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sábado, outubro 20, 2012

Você chegou com um ar de quem estava só se divertindo... você me pegou de surpresa e roubou um beijo meu. E eu pensei que isso era tudo. Então você quis repetir a dose, e eu, não tão pega de surpresa assim, deixei... eu decidi que, se pela primeira vez em tanto tempo eu quis me envolver, eu faria isso. Mas sem pretensão, sem perspectivas, sem olhar muito à frente. Então 'a gente' não passava de uma coisa casual, até que, de um dia pro outro, você falou de mim pras pessoas, quis andar de mãos dadas, fez planos comigo... as pessoas olham pra mim esperando que eu diga o que é que eu estou fazendo. E a verdade é que eu não sei. E se você sabe, ainda não me contou.
Por que você está dizendo pras pessoas que eu sou mais do que algo casual, se você nunca me disse nada? Hoje eu senti algum medo, medo de estar enganada. Medo de ser pega de surpresa. Porque eu ainda não estou pronta pra nada dessas coisas que escapam do meu controle...

Sobre pertencer

E então eu voltei pra essa cidade fria e vazia, e - não sei se porque eu realmente procurei por isso, e/ou se porque eu precisava disso - eu projetei em você o meu porto-seguro. O lar, aquele que sempre está lá quando você precisa voltar. Aquele que te faz se sentir confortável, e que espera você e o seu momento. A decoração nem era do meu jeito, a fachada nem tinha a minha cara, mas era o meu lar...
Então esse mundinho sacana deu meia volta, sacudiu e te jogou pra fora do meu mundo. Foi pá-pum. Não tive tempo de pensar, de planejar, só vi você chegar sorrindo e comemorando, e tudo o que eu consegui fazer foi dar um sorriso de lábios cerrados e ficar por ali uns cinco minutos, até que eu sufoquei e procurei um canto escuro pra eu poder chorar e chorar e chorar. Por quê? Nossa, quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Eu não entendi no início, nem sei se entendo agora. Mas é que, e aí? Você vai embora e eu o quê? Vou dividir com quem minhas coisas? Vou contar pra quem aquelas surpresinhas agradáveis ou não que o dia me faz? Vou cozinhar com quem? Vou ser ouvida por quem? É, a verdade é que agora, mais do que nunca, eu me sinto só. E eu estou, mesmo, só.
Passar a pertencer tem sido um processo trabalhoso demais pra mim...

quinta-feira, outubro 18, 2012

Ninguém se importa*

Enquanto você dorme… ninguém se importa.
O dia amanhece, anoitece, bebemos, ficamos sóbrios… ninguém se importa.
Sou o muro onde o medo se apóia, sou o nada que alguém quer usar… ninguém se importa.
Sou a pedra na rua que você vai chutar,
Sou lixo que quer descartar,
Sou o que você não sabe lidar.
Sou destrato com um confidente,
Sou importante como um indigente,
Sou nada em forma de imponente.
Ninguém se importa.
Sou o que você mal vai se lembrar…
Ninguém se importa.
Especialmente você.

*Texto de Artur Caneda

domingo, setembro 16, 2012

De novo

Abriu as páginas do livro velho - presente ganhado havia anos. Estava amarelado e gasto nas bordas, mas, abertas as páginas, um cheiro particular tomava lugar nos seus sentidos. Escolheu o capítulo que mais lhe marcou. Demorou a achar, mas quando o encontrou, leu-o novamente. E chorou.
Não, o drama que as páginas traziam não era nenhuma surpresa, e ele nem vinha dentro daquela fórmula melodramática e piegas. Era muito sutil - tanto que não chorara da primeira vez; mas a sua alma sofreu com a decadência ali presente, com a ausência do futuro, com o contraste entre a lucidez miserável e o delírio deleitoso; qual seria pior? A alma sofre com essas perguntas.
Mas não foi nada disso que a fez chorar. Foi a memória - que nos prega dessas peças. Foi a memória de uma voz, de um cheiro, de um sentimento, de uns sonhos. Foi a memória de uma época.
Lembrou-se da janela de vidro que dava vista para outra janela de vidro, e as janelas comunicavam melhor que qualquer telefone.
'_Mas não acaba, não. Não acaba nunca. A gente não deixa', falou-lhe um rosto turvo e uma voz um tanto indefinida.
Queria muito e de novo a fé que tinha, àquele tempo, de que podia e iria tomar as rédeas. Sofreu porque a vida, às vezes, não deixa escolhas. E sofreu porque percebeu que, quando a gente percebe, às vezes é tarde demais. Mas parcebeu-o tarde demais.
Tentou relembrar ao máximo, tentou quase reviver umas piadas, umas histórias, umas graças, uns carinhos. E chorava, e chorava, e padecia. Tudo isso até a alma se assentar e se acalmar e respirar.
Abriu, então, novamente o capítulo e começou tudo outra vez.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Tarde

