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segunda-feira, dezembro 24, 2012

Descuido

Um toque que desmanchou antigos planos e despertou novas expectativas. Um beijo que dizimou minha cautela e transcendeu barreiras psicológicas. Um abraço que liquidou minha sensatez e tirou o meu controle. Um convite que desmascarou minha maturidade e expôs minha puerilidade. Uma respiração que desmantelou minha resistência e exibiu minha vulnerabilidade.
Eu, de novo, pequena, exposta, inadvertida.
Ele, então, no controle, tomando a maior parte da minha consciência sem sequer se dar conta do estrago.
O abismo cada vez mais próximo, inevitável, atraente. Ele cada vez mais longe, alheio, inatingível.
Tudo tão físico, carnal, superficial. Recheado de ofegâncias, de peles se tocando, de lábios hábeis e corpos colados. 
Filmes, músicas, pessoas, a noite: tudo posto em terceiro plano. E nós dois roubando a cena no meu palco pessoal.
Ao mesmo tempo tudo tão sentido e revivido e idealizado numa mente adolescente - e que beira a infantil.
Todo um diálogo interno sobre cuidados e sobre não cair pela pessoa errada. Todo o autocontrole, adquirido em anos, jogado pela janela do carro. Toda a maturidade emocional pisoteada por seus pés descuidados. Todo um discurso sobre não se envolver esmagado entre nossos corpos.
Eu andei pisando torto. Eu andei fazendo escolhas ruins. Eu estive perdida. E gostei.
Mas agora eu quero o controle de novo. E pra isso você vai ter que partir.

sábado, dezembro 08, 2012

– Vamos lá, me ver não vai arrancar nenhum pedaço – diz.
Como se ainda houvesse algum pedaço para arrancar.
– O que de tão urgente temos a dizer que não possa ser adiado? 

Gabito Nunes

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Quatro mil pés

Estou a um passo do abismo, e já deveria ser suficientemente assustador o fato de que eu posso cair a qualquer momento. Qualquer. Se eu respirar errado, se eu tropeçar, se eu me desequilibrar, se eu cair no sono, se eu me distrair, se alguém me empurrar, se passar um vento forte; a qualquer momento eu posso cair.
Mas o mais aterrorizador de tudo isso é que este abismo me é estranhamente convidativo. Esse mar de desconhecido me magnetiza de uma forma que eu mal consigo compreender. Quando me dou conta, já estou com um pé para dentro desse despenhadeiro, jogando com o pouco fôlego de vida que me restou depois de tudo.
Acordo e durmo cercada por este precipício: ele agora ocupa toda a minha visão, e eu já perdi de vista o caminho de volta. As minhas chances estão fora do meu alcance.
Mas será que é o bastante essa consciência?
Será que é o suficiente eu estar vestida com uma armadura, com uma arma empunhada, estar vigil e esperando o ataque? Será que basta reconhecer a queda para que ela não se torne dolorosa? Será que basta perceber o abismo para não cair?
Estou a quatro mil pés da superfície, mas eu quero cair.

domingo, dezembro 02, 2012

Garrafa

Eu tenho do meu lado essa garrafa vazia e eu já nem me lembro de quê. O álcool que eu bebi irrita o meu estômago, me dá náuseas, e mesmo assim eu estou feliz. Eu espero que ele me faça mal o bastante para que eu consiga vomitar tudo. Vomitar você, suas lembranças, sua voz, sua saliva, seu suor, sua risada sarcástica, seu silêncio. Quero vomitar você inteiro, te extrair de cada célula do meu corpo. Faz tanto tempo que estou tentando metabolizar esse veneno que você espalhou no meu sangue, que meu fígado já não aguenta mais. Esse cheiro que você deixou impregnado em todo o meu corpo me cansa e me enoja. Esse gosto que você deixou na minha boca me dá náusea. Essa saudade que você deixou no meu corpo me subjuga. Essa mensagem que você deixou na minha caixa de entrada me faz querer voltar no tempo e fazer tudo ao contrário.
O tempo passa, mas resiste em ficar pra trás. Seu corpo está longe do meu, mas ainda posso sentir os calafrios que o seu toque provocou em mim. Há muito tempo não ouço a sua voz, mas eu ainda tremo só de lembrar.
E tudo isso me dá nojo.
Esse passado insistente, esses regressos intermináveis, essa vida que anda em círculos e que parece querer nos confundir: tudo isso me faz querer pular um mês ou um ano ou uma década de minha vida, só pra alcançar aquele ponto em que o seu nome não vai mais causar absolutamente nenhum efeito em mim.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Relief

