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terça-feira, abril 03, 2012

Ela

Não é que ela não seja linda, ou que ela não mereça você. Não é que a voz dela não seja macia feito algodão-doce ou que o mundo não se curve diante daquele olhar de dia de Sol. Não é que eu tenha ciúmes dela, ou que eu deseje a vocês algum mal. 

Mas é que nós dois, na minha mente, somos tão melhores juntos.

quarta-feira, março 28, 2012

Xícara

Na minha xícara falta café e sobra amor.
Quem diria que um beijo só bastava pra tornar meu sono em vigília?

terça-feira, março 27, 2012

Enquanto isso...

Eu vejo garotas à minha volta se passando por mulheres, falando de caras bonitos. Eu as vejo compartilhando experiências, colecionando conquistas, se exibindo mutuamente, e tudo me parece um ritual do tempo das cavernas, me parece estúpido demais. Eu vejo gente à minha volta se abraçando, andando em bandos e juntando os amigos pra beber, e tudo isso soa falso, impensado, superficial demais. Eu vejo pessoas colecionando melhores amigos, trocando de amores eternos, passeando entre diversos círculos sociais, com a certeza de que são queridos e imprescindíveis, com uma confiança no peito de que é tudo pra sempre, e eu acho tão ingênuo que eu quase chego a rir sozinha.
Enquanto isso eu olho pra mim mesma e penso que sou uma criança, que eu não sei nada da vida, que já me apeguei à minha viseira, que to tão bem encaixada no meu cantinho que eu não sei se sou capaz de me deslocar.
Enquanto isso eu choro à noite antes de dormir, abafando os gemidos com o travesseiro, porque eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.

sábado, março 24, 2012

Trégua

Você pode não ter entendido, mas eu to num campo de guerra. Você pode não ter percebido, mas eu estou, agora, vestindo uma armadura. E ao contrario do que possa parecer, eu estou vestindo essa armadura me preparando pra recuar. Quando eu comecei essa guerra eu decidi jogar limpo. Você sabe melhor do que ninguém que eu não tive tempo pra me preparar, que eu vim com a roupa do corpo e com a cara lavada. Tudo isso porque eu não sei nem nunca quis jogar jogos com você. Sinceridade pode não ser meu dom, mas é um dos meus grandes esforços. Então eu pedi cessar-fogo e te contei baixinho as regras do jogo, pra gente poder lutar juntos. Mas cada dia que passa eu te vejo cada vez mais do outro lado do campo. É quase como se estivéssemos jogando de lados opostos. E não seria tão estranho não fosse o fato de haver apenas nós dois aqui. Não fosse o fato de que já passamos por todos aqueles empecilhos –ou será que fui só eu que passei por tudo aquilo, que só eu me abstive, que só eu abri mão?, e agora, na hora de abrir o champanhe e comemorar vitória, você está do outro lado e seus olhos estão perdidos, porque você não olha em volta e não enxerga o que está acontecendo. Eu vesti minha armadura, mas eu nunca soube fazer isso direito, por isso quando eu fui tentar te buscar do outro lado eu tropecei em uma pedra ou em uma dúzia delas e caí. E agora eu estou sangrando. Você me pediu pra chamar seu nome quando eu precisasse e neste momento eu o estou gritando. Mas você não consegue ouvir porque você tá longe demais. Seus olhos estão perdidos ao redor, você não vê que eu estou morrendo aqui, e que eu perdi a capacidade de lutar. Eu já fiz pose de forte, mas eu desisti de tentar ser resistente. Eu estou trincando. Meus pulmões doem e eu já não consigo nem sussurrar. Eu preciso agora de alguém que queira cuidar de mim. Eu vou esperar você me enxergar de soslaio e, quando você vier, eu vou pedir por uma trégua, porque eu não sei mais como lutar nessa guerra.

sexta-feira, março 23, 2012

Braços

Eu acho que eu nunca escrevi sobre você, não é?  Não nos últimos anos, pelo menos. Bem, eu te disse ontem, no telefone e com lágrimas nos olhos que a saudade é uma coisa boa. E por mais que agora seja difícil acreditar nas minhas próprias palavras, eu vou me apegar ao significado delas, assim como ao significado das lágrimas que meu corpo está expulsando agora.
Estando longe a gente percebe que não tá pronto pra nada, que tudo deixa a gente frágil demais, trincado, sensível, a ponto de quebrar. Meu choro agora é de desespero, porque você tá longe demais, e às vezes me dá uma angústia e um medo descomunal de não dar tempo de eu te ver nunca mais se algo acontecer a mim ou a você. Mas voltando às minhas primeiras palavras: a saudade é uma coisa boa, porque ela me certifica da validade e da profundeza de tudo o que eu sinto por você, e de tudo o que eu já passei e não consigo imaginar nada disso sem você. Eu sei como dói em você me apoiar e segurar a minha mão e depois se despedir de mim só porque eu quero viver o meu sonho. Eu sei que eu sou a caçula e mesmo assim eu fui a primeira a partir, e você não se opôs, ao contrário disso me deu os dois braços pra eu me apoiar. E se você pudesse, os daria de novo agora pra eu chorar neles. E com esses mesmos braços você me abraçaria no dia seguinte quando eu decidisse que era hora de ir embora e voltar pro caminho que eu escolhi seguir.
Eu me lembro de eu chorar e de você chorar comigo só de ver a minha dor. Eu me lembro de eu reclamar de algumas coisas, mas agora eu me sinto tão estúpida, porque eu só consigo me lembrar de você ser a melhor pessoa do mundo.
Às vezes eu me esqueço um pouco do quanto eu queria ser como você. Ou de como eu queria conseguir ser parecida com você, porque você é o meu melhor ponto de referência nessa vida.
"O fardo pesado que levas deságua na força que tens". Eu ouço essa estrofe dessa música e seu rosto se concretiza na minha mente, porque você é a sensibilidade mais forte que eu já vi nessa vida. Você, aos desvios de curso aos quais essa vida nos submete, sempre responde com uma suavidade, com uma segurança, com uma sabedoria. "Me mostre um caminho agora, um jeito de estar sem você. O apego não quer ir embora. Caramba, ele tem que querer".
Eu preciso de muitas coisas nessa vida, e eu preciso buscá-las. Mas eu nunca vou deixar de precisar de você. Eu sei que se eu estivesse aí agora, ou se você estivesse aqui comigo, eu provavelmente não estaria mais chorando, e você provavelmente já teria feito eu me sentir melhor com quaisquer duas palavras.
Eu fui carregada até agora no colo, com muito cuidado e dedicação por essas "tuas mãos de fazer tudo". A sua comida, ou as vezes em que você me chamava pra me contar alguma de que eu ainda não sabia, ou quando você me perguntava algo de Biologia, ou as coisas das quais você achava graça, ou as vezes em que eu te pedia algo e você se mostrava disposta a fazer, e eu nem achava que merecia. A tua capacidade infinita de perdoar e de deixar de lado todas as vezes em que eu fui ingrata, a tua forma de ser boa como você é. Tudo o que você me ensinou. Eu sinto falta de tudo. Eu sinto falta porque eu amei e continuo amando, e é por isso que eu digo que saudade é bom. E eu nunca vou deixar de amar e de precisar de você porque você me mostrou a maior forma de amor que eu conheço nessa terra. E no dia em que eu aprender a lidar, que eu aprender a te amar de longe sem doer tanto assim, sem chorar quando falo de você, nesse dia eu vou ficar feliz por conseguir lembrar de você e sorrir em paz.
Sinceramente, te amo.
"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o nosso amor, nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você"