Eu me lembro de que eu estava quase curada, e eu tinha até outros braços em volta de mim. Eu tinha outros lábios atrapalhando o ritmo da minha respiração. Eu estava lá, um pouco perdida, um pouco deslocada, mas enfim, no meu canto. Então eu dei três passos e me deparei com ele. Eu torci um pouco o nariz, como que pra sinalizar o meu fechamento e a minha reprovação a tudo o que ele (não) havia dito ou feito até ali. Ao mesmo tempo eu mantive minha postura de pessoa sã e socialmente correta e interagi. Um assunto - certamente superficial - não se prolongou por muito tempo, e ele olhou pra mim com um ar um tanto incerto, um tanto indagador, e falou as palavras que eu esperei ouvir por muito, muito tempo. A gente precisa conversar, não é mesmo? Eu assenti com a voz, com a cabeça, com o corpo e com o espírito. E então eu comecei um diálogo interno me interrogando o que dizer e como dizer. É óbvio que não havia nenhum objetivo naquela conversa, mas que mal faz termos sede de entender o porquê das coisas? Todo, alguém diria. Dois segundos eu me retive nestes pensamentos e ele prontamente adiou o colóquio. Deu-me um motivo e pronto. Eu esperei muito por isso, pensei. Tudo bem. Antes tarde do que nunca. Teríamos tempo pra isso.
É (quase) sempre uma pena quando o sono acaba antes do sonho.

terça-feira, setembro 11, 2012

Em poucas palavras...

Why don't you get the fuck out of my life?

domingo, setembro 09, 2012

Queda

É uma queda vertiginosa, de uma altura muito elevada, desastrosa e constrangedora. Eu tento esconder os vestígios, mas às vezes fica difícil. Eu tento, nem sei por quê. Talvez pra poupar todos que estão por perto, talvez porque a distração é a melhor cura para o pesar. Tem dias que eu me levanto e vejo que preciso sacudir uma poeira da qual pensei ter me livrado. Tem noites em que eu me deito e penso que talvez o tempo - diferente do que diria Nicolas Boileau* - não passa assim tão rápido. Eu tenho vontade de escrever algo, mas eu não sei exatamente o quê, sobre qual assunto e muito menos pra quem ou com qual objetivo. Eu tenho vontade de falar algo, mas as palavras se embaralham no meu estômago, fazem alguma bagunça, sobem pelo esôfago e ficam encravadas na garganta. Eu tenho vontade de chorar, mas eu não sei se há bem um motivo, e é pretensão demais achar que eu posso sofrer assim, sem ter razão. Eu me esqueço dos motivos, eu ponho de lado as memórias, eu ignoro os sinais, e o que resiste, depois de tudo, é uma dor petulante e um vazio insistente.
Foi uma queda muito alta, mas as feridas já começam a parecer cicatrizes.

*"Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim."   