I faced the most distressful ten-minutes walk ever just to say thank you. Thank you for killing all my hopes. My hopes that there could be any future for us. My hopes that there were any step I could give on your direction. Thank you for killing all our chances, for giving me enough reasons to never look behind.
Thank you for all the times you ignored me, for being always so far and unachievable. Thank you for making it hurt day after day, till I got numbed.
Thank you for not giving a damn for my pain, for my issues, for my questions. Thank you for not answering my messages, my questions or even my expectations.
You made it easier. You made it faster.
Thank you for your unbreakable silence, your monosyllabic speach, your empty words. They've left enough space. And this space I filled with the worst possibilities, occupied it with my own version of the story. And I can swear to you, I've been living with the worst. I've been dealing with the emptiness day after day. I've been feeling lonely enough for grabbing any chance of conection with someone else. I've been so sad, that I get happy when the noises around me get to supress my outcry.
So far there's always something missing. But I really want to thank you 'cause seems to be closer the day in which I'll look at the past with indifference.
It's a climb. A sudden climb. The top is still cloudy. But I'll keep climbing.
The closer you get, the lighter things will be, and I'll get relief.

terça-feira, novembro 20, 2012

Carrega

Quantos passos são necessários pra que eu chegue lá? Quantos dias são necessários para que o passado se feche em si? Quanto tempo leva até que deixemos de esperar que a vida se dê em ciclos fechados? Quanta maturidade é necessária para que aprendamos a enfim lidar com perguntas sem respostas? Quantas vezes é necessário cair até que se levantar não seja doloroso? Eu tenho tentado agir normalmente, andar como andaria, falar como falaria, pensar como deveria. Eu tenho mantras que repito sempre que necessário, esperando absorvê-los e, enfim, colocá-los em prática. Eu tenho um copo que já tem o cheiro do álcool daquela garrafa de vodca que eu bebi todas aquelas vezes em que me lembrar foi dolorido. Eu tenho essa alma saudosista e esse cérebro nostálgico. Eu tenho essa graça esquisita de querer discordar da dor. Eu tenho tudo isso que hoje não me serviu pra nada.
Eu tenho tudo isso e, mesmo assim, dar de cara com esse lembrete infiel de algum passado me tirou um pouco do chão e da minha firmeza nos pés. Eu digo infiel porque ele vem com esse ar atraente de passado, mas com um gosto amargo e desapontador de um presente que se instala, peremptório.
Será que é demais que nessa vida eu peça por clareza? Será que se paga um preço muito alto pra ter respostas? Ainda que seja inútil ter certeza, eu estou aqui disposta a pagar pra ver.
Eu passo tanto tempo sem escrever, sem falar, sem sequer pensar sobre; e de repente a roda gira e troca as imagens na minha cabeça e incomoda um pouco a minha paz, só pra insinuar que talvez os nós não estejam atados. E eu pergunto pra mim mesma: como? Pra quê? Por quê? Na ausência de respostas, eu respiro fundo até que a minha mente se canse e troque de novo as imagens. E vem sendo assim uma vez a cada semana ou a cada mês.
A memória é um tanto traiçoeira, mas é igualmente falha. Daqui a pouco as coisas se ajeitam. Já diz-se por aí que o tempo se encarrega das coisas. Então, enquanto o tempo (se en)carrega (de) você, eu me (encar)rego de mais outra dose daquela vodca que já tem esse estranho cheiro de nós.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Linha

