpei as más línguas. Ou todas aquelas que, mal ou bem intencionadas, deram continuidade a rumores que não lhes diziam respeito. Com muito arrependimento, culpei a outra vítima dessa história toda. Mas a verdade, de novo, é que confiança não se impõe. Nem sei se é algo assim tão conquistável. Confiança você deposita em alguém e de olhos fechados. Não há confiança que não seja cega. Pois se não for cega, não é confiança e, sim, a mais simples apuração de fatos. Como não sendo capazes de avaliar totalmente alguém durante todo seu percurso, nós extrapolamos os resultados daquilo que somos capazes de ver e concluímos que alguém é ou não confiável. E, bem, confiança não implica reciprocidade. Por isso fui injusta em esperar que alguém, em quem confiava, confiasse em mim cegamente. Eu não mereço isso. Ninguém merece, afinal. E se esse alguém foi enganado e se deixou levar pelas circunstâncias, que me apontavam como desmerecedora de tal crédito, o fato é que minhas expectativas foram quebradas e ponto. Não tem 'mas'. Tem é muita culpa minha nessa história, na minha postura de prostração diante das circunstâncias. Eu tentei respeitar muita gente, e me esqueci do tão louvado e clamado _não deve ser à toa_ amor-próprio. Talvez um pouco de ousadia e de imposição tivessem me safado de algumas das cicatrizes que carrego agora. Talvez teriam acarretado outras mais profundas em gente que não merecia. Ou até mesmo em gente que merecia, mas isso não me faria mais feliz. Por isso me calei, e me abstive de fazer aquilo que hoje me parece crucial: impor minha presença e me defender a todo custo. Ao invés disso me escondi um pouco, por algum receio de ser novamente mal-compreendida. Mas relacionamentos necessitam de construção continua, elaboração, esmero, e eu falhei nisso tudo. Talvez não sozinha, mas tive minha parte nessa história. Talvez não fosse tanto amor assim, ou talvez fosse tanto amor que nós acreditamos que seria suficiente para manter sólidas as estruturas. E não foi. Isso pra mim é um fato. Mas de todas as pessoas que culpei, a que acusei mais cruelmente foi a mim mesma. Talvez por essa mania idiota de acabar perdoando todo mundo, eu desconte tudo em mim, guardando rancor de cada vez em que eu falho. Não sei me perdoar. Mal sei me pedir perdão. E eu finalmente o fiz quando me dei conta de que, antes de todos os esclarecimentos que pude obter, antes das cartas na mesa, mas depois de alguns avisos sobre os cuidados que eu deveria tomar com meu círculo de confiança, eu me acusei ferrenhamente por tamanha ingenuidade, por tamanha facilidade em me deixar levar, por ausência de capacidade de ver através dos olhos mais vazios -desses que tentam enxergar o que há de pior-, por não perceber o risco que corria de ser mal-interpretada, até mesmo por aqueles que pensei que me conheciam. Hoje tudo isso parece óbvio demais, parece um risco quase calculado. Mas eu sei que naquela época meu olhar das coisas era mais singelo. E eu com essa mania de querer pedir desculpas por tudo, pedi desculpas a muita gente. Mas eu demorei muito a pedir desculpas a quem eu tinha certeza absoluta que merecia: a mim mesma. Ninguém mais fala nisso, provavelmente ninguém sequer pensa mais nisso. Mas eu, a-última-a-saber-de-tudo, a coadjuvante na história, aquela que não-foi-o-principal-motivo pra nada, que não foi o centro de tal perturbação, e a que não sabe da-missa-a-metade, me assusto ao ver o quanto essa experiência me foi transformadora, porque eu sei o quanto valorizava as poucas coisas que considerava reais quando conquistava. E agora eu tento medir o valor das coisas antes de conquistar, pra ver se valem tal pena. Dos restos disso tudo, há pouco tempo aprendi a guardar a parte doce, a lembrar daquilo que não se consumiu com tudo isso, que é algum amor e admiração por quem conquistou isso de mim, e eu não sou do tipo que costuma jogar isso fora. E no fim, todos têm um pouco de culpa aos meus olhos, mas ninguém aqui é réu, não, meu senhor. O fim disso tudo é triste, mas é inevitável. E eu nem sei mais se sou capaz de lamentar, porque quando passa muito tempo, você se esquece das razões que te levaram a amar.