sábado, setembro 08, 2012

Tanto tempo

Faz tanto tempo desde aquela vez. Desde aquela última vez em que você chegou naquela van - com aquele cheiro tão nostálgico que me faz querer rir e chorar ao mesmo tempo -, e sorriu timidamente, reclamando o seu espaço naquele banco que, por um quarto de hora ou menos, era só nosso. Esse sempre foi o máximo de intimidade, sempre a menor distância entre nós. Eu me lembro bem de como você sorria sempre. Eu me lembro das nossas conversas, sempre com um ar tímido e galhofeiro, pra esconder a profundidade do que a gente dizia. Os seus sinais me confundiram, sempre, mas eu posso ver agora como você me quis. Eu posso ver que quando você me disse que ficou louco quando ouviu dizer que eu tinha alguém, não era brincadeira - no máximo, um exagero. Eu percebo agora que era verdade quando você disse que não via muita graça por lá desde que eu me fui.
Então passou-se um ano ou dois, e eu te encontrei de novo. Você naquela camisa azul de botão, parecia mais homem do que nunca. Parecia mais certo do que nunca. Mais resoluto do que nunca. Você se assustou um pouco quando me viu - talvez porque eu também parecesse mais mulher do que nunca -, e eu me demorei em te observar, como se pedisse timidamente que viesse até mim. E você veio. Você pôs seus braços em volta da minha cintura como nunca ousou fazer antes, você me apertou contra o teu peito, e eu me dei conta de que nunca havia sentido o seu coração - por isso mesmo eu não tinha como saber se o seu ritmo acelerado tinha a ver com nós dois abraçados ou se era sempre assim. Você me abraçou com tanta certeza que eu me apaixonei de novo.
Faz tanto tempo desde aquela vez em que eu sonhei com você, e você me pediu um beijo e eu acordei com o peito doendo pois era tudo mentira. E agora é verdade, quem diria.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Foco

"Foco é coisa do passado. No mundo moderno, queremos sentir tudo o tempo todo. Não faz sentido em apenas dar um passeio no parque quando podemos também ouvir música nos fones de ouvido, mastigar um cachorro-quente, vestir solas vibratórias no seu máximo, e observar o carnaval ambulante da humanidade. Nossas escolhas berram o credo de uma nova ordem mundial: estímulo! O pensamento e a criatividade se tornam subservientes à meta singular de saturar nossos sentidos. Mas sou da velha escola. Se você não estiver preparada para se concentrar em mim quando estiver comigo – conversa, toque, nosso momentâneo entrelaçar das almas –, então sai da minha frente e volte para seus 500 canais de vida com som surround." (Neil Strauss)

sábado, setembro 01, 2012

Abismo

Eu estou aproveitando quase todo o tempo ocioso de que disponho pra ser a melhor pessoa do mundo. Fiz mil planos, quero aprender francês, li sobre o nazismo, estudei sociopatia, pesquisei sobre psicanálise, deixei de ser uma analfabeta da sétima arte, li sobre a teoria das cordas, vi documentários, até aprendi técnicas estadunidenses de interrogatório. Tudo isso porque quero ser alguém mais interessante pra mim mesma. É. É isso mesmo: pra mim mesma. Eu quero me sentar com pessoas cultas e ter segurança no que dizer. Eu quero gostar das minhas opiniões e dos meus argumentos. Eu quero ter justificativas pra tudo. Eu quero saber tudo de tudo. Eu sei, sim, que é impossível. Mas eu gosto da ideia de permanecer tentando.
Então, por favor, não venha ocupar meu tempo tentando me amar. Não se aproxime de mim querendo me conhecer. Não me chame pra ver uma comédia romântica no cinema de mãos dadas que hoje eu não tô pra isso. Não me mande uma mensagem dizendo que pensou em mim antes de dormir. Não me pegue pela mão, não faça amizade com meus pais, não conquiste os meus irmãos, não converse com os meus amigos. Não cheire o meu pescoço, nem faça carinho no meu cabelo, porque, olha, eu estou muito ocupada pra isso. Não me ligue todos os dias pra saber como eu estou. Não tente me conquistar. Olha, todo o mundo que fez isso nas últimas semanas ou nos últimos meses só conseguiu de mim um maior abismo emocional.
Me desculpa, eu tô ocupada demais comigo mesma, gostando de mim mesma, cuidando de mim e de alguns amigos, e estreitando aqueles laços que me fazem bem.
Então, por favor, não diga que minha voz é linda, nem que ama a frangrância do meu perfume misturada com o meu cheiro, nem pesquise as minhas bandas preferidas e nem busque formas alternativas de se aproximar. Porque agora eu não tenho tempo pra amar ninguém.