Você se lembra daquela vez, aquela primeira vez em que a gente ficou abraçados sentindo o vento que passava varrendo a nossa timidez? E a gente ficou falando de nada, com cara de bobos, e você em algum momento, de propósito, bagunçou meu rabo-de-cavalo. E eu fiquei muito, muito nervosa. Tanto que, mesmo eu tentando disfarçar, você notou... eu não sei o que você achou da minha reação, se achou infantil, exagerada ou fútil, mas eu nem quis me explicar. Como eu iria explicar pra você que o único motivo que me fez ficar irritada com isso era o fato de que isso fazia eu me lembrar de que ele sempre fazia isso? Como eu iria te dizer que essa era apenas uma das pequenas coisas que me fazia sentir saudades de estar com ele? Acredito que, naquele momento, você não gostaria de ouvir nada disso...
Então o tempo passou, essas coisas foram passando e você foi ficando.
Eu achei que você era nada, que a gente era nada, que era só uma coisa sem nome, sem definição...
Sem nomes, sem regras, sem explicações, sem decoro... apenas eu. E você. Eu e você.
Até ontem, quando você estava outra vez abraçado comigo, outra vez nós sendo bobos, e outra vez você bagunçou propositalmente meu cabelo. E eu ri. E isso me fez lembrar apenas de você, e da gente, e foi aí que eu percebi que já é tarde demais, que eu cruzei a linha de segurança, que eu já estou do lado de lá... eu estou apaixonada, eu já me rendi. Não há formas de te tirar da minha vida sem que eu sofra ao menos um pouco; não há como te levar daqui sem desequilibrar um pouco meus passos; se você chega, se você sai, tudo isso afeta minha respiração...
Então tudo o que eu posso fazer agora é esperar.. esperar você se render, esperar você ser meu assim como eu sou sua agora, meu bem.
Então você poderia, agora, segurar minha mão e me dizer que não está sendo em vão?

sábado, outubro 20, 2012

Você chegou com um ar de quem estava só se divertindo... você me pegou de surpresa e roubou um beijo meu. E eu pensei que isso era tudo. Então você quis repetir a dose, e eu, não tão pega de surpresa assim, deixei... eu decidi que, se pela primeira vez em tanto tempo eu quis me envolver, eu faria isso. Mas sem pretensão, sem perspectivas, sem olhar muito à frente. Então 'a gente' não passava de uma coisa casual, até que, de um dia pro outro, você falou de mim pras pessoas, quis andar de mãos dadas, fez planos comigo... as pessoas olham pra mim esperando que eu diga o que é que eu estou fazendo. E a verdade é que eu não sei. E se você sabe, ainda não me contou.
Por que você está dizendo pras pessoas que eu sou mais do que algo casual, se você nunca me disse nada? Hoje eu senti algum medo, medo de estar enganada. Medo de ser pega de surpresa. Porque eu ainda não estou pronta pra nada dessas coisas que escapam do meu controle...

Sobre pertencer

E então eu voltei pra essa cidade fria e vazia, e - não sei se porque eu realmente procurei por isso, e/ou se porque eu precisava disso - eu projetei em você o meu porto-seguro. O lar, aquele que sempre está lá quando você precisa voltar. Aquele que te faz se sentir confortável, e que espera você e o seu momento. A decoração nem era do meu jeito, a fachada nem tinha a minha cara, mas era o meu lar...
Então esse mundinho sacana deu meia volta, sacudiu e te jogou pra fora do meu mundo. Foi pá-pum. Não tive tempo de pensar, de planejar, só vi você chegar sorrindo e comemorando, e tudo o que eu consegui fazer foi dar um sorriso de lábios cerrados e ficar por ali uns cinco minutos, até que eu sufoquei e procurei um canto escuro pra eu poder chorar e chorar e chorar. Por quê? Nossa, quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Eu não entendi no início, nem sei se entendo agora. Mas é que, e aí? Você vai embora e eu o quê? Vou dividir com quem minhas coisas? Vou contar pra quem aquelas surpresinhas agradáveis ou não que o dia me faz? Vou cozinhar com quem? Vou ser ouvida por quem? É, a verdade é que agora, mais do que nunca, eu me sinto só. E eu estou, mesmo, só.
Passar a pertencer tem sido um processo trabalhoso demais pra mim...