domingo, novembro 20, 2011

Partir

Eu cavei minha própria cova e não há nada de romântico nisso. Estou morrendo. Mas diferente das tragédias Hollywoodianas, não há honra aqui. Nenhum pingo de dignidade, ou algo a que os outros possam se agarrar quando eu partir. Apegar-se às boas lembranças seria o mesmo que apegar-se a nada. Deixo pra trás um passado mal-escrito e com muitos rabiscos com os quais eu tentei esconder aquilo de que mais me envergonho. E pro futuro levo uma caderneta simples, cuja capa nada transparece. Começar do zero. E quando eu digo do zero não é de uma boa maneira, como quem busca redescobrir-se. É como alguém que é obrigado a partir e só leva a roupa do corpo. E não resta absolutamente nada pra mim aqui. Mas tanto faz, não é como  se eu tivesse mesmo coisas boas pra levar comigo. No tempo em que estive aqui eu não consegui cultivar nada de que pudesse me orgulhar. Semeei vergonha, traição, vingança, morte. Morte da alma. Mas me surpreendi ao perceber que a colheita é compulsória. E agora eu não estou escolhendo deixar nada pra trás. Os outros fizeram isso por mim. Não vejo nenhum rosto já que todos me viraram as costas. Eu percebi tarde demais que estou morrendo. Eu não trouxe nada pra este lugar, nem vou levar nada daqui. Mas me incomoda é, na verdade, aquilo que eu estou deixando para trás.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Sorte

Eu estive buscando por nós dois. Cavando pra nós dois. Procurando meios, caminhos, alternativas, qualquer facilitador da nossa conexão. E era mais como se eu estivesse procurando por você, como se você estivesse em um poço bem fundo, e eu precisasse me esforçar pra conseguir o prêmio. Mas eu nunca pensei em como seria quando eu te alcançasse. Eu sempre presumi vagamente que quando eu chegasse lá você reconheceria todo o meu mérito e me admiraria por passar por tudo isso sozinha apenas para nos dar a chance que merecíamos. Mas se a busca foi apenas minha não tem nenhum nós aqui, tem? As coisas funcionam quando se trabalha lado a lado, e todo mundo precisar dar um pouquinho o braço a torcer. Mas eu nem te pedi por isso, fiz tudo direito. Eu não deveria ser recompensada por fazer o trabalho de dois? Porque eu não tenho mais energia pra buscar outro amor nessa vida. E lá estava eu, parada, com um olhar agitado acenando pra você como quem diz 'oi, já cheguei, vem me dar um beijo' e você olhou meio perdido como se não fosse capaz de me reconhecer. Mas eu não fiz tudo direito? Eu não tenho certeza se tinha alguém segurando a sua mão, talvez seja fruto da minha memória insegura. Mas eu fiz do jeito errado? Eu não amei direito? Isso não é amor, é? Acho que eu confundi. Então, se for assim, está tudo no lugar agora. Um ombro amigo me disse que foi tudo proeza do destino. Ou falta de sorte, quem sabe. Mas se Guimarães disse que sorte é merecer e ter, então eu posso culpar a sorte pela minha infelicidade, porque eu sei que eu sempre vou ser a única a merecer o teu amor.

quarta-feira, novembro 09, 2011

A Verdade das Coisas*

Eu ouvi falarem por aí que o passo apressa é o coração… Contaram com a voz efêmera da luz e esperaram como quem vagamente observa o pôr do sol. Aos corações vazios? Muitos amores! E aos românticos insaciáveis? Um bocado de papel, lápis, e uma deliciosa xícara de café, que o mundo e os corações inatingíveis, pelos quais borramos as folhas brancas A4, hão de precisar da nossa palavra para deliciar os vazios corações. E onde quer que esteja o coração de lata pelo qual borro incessantemente o papel, delicie, por favor, a tua amada com os versos meus, que tão verdadeiramente meus fazem-se teus, e assim um coração vazio a mais irá sorrir. E eu? Mais uma xícara de café, mais um bocado de papel, e a lembrança doce do sorriso e do beijo teu.
*Nathália Menezes