Os opostos se atraem

"Os opostos se distraem, os dispostos se atraem..." Realejo - O Teatro Mágico

Eu me prendi várias vezes nestes versos pensando no que pretendem dizer. Ou se pretendem dizer algo. Não os deixo de admirar pela sua forma, pela maneira como brincam com o ditado tanta vez repetido. Os opostos se atraem. Um tanto cliché, um tanto verdade. Mas me pergunto se aqueles versos (des)pretensiosos não guardam uma verdade grande demais: a de que ficamos perdidos, distraídos, buscando satisfazer-nos em nossos opostos, enquanto apenas os que se põem dispostos a amar algo além das primeiras sensações são capazes de encontrar o caminho para uma relação que, mais do que intensa, é sustentável, e em que haja, mais do que uma atração irresistível, compatibilidade. Será que, na busca por alguém que nos complete emocionalmente, não nos perdemos e nos distraímos numa série de experiências que, talvez por terem tudo pra dar errado, nos parecem excitantes e atraentes e desafiadoras?
Me passa pela cabeça que talvez isso seja uma forma de buscar um relacionamento que já esteja fadado ao insucesso para que, ao final, possa-se culpar as circunstâncias ou o desgaste do tempo ou a vida. Isso nos poupa de assumir o controle das nossa atitudes e, consequentemente, nos poupa de assumir certas responsabilidades. Não culpas, responsabilidades. Isso nos poupa de olhar pra um objetivo e vê-lo como algo a ser conquistado continuamente. Os dispostos se atraem porque estão decididos a lutar e a se esforçar em prol de algo. Porque não culpam as circunstâncias, mas se dispõem a tomar as rédeas da própria vida. Porque se põem a analisar e a fazer as próprias escolhas e a aceitar as consequências delas. E porque diariamente buscam formas de fazer caminhar algo que nunca iria funcionar sem esse esforço. Porque paixão passa, porque a convivência desgasta, porque o tempo extingue. Se não há dispostos buscando atrair-se, todo relacionamento está fadado ao fim ou a um estado lamentável em que a força do hábito e o medo de enfrentar o vazio prendem duas pessoas em uma relação insatisfatória e frívola.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Air Crash

I'm flying high now, cause it's time for me to leave. I'm just trying to run away from us and our past. I'm sorry if it sounds weak, but strength it's not my gift, mostly because I have already tried to do my best. I took the first airplane, I left without saying goodbye. It wouldn't make it any easier to look into your eyes, since you told me that we don't match, don't work, don't fit, without showing any will of trying to fix my heart.
Now I'm in the middle of the air crash. I'm three thousand feet above the ground, but I've lost my fears for now. I'm gonna die in a split of second, I did a pray and I'm ready now.
Your face covers my sight, your name is all I know. My chest now is stagnant, and my lung seems so vain. But I can't understand the way I feel in soul. It's more and more calm as the fire washes the pain. But I can see your face just trying to believe it, and, even just for a while, you're going to be sorry for not holding my hands, for letting me to leave, and for a day or two you will revive our story.

segunda-feira, agosto 13, 2012

Uma breve reflexão...*

*Trecho do texto retirado do blog Just Wrapped

"[...] Isso porque apenas na vida real e não na ficção achamos razoável conviver com diálogos que não fazem sentido, pessoas que aparecem e desaparecem sem a menor explicação, eventos que parecem ser importantes mas não dão em nada e gente que passa seis anos reclamando da saudade que sente de alguém mas depois subitamente decide ficar com outra pessoa e dizer que tá tudo bem agora – here’s looking at you, Sayid. Na vida real gostaríamos de ver sentido, organização, arcos fechados com personagens que efetivamente se desenvolvem e terminam num final feliz, mas frequentemente temos que nos contentar com atuações questionáveis, gente agindo fora do personagem e eventos totalmente randômicos que não apenas não se encaixam na jornada do herói como ferem as leis de trânsito e até mesmo a constituição. [...]"