quinta-feira, outubro 18, 2012

Ninguém se importa*

Enquanto você dorme… ninguém se importa.
O dia amanhece, anoitece, bebemos, ficamos sóbrios… ninguém se importa.
Sou o muro onde o medo se apóia, sou o nada que alguém quer usar… ninguém se importa.
Sou a pedra na rua que você vai chutar,
Sou lixo que quer descartar,
Sou o que você não sabe lidar.
Sou destrato com um confidente,
Sou importante como um indigente,
Sou nada em forma de imponente.
Ninguém se importa.
Sou o que você mal vai se lembrar…
Ninguém se importa.
Especialmente você.

*Texto de Artur Caneda

domingo, setembro 16, 2012

De novo

Abriu as páginas do livro velho - presente ganhado havia anos. Estava amarelado e gasto nas bordas, mas, abertas as páginas, um cheiro particular tomava lugar nos seus sentidos. Escolheu o capítulo que mais lhe marcou. Demorou a achar, mas quando o encontrou, leu-o novamente. E chorou.
Não, o drama que as páginas traziam não era nenhuma surpresa, e ele nem vinha dentro daquela fórmula melodramática e piegas. Era muito sutil - tanto que não chorara da primeira vez; mas a sua alma sofreu com a decadência ali presente, com a ausência do futuro, com o contraste entre a lucidez miserável e o delírio deleitoso; qual seria pior? A alma sofre com essas perguntas.
Mas não foi nada disso que a fez chorar. Foi a memória - que nos prega dessas peças. Foi a memória de uma voz, de um cheiro, de um sentimento, de uns sonhos. Foi a memória de uma época.
Lembrou-se da janela de vidro que dava vista para outra janela de vidro, e as janelas comunicavam melhor que qualquer telefone.
'_Mas não acaba, não. Não acaba nunca. A gente não deixa', falou-lhe um rosto turvo e uma voz um tanto indefinida.
Queria muito e de novo a fé que tinha, àquele tempo, de que podia e iria tomar as rédeas. Sofreu porque a vida, às vezes, não deixa escolhas. E sofreu porque percebeu que, quando a gente percebe, às vezes é tarde demais. Mas parcebeu-o tarde demais.
Tentou relembrar ao máximo, tentou quase reviver umas piadas, umas histórias, umas graças, uns carinhos. E chorava, e chorava, e padecia. Tudo isso até a alma se assentar e se acalmar e respirar.
Abriu, então, novamente o capítulo e começou tudo outra vez.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Tarde

Eu me lembro de que eu estava quase curada, e eu tinha até outros braços em volta de mim. Eu tinha outros lábios atrapalhando o ritmo da minha respiração. Eu estava lá, um pouco perdida, um pouco deslocada, mas enfim, no meu canto. Então eu dei três passos e me deparei com ele. Eu torci um pouco o nariz, como que pra sinalizar o meu fechamento e a minha reprovação a tudo o que ele (não) havia dito ou feito até ali. Ao mesmo tempo eu mantive minha postura de pessoa sã e socialmente correta e interagi. Um assunto - certamente superficial - não se prolongou por muito tempo, e ele olhou pra mim com um ar um tanto incerto, um tanto indagador, e falou as palavras que eu esperei ouvir por muito, muito tempo. A gente precisa conversar, não é mesmo? Eu assenti com a voz, com a cabeça, com o corpo e com o espírito. E então eu comecei um diálogo interno me interrogando o que dizer e como dizer. É óbvio que não havia nenhum objetivo naquela conversa, mas que mal faz termos sede de entender o porquê das coisas? Todo, alguém diria. Dois segundos eu me retive nestes pensamentos e ele prontamente adiou o colóquio. Deu-me um motivo e pronto. Eu esperei muito por isso, pensei. Tudo bem. Antes tarde do que nunca. Teríamos tempo pra isso.
É (quase) sempre uma pena quando o sono acaba antes do sonho.

terça-feira, setembro 11, 2012

Em poucas palavras...