segunda-feira, março 19, 2012

Coisas de que eu preciso para ser feliz

Uma vez uma amiga me convidou pra um pequeno jantar em sua casa pra alguns amigos e alguns amigos de amigos. Pouca gente, uma conversa agradável, despretensiosa, aquele social de sempre. Tirando por uma coisa que estava me incomodando mais do que eu poderia admitir: entre os amigos e colegas de minha amiga, estava uma linda moça, vestida com muito bom gosto, uma maquiagem impecável e sentada em uma cadeira de rodas. Não pude deixar de reparar, de prestar atenção e de encarar e, por mais que eu tentasse disfarçar, eu não conseguia. Por fim fui ficando sem graça e com medo de a estar constrangendo. Mas o que houve é que nem de longe eu estava impressionada por ela ter uma limitação física –resultado de um acidente no auge da juventude. O mais incrível é que ela sequer parecia se dar conta. Ela sorria como se ninguém lhe tivesse contado que ela iria ficar presa ali pra sempre.
Eu já vi filmes e reportagens e páginas de revistas com histórias de superação, mas quando isso não faz parte do seu dia-a-dia é difícil de entender tamanha resignação ou aceitação das próprias limitações, é difícil de entender porque eu me conheço bem e eu sei o quanto eu apedrejaria céus e terra e culparia a todos se passasse por algo parecido. Eu sei o quanto isso seria devastador pra mim. E é bonito ver os outros enxergando além disso, mas a gente nunca é sábio a ponto de aprender a lição dos outros.
Pois bem, tomei coragem de travar uma conversa com ela. Alice, ela se apresentou. No início foi uma conversa comum e, com suavidade, eu toquei no assunto e ela me contou como foi a experiência: um acidente de carro. Nada de colegagem bêbada no volante. Nada de viagens na madrugada. Ela estava com a família, o pai no volante, e um acidente aparentemente bobo levou embora a capacidade dela de andar. Terminando o curso de Economia, namorando e com mil planos de intercâmbio no exterior e pós-graduação e mestrado e casamento, ela passou a depender de muito auxílio dos pais e amigos e namorado, e viu todos esses planos serem adiados indefinidamente para algum ponto no futuro onde ela pudesse caminhar com as próprias pernas - figurativamente falando (Perdão pelo trocadilho).
É claro que isso não me bastou: eu quis saber mais. Perguntei como diabos ela fazia pra ser a pessoa mais bem humorada e aparentemente satisfeita em volta daquela mesa; como ela fazia pra ser feliz daquela forma tão suave e natural e invejável; perguntei se as coisas eram como pareciam ou se aquilo era só uma forma de se desviar do sofrimento real pelo qual ela estava passando; perguntei se ela era feliz – sim, eu abusei de uma liberdade que ela não me deu. Mas ela simplesmente sorriu. Ah, felicidade é um conceito muito flexível, ela respondeu. Felicidade pra cada um significa uma coisa. Uma casa boa, um currículo invejável, uma carreira estável ou uma vida de aventuras. Cada um impõe condições pra própria felicidade. Eu parei de impor condições pra minha. Me ative ao essencial. Esse acidente me trouxe muito mais coisas boas do que ruins.
É lógico que eu discordei mentalmente e não me senti satisfeita e perguntei ‘Como assim coisas boas?’
Eu ouvi silenciosamente o relato que se segue:
‘Na época do acidente eu estava em um processo de negação de muitas coisas das quais eu sempre tive muita certeza. Eu não acreditava mais em quase nada, duvidava de tudo: que eu seria uma boa profissional, que o meu namorado me amava, ou que meus pais eram capazes de me ouvir. A essas alturas eu já duvidava de Deus e de metade das minhas amizades, que já eram poucas. E essas pequenas perguntas já estava esgotando todo o meu fôlego. Eu já não sabia por que fazia umas coisas ou por que queria outras. Como resultado de tantas dúvidas vinha uma série de inseguranças, e eu não tinha mesmo onde buscar resposta nenhuma. Incrivelmente, tudo o que se seguiu depois do acidente foi respondendo minhas perguntas uma por uma.
Eu me lembro de muito pouco do acidente – acho que travei grande parte dessa memória – mas eu me lembro muito bem de acordar e ver meu namorado debruçado na beira da maca. Eu achei que ele estava dormindo, mas quando o chamei ele se levantou surpreso, com os olhos vermelhos e cheios d’água, disse que me amava, e saiu correndo pra chamar outras pessoas. Surgiram meus pais e duas amigas minhas, daquelas que eu já não via há alguns meses por causa da correria do dia-a-dia. Então todos começaram a comemorar euforicamente e eu não estava entendendo nada até o momento em que alguém se deu ao trabalho de me explicar que eu estive em coma por duas semanas e meia. Duas semanas e meia, e eles, todos eles, ficaram ali de vigília. Faltaram aula e trabalho e até ali – o que eu considero tempo o suficiente - não tinham se cansado de esperar por algum sinal de consciência da minha parte. Com o meu despertar seguiu-se uma série de exames e, muito rápido, veio o diagnóstico definitivo de que eu não poderia andar nunca mais – a não ser, claro, por um milagre. O que veio depois disso foi duas semanas de depressão intensa e choro – literalmente – incansável. Eu só não chorava quando estava dormindo, e eu só dormia quando estava sedada. E eu tinha pesadelos e tudo ficava pior. É incrível – ou nem tanto - que, ao constatar e aceitar a irreversibilidade da situação, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a pena: imagina só, todo mundo com pena de mim, fazendo as coisas pra mim por obrigação, eu me tornando um peso, uma pedra no caminho das pessoas que se sentiam, agora, obrigadas a me amar. E eu, sinceramente, não sei o que teria sido de mim se minha mãe e meu pai não tivessem estado ali do meu lado, não só me auxiliando no óbvio, mas me dando apoio sentimental e psicológico. Às vezes eu acordava no meio da noite chorando e eu conseguia ver o desespero nos olhos da minha mãe porque ela não podia fazer simplesmente nada. E eu queria morrer só de ter que vê-la passar por isso. E ela ficou ali o tempo todo tão intensamente, sofrendo cada sentimento que eu sentia, porque tudo o que me passava pela cabeça eu falava, e ela não sucumbiu em momento algum. E meu pai, que sempre foi silencioso, compartilhou comigo mais naqueles meses do que em toda a nossa vida. E eu me desconsertava de uma forma irreparável quando eu via – e, infelizmente, ainda vejo – culpa nos olhos dele, e na sua postura, e na forma como ele se dirigia a mim, com os ombros pedindo desculpas por algo que ele sequer poderia evitar. E eu só descobri bem depois quantos cheques especiais e empréstimos ele fez só pra me dar o máximo de conforto dentro daquela situação, mesmo sabendo que era irreversível. Tudo isso pra eu me sentir o mínimo melhor. Ele fez, definitivamente, tudo o que ele podia.
Aos primeiros sinais de melhora, eu chamei meu namorado no quarto de hospital e tive uma conversa um tanto definitiva com ele: terminei o nosso namoro, inventei mil motivos – e fui bastante convincente -, mas tudo o que eu queria era desobrigá-lo daquela situação. E eu juro que o que eu mais queria era tê-lo ali, pois nunca havia sentido tanta necessidade dele de todas as formas possíveis. E ele jurava que me amava, que queria se casar comigo e que não tinha desistido dos nossos planos, e eu enxerguei o desconserto dele diante daquela situação que era tão nova pra ele quanto era pra mim. E, de certa forma, igualmente desafiadora e desestabilizadora. E percebi o quanto ele estava agindo de forma impensada, tentando provar algo pra si mesmo. Mandei-o de volta pra casa insistentemente e ele foi, contrariado. Depois de voltar pra casa, depois de meses de fisioterapia, de adaptação, e de todo aquele processo de ressocialização e reestruturação de hábitos, ele bateu na minha porta, com toda a calma do mundo, com uma serenidade e uma segurança imensa no peito. A gente conversou sobre nada e, do nada, ele disse que me amava e me pediu em namoro. Eu conversei com ele, expliquei minhas limitações, a dimensão do meu problema, falei tudo o que era necessário e o que não era também. E ele respirou calmamente e respondeu: eu já sei de tudo isso, quer namorar comigo? Então eu tive certeza, naquele momento, de que ele me amava. Bem, que eu o amava, eu já tinha chegado há essa conclusão fazia tempo. Respondi que sim, é claro, e hoje a gente namora já faz dois anos depois do acidente e, com muita calma, o nosso cantinho, o casamento, tudo está sendo preparado. E ele sempre lidou com tudo de uma forma que só fez me ensinar.
Os meus amigos, bem, é intenso demais pra descrever porque eu teria que exemplificar em tantos tópicos, só pra você ter uma noção, que você provavelmente pensaria que eu estou me gabando. Mas uma coisa eu posso te dizer, e isso resume com simplicidade o que eu estou sentindo: eu fiz poucos amigos ao longo da vida, mas, sinceramente, eu não consigo enxergar de que forma eu poderia ter escolhido melhor.
Ah, não pouco importante, eu ressalto que, ao voltar para a faculdade, dois semestres depois, qual não foi minha surpresa ao descobrir que tinha um empregador literalmente esperando por mim, porque ele viu o meu currículo e conversou com os professores sobre meu desempenho e decidiu que eu seria a escolhida para uma possível contratação, e esperou três meses e meio até eu voltar às minhas atividades curriculares pra me convidar pra estagiar em sua empresa, com contratação posterior.
Eu posso colocar ‘andar’ como primeiro tópico da minha lista de ‘coisas que eu preciso para ser feliz’, mas isso não é o mesmo que assinar atestado de infelicidade? Eu não vou optar pela miserabilidade da amargura se me restam outras opções. Ninguém fica numa cadeira de rodas porque escolheu assim, mas a vida às vezes – quase sempre - força as escolhas por nós, não é? Ela tá lá, sempre empurrando a gente pra diversas situações indesejáveis. Eu consegui fazer isso com ‘andar’, e vi que era capaz de fazer isso com muito mais coisas muito mais tolas e incalculavelmente menos necessárias. Você tem tudo o que você quer? A sua resposta provavelmente é não e por isso eu te digo: vai ficar esperando por essas coisas pra ser feliz com quem você ama? Ou pra curtir o show da banda que você gosta? Ou pra dormir uma boa noite de sono? Ou pra viajar num final de semana e tirar tempo pra ler um bom livro? Ou pra fazer todas aquelas coisas que te dão algum prazer, mesmo que pareçam insignificantes? Bem, eu não estou esperando por nada pra fazer tudo isso que eu amo fazer.
E por último, nem por isso desimportante, eu te digo que, depois disso tudo, depois de passar por tudo o que eu passei e de chegar onde estou, é natural e assertivamente que eu te digo, com convicção e fé – que são intransferíveis – que Deus existe, sim.
Pronto, todas as perguntas que me incomodavam foram respondidas. Agora, se eu tivesse continuado a minha vida da forma como eu estava, bem... Ninguém nunca vai saber, não é?’
Será que todo mundo não deveria passar por uma situação assim pra reaprender a olhar a vida, ou às coisas à sua volta? Eu não sei os outros, mas eu, muito provavelmente, sim. Porque eu vou continuar pensando que lidar com tudo isso de uma forma tão singela ultrapassa o conceito de ‘dom’.

"Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu; porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou pra quem chorou, pra quem sofreu; (...)
Não há mal pior do que a descrença, mesmo um amor que não compensa é melhor que a solidão;
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair, pra quê somar se a gente pode dividir? (...)"
Como Dizia o Poeta - Vinícius de Moraes e Toquinho

Sobre Razões


Você me pediu pra te amar não pelo que você faz ou pelo que você tem ou mesmo pelo que você acredita. Você me pediu pra te amar pelo que você é. E eu me pergunto: qual a diferença? Eu não te amo pelo que você faz ou tem ou acredita. Eu te amo por tudo isso junto, pois tudo isso é o que você é. E se você mudasse ou fosse diferente você não seria você da forma como eu te conheço e isso poderia mudar tudo. Eu não posso te jurar que eu vou te amar pra sempre independentemente do que você faça ou tenha ou acredite, pois tudo isso diz um pouco sobre você. E porque eu estou dizendo toda essa baboseira que parece não fazer sentido nenhum? Porque você me pediu por um motivo pelo qual eu te amo, e eu te amo por muito mais do que aquilo que você acredita ou tem ou faz, eu te amo pelas razões que te levam a acreditar ou ter ou fazer ou ser cada uma dessas coisas que você é, e incrivelmente da forma como você o é.
Eu não te amo simplesmente porque você é bom. Sua bondade vai além de um instinto natural ou de ações impensadas ou de gestos automáticos ou de uma ingenuidade incauta. Você é bom porque escolheu ser. Mesmo conhecendo toda a maldade que pode haver por aí, mesmo conhecendo gente com a alma tão pútrida e rochosa, você decidiu ser bom e faz isso com esforço, cautela e determinação.
Eu não te amo porque você nasceu com alguma inteligência sobrenatural ou algo do tipo. Ao contrário disso, você se esforça e busca o conhecimento e maravilhosamente se apraz nele, e se interessa por cada novo assunto que lhe é apresentado. Porque você é culto, informado e se esforça constantemente para ser cada vez mais eficiente.
Eu não te amo apenas porque você é sincero. Mais do que isso eu admiro o seu esforço contínuo pra ser honesto consigo mesmo e pra reproduzir com fidelidade aquilo que você pensa e sente, independentemente de como você julga seus pensamentos e sentimentos e, principalmente, independentemente de como você acha que eu ou qualquer outra pessoa vá julgar. Eu te amo porque você transpõe, ainda que com dificuldade, as barreiras necessárias para ser franco dessa forma tão cuidadosa e não imposta. Eu te amo porque eu vejo o quanto é doloroso pra você falar comigo e se abrir pra mim, e porque eu sei que você se empenha, tudo isso tentando construir um laço cada vez mais forte e se esmerando em fazer com que participemos cada vez mais um do outro.
Eu te amo porque você não é nada apenas por ser, ou não tem nada apenas por ter, ou não faz nada simplesmente por fazer. Eu te admiro infinitamente porque você não permite que suas convicções e seus ideais se cristalizem e se tornem mero hábito ou conceitos ou rótulos de si mesmo, e porque você não os defende com olhos cegos e ouvidos tapados, mas reavalia diariamente as razões pelas quais você vive. E, porque eu sei que você reavalia, é bom acordar todo dia e perceber que você continua tendo certeza de nós dois.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Eu sou mais eu