domingo, agosto 12, 2012

Teste

Eu me levantei da cama, mudei um pouco os meus planos, me arrumei, só porque eu tinha uma desculpa plausível pra te ver. Eu não queria te ver porque eu estava com saudade ou porque queria fazer piadas idiotas e te ver rir ou porque queria ficar do seu lado com as mãos nas suas o tempo todo ou porque queria me iludir acreditando que alguma coisa poderia mudar. Eu só queria me testar. E te testar.
Eu queria testar a minha capacidade de aceitação e o meu autocontrole e minha maturidade emocional. Eu queria testar a sua capacidade de ignorar tudo o que eu escrevi para você e sobre você e de olhar nos meus olhos com um sorriso empolgado e dizer um extenso oi. Eu queria testar a sua capacidade de ser totalmente indiferente ao fato de que eu vou voltar praquela cidade estranha e fria sem ter ninguém com quem contar e tendo decidido - de forma hiperbólica - que eu nunca vou recorrer a você, nem que eu esteja morrendo, porque você simplesmente me ignorou enquanto eu sofri. Eu queria ver você agindo normalmente diante de tudo e me tratando como aquela colega de turma de uns dois anos atrás, e eu poderia dizer aqui, pra causar algum efeito no texto, que você fingiu que não havia nada de errado, mas a verdade é que, de fato, você não lamenta por nada, e que pra você, de fato, não tem absolutamente nada fora do lugar.
Bem, você passou no teste. Eu não. Porque depois de tanto tempo e apesar de estar tão bem, eu tornei a chorar, uma ou duas vezes, não sei bem por quê. Talvez pela constatação de que eu tenha me entregado tanto a algo de que alguém se desfez sem sequer lamentar.

Mini-conto #5*

*Do blog Just Wrapped
Nós dois estávamos deitados na cama e ela tinha acabado de contar uma história. Coberta até o pescoço, se ajeitava no travesseiro enquanto eu encostava as pontas dos meus dedos descalços na sola do pé gelado dela, meio fazendo carinho, meio fazendo cócegas, meio fazendo nada. Ela pegou alguma coisa no criado mudo e virou pra mim, sorrindo. Eu sorri de volta e ela, encostando uma perna na minha, me perguntou “o quê?”.
Minha primeira reação foi dizer um “você é linda, sabia?”. Primeiro porque era verdade, ela era sim linda. Os olhos dela me desarmavam, o sorriso dela me deixava a 5 cm do chão, o jeito como o cabelo dela caia na testa mexia com sentimentos que eu nem sabia que tinha e possivelmente relacionamentos duradouros já tinham começado baseados em menos afeto e atração do que eu sentia pelo lóbulo esquerdo da orelha dela, num dia em que ela achava que estava “desarrumada e sem graça”, chegando do trabalho ou coisa assim.
Mas achei que um “linda” não seria certo, por conta das implicações. Afinal, se uma garota ouve de um namorado um “linda” ela acaba lendo naquilo uma mensagem implícita de que a aparência dela está sendo filtrada pelos sentimentos dele, ou seja, é um “você é linda porque eu gosto de você”. O que definitivamente não era verdade. Não que eu não gostasse dela, eu gostava muito, mas eu queria deixar claro que ela era linda como 0 kelvin é frio, os Beatles são bacanas e Mogo é o melhor Lanterna Verde: não era uma opinião, era uma constatação factual, fatal, quase científica. Naquele momento eu queria explicar, mas não soube, que ela seria linda pra um telescópio da NASA, para um visitante alienígena, pra um canoísta maori ou para um observador situado num ponto O, localizado na margem de um rio e que precisa determinar sua distância até um ponto P, localizado na outra margem, sem atravessar o rio. Lógico feito trigonometria.
Pensei em dizer que ela me fazia feliz. Que depois dela eu tinha tido contato com alguns níveis de empolgação, diversão e satisfação que eu só havia lido nos livros, visto nos filmes e observado constrangido nos desenhos dos Ursinhos Carinhos, com a vantagem de que ela tinha um gosto musical muito melhor e nunca precisou disparar raios coloridos em locais públicos, porque isso seria meio chato e constrangedor. Que em momentos assim, quando ela encostava no meu ombro, mordia meu pescoço ou apenas ficava deitada no meu peito, eu me sentia mais tranqüilo do que em casa, mais relaxado do que quando eu bebia, mais feliz do que quando eu fazia gol de bicicleta em noite chuvosa na última queda da pelada de quarta-feira. E deus sabe que gol de bicicleta – bicicleta mesmo, não tô falando de puxeta – é um troço muito foda e se eu fiz uns dois nessa vida foi muito.
E eu pensei em dizer isso. E pensei em dizer que queria que aquilo não acabasse, que a gente devia passar mais tempo assim, que queria tirar logo a carteira de motorista pra poder encontrar com ela no trabalho qualquer dia desses, que provavelmente nunca tinha gostado de ninguém daquele jeito e que eu realmente queria que ela se vestisse de batmoça em algum final de semana desses, ainda que esse tópico fosse totalmente não-relacionado aos assuntos anteriores e só tivesse a ver com o fato de que ela realmente ficaria muito gostosa de preto e com aquela máscara. Mary Marvel podia ser bacana também, se fosse o uniforme vermelho clássico e rolasse a sainha.
Mas quando ela piscou pra mim e, já rindo, me perguntou “ei, o quê?”, tudo que eu consegui fazer foi responder “o que o quê?”. Aí ela devolveu um “o que o que o quê?”, fizemos uma piada boba sobre aquilo ter virado um passa ou repassa e a possibilidade do Celso Portiolli sair gritando “valendooo” de dentro do banheiro. Daí voltamos a conversar e bem…acho que as vezes existem coisas que a gente apenas não sabe como dizer, por mais que queira.
E não, não tô falando apenas do lance da Mary Marvel.