Essas quatro palavrinhas tão utilizadas por tantas pessoas que não sabem a dimensão do que elas podem querer dizer.
Eu sou mais eu e isto me impede diariamente de me entregar de qualquer forma que seja. Seja numa conversa legal num barzinho qualquer com algum (des)conhecido -que sempre parece pouco interessante-, seja num relacionamento com promessas de eternidade -que nunca dura esse tanto porque sempre tem algo no outro que não me satisfaz. Eu sou mais eu e isso me impede de evoluir no trabalho, porque sempre acho que estou à frente, que o meu trabalho é melhor e que as minhas ideias são mais viáveis que as dos outros. Eu sou mais eu e às vezes nem permito que as pessoas conheçam o meu modo de ver o mundo porque a maioria deles sequer seria capaz de compreendê-lo. Eu sou mais eu e por isso não posso aceitar que nenhum ser humano me obrigue a me anular em circunstância alguma, mesmo que eu ame esse alguém. Eu sou mais eu constantemente, o tempo todo, a cada segundo. Como uma bomba-relógio, sem descanso. A qualquer momento de entrega a qualquer sensação, sentimento ou pessoa, eu me dou conta de que ninguém merece esse risco e então volto ao meu centro e decido caminhar por conta própria. Eu sou mais eu e por isso não consigo baixar a guarda, ceder, dar o braço a torcer, porque simplesmente é demais pra esse EU tão grande que ocupa tanto espaço e que me sufoca mas que concomitantemente rejeita qualquer traço de anulação. Eu sou tão mais o meu jeito de viver que isso me impede de compreender quando as pessoas preferem um jeito alternativo. Eu sou tão mais os meus gostos e as minhas preferências que rejeito tudo o que é novo, diferente, inovador.
Eu sou mais eu e isso me faz só. Ninguém mais cabe nesse egocentrismo todo, não há espaço para outros pontos de vista, outros planos de vida, outros personagens. Alguém que venha mudar meu centro de lugar, que venha me apontar novos horizontes, ou que me faça abrir mão de qualquer convicção. Eu sou mais eu, por isso mesmo não sou mais outro alguém. Muito menos sei ser dois.
E tudo o que eu queria nessa vida é ser menos eu. Ser menos eu e ser mais você. Ser menos eu e mais qualquer outra coisa nessa vida. Qualquer plano maior, qualquer sonho coletivo. Qualquer vida em par.
Eu-sou-mais-eu e este é o meu maior defeito.

domingo, fevereiro 19, 2012

"O primeiro passo dado na direção certa abre precedente pros demais, que se tornam mera consequência. Toma impulso. O que faz a diferença é não hesitar."

Trecho do texto Pequenas Coisas do blog Live in Skin, de Nicolle Albiero

Toda Paz Que Houver no Caminho

Cada segundo em que eu sofri por você, cada um deles. Cada minuto em que eu observei seus gestos de longe. Cada momento em que eu pensei em nós dois. Cada um dos dias que eu passei esperando seu amor. Nenhum deles se compara ao que eu estou sentindo agora. Aquela dor toda me consumia por inteiro, revirava meu estômago, devorava meu fígado, exauria meus pulmões. Mas, ironicamente, isso me mantinha viva. Era como um tapa na cara dessa vida ingrata dizendo 'ei, você tá viva, enche esse pulmão de ar e continue andando, ainda que com o rosto arrastando no chão'. E funcionava, como se o seu amor me cortasse em pedaços e como se eu deixasse de existir por dentro só pra abrigar essa dor excruciante e latente e irritantemente perseverante. E isso me mantinha acesa, eu tinha algo por que viver, eu tinha alguém em quem pensar à noite, eu tinha um motivo pra acordar de manhã. E na falta de um par de ouvidos pacientes pra tamanha intensidade, pra tamanha profusão de sentimentos, minhas mãos afoitas usavam qualquer pedaço de papel como válvula de escape.
Depois de tudo o que a gente passou juntos e separados, depois desse tudo que agora já nem parece tanto, depois de dois cadernos e meio gastos com seu nome, com a descrição dos seus olhos, com nosso passado, com nosso presente e, principalmente, com nosso futuro, meu coração finalmente voltou a bater em um ritmo normal, meu cérebro finalmente encontrou um horário adequado pra repousar, meus órgãos voltaram a exercer suas funções vitais que é viverem em função do meu bem estar físico e mental e eu finalmente encontrei um cantinho nessa vida em que eu pudesse me acomodar. Eu finalmente encontrei um ponto na estrada que eu pudesse chamar de lar.
E agora tudo parece tão calmo e milimetricamente encaixado que eu poderia dizer que cheguei no fim, na morte. Não há nada que eu tenho que fazer que não possa esperar até amanhã ou até semana que vem ou que não possa ser feito por outro alguém. Não há ninguém esperando minha ligação e não há ninguém pra quem eu queira ligar às 1h07 da manhã. Não há ninguém por quem eu possa derramar uma lágrima, de alegria ou de tristeza. Não há nada que me faça querer escrever palavras de amor ou de ódio.
É assim essa paz, essa calma. É vazia assim?
Chego a duas possíveis conclusões: eu preciso me apaixonar de novo ou eu preciso reaprender a escrever quando em paz.
Porque pra me sentir viva de novo, intensa de novo, e cheia de novo, e inteira de novo, mesmo que de cheia e inteira e intensa só me reste a dor, pra ser parte de algo ou alguém, mesmo que as custas de mim mesma, eu deixo pra trás toda paz que houver no caminho.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Descabido

Você percebe que as coisas estão fora do lugar quando você esquece que nome dar pra tudo o que você já viveu, quando você não se lembra mais de como se sentia. E, quando você se dá conta de que já é tarde demais, de que já passou pra todo mundo e você é o único preso naquela realidade puída, o único que não se apegou a mais nada, é aí que você começa a mendigar umas razões pra viver. Você passa uma semana sem se lembrar e, quando se lembra, sente culpa, e culpa insana já que você é o único que segue cultivando aquele apego bobo, infantil e ultrapassado. É aí que você começar em vão a tentar se lembrar do que te faz feliz. E então você percebe que, de alguma forma inexplicável, essas coisas que te fazem feliz já nem existem mais. E que você não consegue, nem emagrecendo vinte quilos ou se cortando em mil pedaços, se encaixar no óbvio. E que você não é capaz há muito tempo de ser feliz ou sequer de caber no espaço milimetricamente pouco e ingrato que o universo é capaz de te oferecer.

Amorescendo

Tudo na gente era fabulosa e alegoricamente bom até o dia em que você tropeçou nas suas promessas e fez aquilo que eu mais poderia odiar. Você atropelou nosso sonho de perfeição e capotou todos os nossos planos, fez tudo virar uma ilusão confusa. No espelho atrás de você eu pude assistir o pavor cisalhando meu rosto, fazendo-o parecer amargo, enquanto você procurava palavras pra explicar os motivos de você não poder me amar da forma que eu sempre pedi. Você misturava uns pedidos desajeitados de desculpas com justificativas bem elaboradas e eu não sabia mais se você queria o perdão ou um jeito suave de jogar tudo pela janela. Eu não me aguentei muito tempo naquela intensidade toda e saí correndo, esquecendo de pegar meu casaco, de terminar a conversa e de dizer adeus ou volto logo.
Eu cheguei na minha casa ainda me esquecendo de toda a força que eu prometi ter quando as coisas saíssem do jeito errado, quando a vida forçasse as escolhas por mim. E foi assim que eu dormi, chorando pela inevitabilidade de ser eu mesma naquele momento vivendo aquele desvio de curso. De amar como eu amava e de necessitar especificamente e intensamente da forma como eu precisava, não bastando pra mim outra forma qualquer de amor. E eu chorei e me escondi um dia. E outro. E mais outro até se alterarem os padrões de cores no pedaço de céu que eu via da janela do meu quarto, e até mudar a temperatura da noite e até que eu mudasse.
Ao longo de alguns dias ou algumas semanas ou alguns anos eu percebi que a vida brinca com aquilo que chamamos de destino e troca as nossas opções de lugar, mas não nos impede de seguirmos o alvo que escolhemos, só nos obriga a andar por um trajeto diferente. Eu precisava de que o meu amor fosse como eu queria. Mas no meio dessa espera do dia em que eu iria mudar a forma como eu via o nosso amor eu descobri algo de que precisava muito mais do que estar certa: eu precisava de você, com toda a sua insegurança, seus desvios e oscilações. Eu precisava de você por tempo indeterminado, pois era a minha única chance de te ter pra sempre.
Eu aprendi de uma forma desgostosa que eu amava você de verdade, e pela primeira vez eu me senti pronta pro nosso amor porque agora sim eu estava pronta pra amar seus defeitos, e eu não estou falando do seu mau gosto pra filmes ou do seu corte de cabelo inadequado, estou falando dos seus desvios morais e das suas falhas de caráter que eu entendi que todo mundo tem um pouco. Estou falando daquilo que você sempre vai fazer ou dizer mesmo que eu sempre reclame e mesmo que você me ame demais, porque você é você muito antes de ser meu.
Eu não fui atrás de você enquanto as lágrimas ainda escorriam só de ver sua foto, mas sim quando meus olhos já tinham amadurecido e aprendido a lidar com o fato de eu te amar mais do que meu orgulho. De quando meu coração aprendeu a pesar os prós e contras dessa exposição toda que é o amor. E se amor rima com dor e não rima com felicidade não deve ser coincidência. Porque rimar amor com dor é fácil, mas rimar amor com felicidade requer muito peito pra enfrentar o caos deste universo transposto, deslocado e aparentemente injusto e muita maturidade pra se permitir arriscar numa incerteza tão profusa e assertivamente insana.
Eu não sei se eu sou madura pra aguentar, mas eu amo o suficiente pra apostar todas as minhas fichas e pagar com a minha alma no final se eu tiver as cartas erradas.
Eu te amo, meu bem, e eu quero pagar pra ver. E é por isso que é bom olhar nos seus olhos agora e enxergar não a surpresa de quem não sabia que eu viria depois de tantas estações, mas sim o esgotamento da espera de quem creu que eu era inteligente demais pra entender tudo e voltar rápido.
Eu demorei mas cheguei, meu bem. E agora eu tô pronta pra gente se amar da forma que der, do seu jeito fundido com o meu, com sorriso satisfeito, torto, orgástico, surpreso, feliz, alegre, amarelo, desgastado e, principalmente, com um sorriso enrugado de quando chegarmos juntos ao final de nossas vidas.

Book Me

A coisa mais sexy em você não é o jeito que você penteia o seu cabelo ou deixa de pentear, e sim esses óculos que não saem do seu rosto, que te tornam sempre pronto para uma nova leitura. O lugar mais sensual do seu apartamento não é a sua cama com lençóis de seda egípcia ou com travesseiros de penas de ganso, mas sim aquela prateleira amontoada de livros sobre uma escrivaninha que já está abarrotada de papeis, de livros gastos, com cheiro de poeira, orelhas e páginas amarelas, porque você não tem dó de usá-los e de tirar o máximo deles. A coisa mais atraente em você não é a forma como você se veste e nem o fato de você ir ou não à academia, e sim a sua inteligência que parece querer transbordar. O seu vocabulário desafiador e os seus assuntos intermináveis. A sua capacidade de falar de tudo e de convencer todo e qualquer ser humano do que você quiser, sem sequer ousar se impor. A coisa mais fascinante no nosso amor é você se importar tanto com a minha forma de pensar, a ponto de se esquecer de que eu tenho celulites ou de que eu passei duas semanas do dia de retocar a tintura do cabelo. A coisa mais sedutora da sua boca não é o sorriso, e sim a agilidade com que ela se move pra falar de qualquer coisa, e a forma como tudo nela vira poesia. O melhor gosto da sua boca não é de pasta de dente, de bala halls, tampouco de um whisky. O melhor gosto da sua boca é do beijo que você me dá ainda com gosto do café que você bebeu pra aguentar terminar aquele capítulo fascinante daquele livro que você tá lendo pela quarta vez porque te faz lembrar de nós dois por motivos que você repete pra mim quando vem pra cama, e este é o melhor começo de todo o resto. O lugar onde eu mais gosto de ir com você não é aquele restaurante chique no centro da cidade que precisa de reserva com um mês de antecedência, e sim cada lugar que você me revela, me ensina, me descreve, me permite viver. Cada lugar de cada capítulo de cada livro, todos saindo da sua boca, enquanto eu te interrompo com beijos sedentos. A minha melhor roupa não é aquele vestido caríssimo de marca que você me deu no nosso primeiro aniversário de namoro, mas sim aquela camisa desbotada que já tem o cheiro do seu perfume, dos seus livros e da sua esperteza. A coisa mais sensual em mim não são meus olhos com uma cor incomum, tampouco é um formato curvilíneo tipicamente brasílio.
A coisa mais sensual em mim é, de longe, o fato de você me desejar.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Incomedido