terça-feira, agosto 07, 2012

Estranharte

Conversas cotidianas substituidas pelo tiquetaquear frenético de um relógio silente, aquele que marca o tempo psicológico, e que avança e regride ao longo dos dias, contrariando os nossos desejos mais profundos. O meu relógio parou pelo que pareceu uma década, mas eu devo estar enganada, porque só se passou uma folha do meu calendário. Olhares chegados permutados em ausência. Uma ausência tão real que chega a ser palpável.
Essa ausência que quase chega a ser palpável, por certa década que meu relógio pareceu marcar, substituiu o ar nos meus pulmões, substituiu meu apetite e algumas outras coisas que costumavam ser vitais. Mas tudo isso apenas por um período de desconhecimento e vazio mental. Me deparei com muitas formas do desconhecido, e cresci um pouco, também. Mas você consegue imaginar o quão assustador é você plantar uma tulipa, e regar, e regar, e um belo dia você olhar pra ela e não conseguir reconhecer a flor que você escolheu? Não saber dizer se é uma rosa, ou se é um girassol, ou se morreu, ou se secou? É como se algo muito estranho pairasse sobre ela, obliterando sua visão e te impedindo de chegar mais perto?
Eu nunca pensei que poderia ser tão perturbador olhar em volta e se dar conta de que o que era familiar se tornou obscuro e intocável. E eu tenho cada vez mais terror e medo e desconfiança de tentar alcançar tudo o que te diz respeito. É cada vez mais difícil pensar em você. Em quase todos os sentidos possíveis. É cada vez menos frequente, menos verossimil, menos justificável.
Quando você atravessa minha mente, quando eu me lembro de nós, quando, sem querer, eu me imagino falando com você hoje, tudo soa surreal, improvável, quase impossível. Parece-me que tem muitas peças faltando. Você-ontem, você-hoje, não são as mesmas pessoas pra mim. Daí eu me dou conta de que na realidade são, sim, e me pergunto onde é que eu estou enganada, então? Então passa-se meia dúzia de minutos e eu me canso porque não há nenhum objetivo em chegar a qualquer conclusão. Sim, eu me canso rápido. Porque nada disso me leva a lugar algum.

terça-feira, julho 10, 2012

Pessoas são como roupas

Porque a vida é um ciclo, e os mesmos sentimentos nos tomam mais de uma vez, com diferentes intensidades, eu torno a postar este trecho. Mas, felizmente, assim - ou quase assim - como vêm, os sentimentos vão.

"Não foi fácil ficar sem você. Alguns enjoos e um pouco de vômito me acompanharam no início, mas depois só sobrou a mágoa. E em seguida inveja.
Mágoa por ter desistido tão rápido de mim.
E inveja por ter conseguido."