Todos os dias acordo pensando que nasci pra amar.
Toda vez que me pego amando eu sou inteira. Mesmo que inteiramente entregue, completamente disponível. Eu amo de forma completa, incomedida. Algumas pessoas chamam de descabida a minha forma de amar, e repetem isso tanto que já quase me convenceram disso por duas ou três vezes. Mas eu nunca soube ser pelas metades, e tamanha entrega me dá prazer. Mas às vezes não cabe, e eu acabo entornando. E isso assusta quem quer que esteja dividindo o colchão comigo. 
É sempre assim. Eu sou a primeira a dizer eu te amo, a primeira a convidar pra uma festinha de família, a primeira a dar sinal de ciúmes, a primeira a perdoar, a primeira a enxergar um futuro, a primeira a enxergar o que temos em comum e o que em nós está em desacordo. Eu sou sempre a primeira a enxergar uma relação, um compromisso, uma intimidade, bla bla bla. E todo esse papo chato cansa cada cara que aparece na minha vida tentando ser amado por mim, e eu começo a apostar comigo mesma quanto tempo cada um deles vai durar. Às vezes eu penso que algum babaca covarde espalhou seu DNA pelo mundo. Mas às vezes eu converso muito com pessoas normais e acabo achando que eu to vivendo errado, fora do roteiro de uma vida saudável para os pulmões, para o estômago, para a mente, para a alma. Mas rapidinho eu me canso desse tédio todo e só consigo pensar 'pouco, pouco, pouco', e volto a procurar avidamente por um all star estiloso no meio da multidão, ou por um olhar de ressaca, ou por um telefone quieto deixado de lado num canto de mesa, ou por um pár de óculos em frente a um romance policial, ou por um café com creme duplo em cima, tentando achar uma história que bata com a minha, tentando achar a pessoa certa pra receber tanto amor.
Aí eu não encontro de novo e torno a cair nesse dilema existencial e me pergunto se eu não deveria me fingir de polida, comedida, milimetricamente controlada, racional e compreensiva, apenas pra dar a um cara qualquer o tempo que ele precisa pra me amar tanto quanto eu o amei desde o primeiro momento em que o vi. Então eu começo a rir e penso que eu nunca me contentaria.
Eu sei que só vai ser pra sempre quando ele me amar primeiro e com olhos intensos e mãos afoitas e palavras gaguejadas. E ele irá fazer tudo errado e irá derramar café em mim e irá me fazer perguntas inadequadas e irá ter pressa de tudo comigo. E irá me amar no sofá e no tapete da sala e irá cuspir um eu te amo no nosso primeiro café da manha juntos. E então eu vou saber.
Mas eu erro toda vez. Eu já caí muita vez nesse ciclo, e de contar nos dedos só faço me sentir velha. Eu penso 'tá demorando'. Aí eu me deito debaixo do edredom mais macio, me enrolo como uma criança mimada e só não faço birra porque moro sozinha e não tenho ninguém pra me adular. Aí eu aperto os olhos e oro de uma forma infantil, que é como sou capaz de me lembrar. E depois não sobra nada. Nem a bebedeira de gente grande tira de mim esse vazio que me faz querer chorar como uma criança.
Todos os dias eu durmo pensando que eu não nasci pra ser amada.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Verbo Amor

Eu te seduzo com palavras, te chamo por pronome possessivo, e te adjetivo todinho como eu bem entendo. Em todas as minhas orações você é o sujeito e eu não me importo quando você rasga o verbo e me faz de objeto. E quando você se dirige a mim você me subjuga, e parece não ter ideia do efeito de sentido que causa em mim. Eu me entrego aos seus recursos linguísticos, estilísticos, metalinguísticos. E é aqui, entre quatro parênteses, que nosso amor discorre nessa narrativa sensual, desta forma tão peculiar. Te amo da forma mais eterna que sou capaz: te amo com as palavras.

Guardei pra depois...

Aquela manhã estava tão cheia de Sol que lembrar de ti foi natural. Me veio a imagem de você na sua casa na praia que eu nunca vi nem foto e na minha mente você fazia pose de dono daquele oceano. E me lembrei da exata cor da sua pele, do seu cheiro e do seu jeito de pegar na minha mão. Me lembrei até da sua tatuagem clichê de um dragão no braço. Me lembrei da sua cor de canela daquele Sol quente da Bahia, do seu cheiro de mar misturado com um aroma de inocência de interior, da sua pegada forte de uma intrepidez de capital.  E você é mesmo tudo isso, essa coisa louca, é tudo em um só, só pra me fazer te querer de todas as maneiras possíveis. Me faz querer tirar o que te sobra de inocência e me desvairar na sua inconsequência. Esse jeito de Brasil afora, essa lábia internacional e esse sorriso que parece de outro planeta. Me lembrei tanto de você que quase me esqueci do que estava falando. Ah!, claro. Me lembrei das madrugadas perdidas em conversas nas quais você me fez perceber o quanto eu não sei nada de nada. Então eu ia dormir me sentindo cada vez mais burra. E me lembrei daquela noite em que você me levou pra caminhar no mar e era madrugada. E eu achei que estávamos caminhando a esmo mas você tinha preparado uma rede pra nós dois, um vinho barato e uma toalha no chão, do jeitinho da nossa simplicidade de ser, e nós falamos de tudo. E aquela noite foi tão longa que eu poderia dizer que ali se foi metade de minha vida. E como durou tanto eu me lembro de muito pouco. Mas eu me lembro de você mexendo nos meus cachos e de fingir que eu era sua. E de fingir que você queria que eu fosse sua. E você, diferente de todos, nunca me tratou como menina, mas como mulher e eu queria ser essa mulher pra você. Você sabia que eu não era assim tão inocente desde sempre. Desde aquela vez que você me chamou de bebê e eu fechei a cara. E desde aquela vez que você disse que eu tava parecendo mulher feita e eu retribui com o sorriso mais sedutor que eu consegui. E desde aquela vez em que eu tirei o vestido e fiquei só de lingerie e fingi que não sabia que você podia me ver, e você, claro, fingiu que acreditou que eu não sabia mesmo, e depois desse dia você nunca mais me olhou do mesmo jeito. Mas nessa noite foi a primeira vez em que você ousou me tocar mais ousadamente, e fez um convite disfarçado, como quem não quer nada 'bora caminhar na beira da praia?'. Mas você sabia que eu iria, é claro que sim. Você sabia o quanto eu te queria desde sempre. E por uma noite só a gente foi um do outro. Eu sabia que você não tinha nada de meu. Você não tinha nada de ninguém. Você nunca foi homem de se deixar pertencer. Eu te conheço há muito tempo, tempo suficiente pra saber mil histórias sobre o quanto você consegue ser canalha. Mas naquela noite eu fui sua. E você foi meu. E eu não me importava de explicar para o mundo que não havia razão de ser, que não havia justificativa plausível, e que nós não tínhamos nada em comum, e que você nunca seria capaz de me amar. E a verdade é que eu nunca seria capaz de lidar com a noção de você me pertencer de alguma forma, eu não saberia dividir você com ninguém, porque eu te gosto de uma forma possessiva, e detesto te ver olhando pra outras mulheres. E por isso mesmo eu não me jogaria num relacionamento tão autodestrutivo. Mas a gente foi tão bom naquela noite. Tão bom. Mas a noite acabou quando mais parecia querer durar pra sempre. E você me pediu pra ficar até o Sol nascer, mas eu te disse que isso não era possível, porque de mulher eu só tinha a vontade de você, e precisava estar na cama quando a casa acordasse. Daí você olhou e me fez jurar que eu guardaria pra ti um por-do-Sol. E hoje eu já sou mulher, pago minhas contas e cumpro com todas as minhas obrigações de gente grande. E estou esperando o dia em que você vai me ligar e pedir pelo Sol que guardei pra depois.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Calendário

Dois segundos de distração e me empurraram uma taça de champagne e em seguida começaram a tilintar suas taças contra as minhas. Então começaram a me abraçar e a derramar um emaranhado de palavras confusas, que recaíram sobre mim como uma grande responsabilidade, porque só conseguia ouvir palavras avulsas como sucesso, conquistas, sonhos realizados e saúde e eu não sei se dá tempo de fazer tudo em 2012. Me assustei porque nos meus planos alguns dos meus projetos levariam a vida inteira, e aí essas pessoas vieram querendo que eu dê conta de tudo em 365 dias e eu enlouqueci. E eu sempre deixei um certo espaço para as surpresas da vida, mas tudo o que eu ouvia era pessoas requerendo de mim firmeza e determinação, então eu me senti sufocada. Mas brindei e bebi e então esperei o fim da contagem, aquele momento em que tudo iria mudar e... e nada. Eu me sentia da mesma forma, com a mesma confusão, com os mesmos objetivos, com a mesma calma em viver e com as mesmas pessoas estranhas em volta. Meus amigos ainda pareciam os mesmos, minha mãe com o mesmo semblante de sempre, e aquele mesmo bando de gente estranha que pareciam iguais às pessoas que estavam na festa da semana passada, e iguais às que estavam na balada de semana retrasada. Aquele monte de gente com roupas iguais, com o mesmo jeans de marca, com o mesmo cabelinho alisado e luzes californianas, com os mesmos sonhos. Aquele consumismo moderno e aquela cultura que torna tudo descartável. Aquela mesma urgência, aquela mesma pressa de queimar etapas de suas vidinhas medíocres, pra ver quem conquista mais rápido o sonho do outro. E eu me senti tão deslocada, tão desinteressada em comemorar a virada de um dia qualquer, que se resume à troca do calendário que estava na minha parede. Como assim ano novo se meus sonhos são os mesmos? Se eu continuo querendo abraçar o mundo e ele continua não cabendo nas minhas mãos? Como assim conquistar meus objetivos se eu nem conquistei ainda meu jeito de sonhar? Se eu planejo hoje e amanhã me reinvento? A minha vida mudou tantas vezes no último ano que eu poderia ter trocado de calendário várias vezes, brindado várias vezes, me vestido de branco, vermelho, amarelo ou verde, porque minha vida recomeçou em pequenas surpresas, e se reinventou em pequenos encontros. A minha pressa não é de sonhar, não é de conquistar, não é de obter. A minha pressa é uma só, e é de viver. O que eu quero hoje eu vou atrás pra ver aonde me leva. Ou senão eu digo pra esperar e vou viver o meu tempo debaixo do cobertor ou na frente de uma tevê que não exige de mim muito o que pensar. Não tenho mais pressa de conceitos, de definições ou de certezas, já que todos esses podem ser reescritos e tudo dependerá de mim. E boa sorte aos pobres mortais que só se permitem mudar uma vez por ano, porque o relógio pra eles estará correndo. Enquanto isso eu estou aqui, e posso largar tudo, jogar pro alto e mudar a minha vida quando eu bem entender. E se precisar eu jogo fora o calendário pra não ter que olhar pra ele nunca mais. Porque eu quero sonhar quantas vezes eu for capaz.

domingo, janeiro 01, 2012

Outro pedaço de realidade escapa pelas minhas mãos.
Eu novamente me pergunto o porquê de mudar tanto.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Ckarinho?

Sabe as coisas importantes das nossas vidas? As decisões relevantes? Como que profissão você escolheu pro resto da sua vida, ou com quem você vai casar, ou a cidade em que você mora? Então. Isso daí todo mundo sabe, todo mundo vê. É só saberem teu nome e já vão te perguntando sobre as coisas relevantes da tua vida. O contrário disso é dividir-se nas partes mais peculiares, nos pormenores, naquilo que é intrínseco. E isso é pré-requisito pra aquilo que eu chamo de amizade.
O início desse ano foi de muitas mudancas pra mim. Eu me afastei de uma realidade que ocupava quase todo o meu tempo. E ir de cem a zero de repente foi um bocado dolorido. E pra quem tinha muito o que fazer em um dia com muito poucas horas, eu passei a ter tempo ocioso demais e de cara comecei a reavaliar muita coisa na minha vida. Por isso me coloquei, tanto quanto fui capaz, na posicao de observar. Durante o que considero muito tempo não criei lacos, não me confidenciei com ninguém, estava bastante sozinha, mas confortável. Você sabe bem o que eu penso da amizade, da energia desprendida para cultivar uma dessas, e do desconforto de uma separacão indesejada. Você sabe o que eu penso das pessoas, da ciclicidade de relacionamentos, e dos lacos que construimos ao longo da vida. Você sabe pelo menos o que eu acho que penso. E foi assim, despretensiosamente, dividindo uma e outra perspectiva -duas adolescentes compartilhando visões de mundo, risos- que fui encontrando em você coisas que eu nunca procurei, mas, de cara, fui sentindo que precisava. Eu não sei se é porque, pela primeira vez na minha vida, eu sentia cada vez menos necessidade de aceitacão, ou porque eu buscava cada vez menos criar lacos, que eu fui me mostrando pra você sem me preocupar exatamente com o que você iria achar disso. E você foi gostando de mim e retribuindo a honestidade. Quantas vezes eu não já confessei que pensava de uma forma que me fazia me sentir detestável, e você nunca me julgou por isso. E, é claro, no início trocávamos infinitas frases de carinho ou admiracão, porque a gente ainda carecia desse cuidado, não é? Mas aí a gente foi pegando um jeito uma da outra, o ritmo, o humor, os pontos de vista, e foi se dividindo e se expondo cada vez mais, de uma forma que acontece com poucos. E por não enxergar pessoas assim -talvez pela preguica de procurar- eu fui me acomodando a você, passando a depender do seu ponto de vista, do seu parecer, do seu tom sarcástico e daquela piada que eu já sei que você vai fazer mas ainda assim eu vou rir. E acho que é tão evidente a admiracão mútua que temos, que nós sequer nos damos ao trabalho de ressaltá-las no dia-a-dia, trocando-as por humilhacões em publico e piadas depreciativas que poucos entendem, num humor que faz apenas a gente, acredito, rir sinceramente. Pode parecer patético, infantil, avesso e contradizente, mas isso é a gente, e eu não tenho porque reclamar. Você sempre fica falando essas coisas depreciativas, se colocando num grau abaixo na nossa amizade, e é o único momento em que eu quero te matar, porque parece que você não percebe o quanto eu me tornei você, parecida com você, dependente de você. Eu me assusto porque juro que não é de propósito. Quando eu percebo, eu me lembro de você por algo que eu falo, por uma piada que eu faco mentalmente ou por uma careta, e eu já não faco porque me lembro de você, mas me lembro de você porque as faco. No momento da minha vida em que eu mais queria não ter um amigo pra esquentar a cabeca, não ter alguém que me fizesse querer matar aula pra continuar uma conversa, não ter alguém pra sentir falta nessas drogas de férias, não ter alguém pra sonhar que vai pra mesma universidade que eu, não ter alguém pra fazer planos de dividir o quarto e as aventuras universitárias comigo, você me aparece e praticamente me obriga a te amar, porque simplesmente não tem como ser o contrário. Eu não sei se você já percebeu que eu nunca falei muito nessas coisas. Nunca planejei nada com você pro futuro por minha conta. Porque até hoje eu não me acostumei com a frustracão de ter falhado nesses objetivos no último ano. E dessa vez acho que seria mais dolorido, porque nesse ano que se passou, todas as lembrancas naquela escola e boa parte de fora dela se resumem a você. Parece que meu ano comecou junto com a nossa amizade. Você foi exatamente a pessoa que me ofereceu suporte quando eu não procurei, e eu nem sabia que isso era possível.
Eu não sei explicar o quanto eu te admiro ou o quanto gosto de ti.
Acho que você foi, mais ou menos, a primeira pessoa com a qual eu tive todo o cuidado de reservar minhas demonstracões de afeto, para que essas fossem correspondentes à realidade, e não resultado de uma euforia momentânea. Eu guardei muitos te-amo-amiga que quase me escaparam antes de ter certeza da profundidade do laco que construimos. E depois disso, tudo o que faco em relacao a você é verdadeiro demais, espontâneo demais, e eu quase não tenho receios de me expor a você. E eu sei que, não importa quantas idiotices eu já tenha feito, ou quantas bandas ruins eu já tenha ouvido, ou quantas bandas boas eu goste e você não, ou o quanto eu posso ser paciente com coisas que você jamais seria, ou o quanto eu posso acreditar em algo sem ver, você me ama. E eu vou fazer de tudo pra preservar o seu amor. Porque eu só disse isso antes uma vez na vida e não errei, e agora sei que não vai ser diferente: eu nunca, NUNCA vou encontrar uma amizade que consiga comparar com a sua.
Te odeio.