Por @ma_b. Trecho extraído do texto "Pessoas são como roupas" do blog O Diabo Veste Renner.

segunda-feira, julho 09, 2012

E se...

E o que acontece se eu escolher correr sempre o risco de me arrepender por algo que eu fiz? E se eu nunca mais deixar de fazer o que eu quero ou o que me der vontade? E se eu não hesitar em dizer tudo o que me vem ao peito? Será que é verdade que os dias passam e a gente aprende?

domingo, julho 08, 2012

Outro presente

Toma, eu tô te dando. Pega esse embrulho, vai. Mas não esconde atrás do guarda-roupas, não enfia debaixo da cama. Abra. Abrace. Depois guarde no peito. Toma aí, vai, um pouco da fé que eu tenho em você.

Eu não sei por que você está passando agora. Seria hipocrisia dizer que eu já vivi isso, ou que eu consigo imaginar o que você tá sentindo. Mas se eu pudesse, aqui e agora, juntar toda a fé que eu tenho em você, eu te mandaria por e-mail ou por correio ou levaria comigo e te entregaria pessoalmente. Porque é muito devastadora essa força que eu tenho no peito pra acreditar em você. Você é linda e inteligente e esperta e engraçada e agradável e gentil e amável e interessante e franca e sincera e o que mais eu posso dizer? Que você tem tudo pra ser amada? Sim, você tem. É verdade que talvez as pessoas às vezes nos oferecem  um amor limitado e pouco e mesquinho. E é verdade que as pessoas geralmente amam por motivos errados ou pequenos ou egoístas. Mas também é verdade que há pessoas no mundo que sabem amar de forma completa e que sabem se entregar e que sabem juntar o vazio que têm no peito pra se preencher mutuamente. Neste ponto, meu bem, você está enganada se pensa que é o único exemplar neste mundo. Te amar, pra quem está a sua volta, é quase compulsório. Então apenas deixe. Deixe as pessoas te mostrarem que não acabou. Que não é por ai. Deixe as pessoas se aproximarem, e talvez até te amarem pelo motivo errado, até entenderem, então, qual é o certo. Porque quando elas chegarem onde eu cheguei, quando elas encontrarem você por completo, quando elas alcançarem o lugar que poucos conseguem alcançar, elas não vão querer sair.

(Mas, é claro, eu estou falando daquelas pessoas que sabem amar.)

terça-feira, julho 03, 2012

Desculpa

Você chegou olhando em volta com esses seus olhos profundos e com esses cílios longos e grossos que parecem querem proteger o tesouro que o seu olhar guarda. Porque é sempre sobre os olhos? Mas os seus olhos me prenderam. Eu olhava pra senha. Olhava pro relógio. Olhava pra você. Nossa, como você é charmoso. Você riu com aquele olhar de 'eu já sei disso'. Mas deve ser impressão minha porque eu não falei  isso em voz alta e você estava a uns cinco metros de mim e o barulho na fila do banco impediria que você me ouvisse e você sequer tinha notado a minha presença. Eu te olhei desejando que o cenário fosse outro. Eu te olhei querendo amar. Eu pensei em você o dia inteiro porque eu senti vontade de amar alguém só porque os olhos são profundos e a voz é suave. Eu imaginei você e eu e minhas mãos e seus cachos e uma rede e um vento e o mar diante de nós. Eu desejei você me olhando e não conseguindo fugir do meu olhar e pensando num jeito de pedir meu telefone. E eu te daria mesmo sem você pedir porque eu adoro caras tímidos. Me olha, vai? Me deixa ter uma boa desculpa pra pensar em você assim. Eu sou mesmo uma adolescente babaca que se apaixona na fila de um banco? Ou é só mais um acesso de carência de uma mulher em tensão pré-durante-pós-menstrual? Você passou por mim deixando um cheiro de lavanda e flores. Ou talvez seja só impressão minha. De repente você já estava quase na porta e eu achei que eu estava apaixonada por alguém que não notou minha existência. Mas então você parou, olhou pra trás e me atingiu em cheio com o seu olhar certo e profundo dentro dos meus. Aí você sorriu e se virou e se foi porque não havia nada mais a ser feito. E nada disso faz sentido, mas eu vou dormir pensando em você.