domingo, novembro 27, 2011

Em Paz

Quando se trata de nós dois, a segunda coisa que eu mais quero nessa vida é te beijar, contar pra o mundo -e pra ti- o quanto eu te desejo quando você vem com esse jeans colado, ou quando você dança perto de mim com essa risada no rosto de quem está só se divertindo, mas com um rebolado sensual que diz exatamente como seu corpo me quer. Mas a primeira coisa que eu mais quero é que você continue na minha vida pra sempre. Eu vivo em cidade grande, pais separados, e mal ouço falar de casais pra sempre. Não assisto novela, mal vou ao cinema, porque não tenho tempo pra me enganar com essa superprodução caríssima de romances baratos. Não tenho tempo pra acreditar em amor eterno. Me desculpe, eu sei que você disse pra sua melhor amiga o quanto você me queria, e que eu era seu melhor amigo, e que você aprendeu num filme que, quando começa com amizade, tem tudo pra dar certo. E eu acho engraçado esse seu jeito firme de acreditar nas coisas tortas. Mas você não teve coragem de dizer isso pra mim, não sei bem o porquê. Talvez porque você, com toda essa pose de mulher crescida de capital, não sabe ainda correr atrás do que quer porque sabe que a nós, homens, nos restam ainda muitos ossos machistas e que prezam o orgulho da conquista. Mas, hei!, eu não seria assim com você, é claro que não. Não importa o quão cafajeste eu já tenha sido com alguém, não tem nada nesse mundo que eu preze mais do que essa nossa amizade. E é por isso mesmo que, quando eu ouvi que você me queria, num primeiro momento meu sangue aqueceu e minhas mãos procuraram afoitas o meu celular no bolso pra te ligar imediatamente. Porém, no momento seguinte, eu enrijeci, meu sangue congelou nas veias, e eu fiz o que deveria ter feito antes: fingi que não ouvi, ou que se tratava de um engano. Você sabe quanto tempo levou pra eu conhecer alguém como você? Tenho trinta e dois anos e, entre colegial, faculdade, trabalho e balada, você é a única mulher que permanece na minha vida e que me conhece por dentro. Não é que eu não tenha mais amigos. Mas é que eu não tenho mais ninguém como você. Você sabe que com os caras eu falo de futebol, de mulher, falo mal do meu chefe, e todo esse papo supérfluo. E é divertido. E eu sei que posso contar com eles. Posso. Posso, mas não conto. É com você que eu conto. Você é boa ouvinte, tem paciência, colo quente e mão leve pra me acariciar. E com ninguém mais eu me daria o direito de me expor. Nem mesmo com minha namorada. Pois o problema todo no amor é a exclusividade. E eu nem estou falando da exclusividade monogâmica, mas sim da especificidade da entrega. Necessita entrega completa e quase que pra uma pessoa só. Restam muito poucas coisas que se pode compartilhar com os outros. E é tão bom o que eu tenho contigo, pois se eu tenho uma semana cheia eu posso muito bem só pensar em ti e saber que eu te amo, e ainda assim não precisar ligar pra você só porque eu tenho obrigação de sentir tua falta. E é tão bom, depois de duas semanas sem te ver, chegar na minha casa e encontrar você na porta com uma pizza na mão, e entender o significado de saudade. É tão bom ir atrás de você e fazê-lo porque eu quero. E ter uma ou outra namorada, mas ainda assim só pensar em ti quando me deito, só me preocupar com você, porque é a quem eu quero o bem. E é por tudo isso que eu não posso nos sacrificar. Eu prefiro passar o resto da minha vida te desejando quieto, tendo apenas essa visão agradável enchendo meus olhos, te tendo só como amiga, te ver me esquecer e se apaixonar por outro, te ver se casar -pois você é menina de casar-, ter filhos, se afastar um pouco de mim, mas nunca deixar de ser minha melhor amiga. E a gente vai passar um tempo sem se ver, mas quando nos esbarrarmos no caixa do supermercado, vamos ter tanto pra lembrar; e vamos marcar um churrasco, e você vai me apresentar pros seus novos amigos na sua nova casa com seus filhos e seu marido e eu vou saber que fiz a coisa certa em te deixar ser feliz; e eu estarei feliz em poder ver isso, ainda que com um amor nostálgico e dolorido no peito. Eu prefiro tudo isso a arriscar tudo o que nós construímos e ver tudo se desgastar por obrigações, cobranças, um compromisso nonsense. A sinceridade vai se tornar perigosa, e nós vamos acabar brigando e não entendendo o porque de a coisa não funcionar, e aí nós vamos nos esquecer porque éramos tão amigos, ou porque nos amávamos tanto, e eu vou te perder pra sempre, e nós nunca mais seremos os mesmos juntos. Então nós vamos jurar que continuaremos sendo amigos, mas vamos nos afastar aos poucos. E então vamos parar de nos ver, de nos ligar, e de nos dividir. E, muito tempo depois, quando nos encontrarmos naquele caixa daquele supermercado, vamos trocar um sorriso sem graça, com polidez e certa indiferença, e o arrependimento por ter te perdido vai doer no meu peito.

Eu prefiro te ver feliz, porque eu não acredito em conto de fadas, mas você acredita e precisa de alguém que esteja disposto a tentar, em vão, viver um contigo. Enquanto isso eu vou sofrer de amor. Mas eu sou frio, e no meu peito esse amor vai doer em paz.