Why don't you get the fuck out of my life?

domingo, setembro 09, 2012

Queda

É uma queda vertiginosa, de uma altura muito elevada, desastrosa e constrangedora. Eu tento esconder os vestígios, mas às vezes fica difícil. Eu tento, nem sei por quê. Talvez pra poupar todos que estão por perto, talvez porque a distração é a melhor cura para o pesar. Tem dias que eu me levanto e vejo que preciso sacudir uma poeira da qual pensei ter me livrado. Tem noites em que eu me deito e penso que talvez o tempo - diferente do que diria Nicolas Boileau* - não passa assim tão rápido. Eu tenho vontade de escrever algo, mas eu não sei exatamente o quê, sobre qual assunto e muito menos pra quem ou com qual objetivo. Eu tenho vontade de falar algo, mas as palavras se embaralham no meu estômago, fazem alguma bagunça, sobem pelo esôfago e ficam encravadas na garganta. Eu tenho vontade de chorar, mas eu não sei se há bem um motivo, e é pretensão demais achar que eu posso sofrer assim, sem ter razão. Eu me esqueço dos motivos, eu ponho de lado as memórias, eu ignoro os sinais, e o que resiste, depois de tudo, é uma dor petulante e um vazio insistente.
Foi uma queda muito alta, mas as feridas já começam a parecer cicatrizes.

*"Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim."   

sábado, setembro 08, 2012

Tanto tempo

Faz tanto tempo desde aquela vez. Desde aquela última vez em que você chegou naquela van - com aquele cheiro tão nostálgico que me faz querer rir e chorar ao mesmo tempo -, e sorriu timidamente, reclamando o seu espaço naquele banco que, por um quarto de hora ou menos, era só nosso. Esse sempre foi o máximo de intimidade, sempre a menor distância entre nós. Eu me lembro bem de como você sorria sempre. Eu me lembro das nossas conversas, sempre com um ar tímido e galhofeiro, pra esconder a profundidade do que a gente dizia. Os seus sinais me confundiram, sempre, mas eu posso ver agora como você me quis. Eu posso ver que quando você me disse que ficou louco quando ouviu dizer que eu tinha alguém, não era brincadeira - no máximo, um exagero. Eu percebo agora que era verdade quando você disse que não via muita graça por lá desde que eu me fui.
Então passou-se um ano ou dois, e eu te encontrei de novo. Você naquela camisa azul de botão, parecia mais homem do que nunca. Parecia mais certo do que nunca. Mais resoluto do que nunca. Você se assustou um pouco quando me viu - talvez porque eu também parecesse mais mulher do que nunca -, e eu me demorei em te observar, como se pedisse timidamente que viesse até mim. E você veio. Você pôs seus braços em volta da minha cintura como nunca ousou fazer antes, você me apertou contra o teu peito, e eu me dei conta de que nunca havia sentido o seu coração - por isso mesmo eu não tinha como saber se o seu ritmo acelerado tinha a ver com nós dois abraçados ou se era sempre assim. Você me abraçou com tanta certeza que eu me apaixonei de novo.
Faz tanto tempo desde aquela vez em que eu sonhei com você, e você me pediu um beijo e eu acordei com o peito doendo pois era tudo mentira. E agora é verdade, quem diria.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Foco

"Foco é coisa do passado. No mundo moderno, queremos sentir tudo o tempo todo. Não faz sentido em apenas dar um passeio no parque quando podemos também ouvir música nos fones de ouvido, mastigar um cachorro-quente, vestir solas vibratórias no seu máximo, e observar o carnaval ambulante da humanidade. Nossas escolhas berram o credo de uma nova ordem mundial: estímulo! O pensamento e a criatividade se tornam subservientes à meta singular de saturar nossos sentidos. Mas sou da velha escola. Se você não estiver preparada para se concentrar em mim quando estiver comigo – conversa, toque, nosso momentâneo entrelaçar das almas –, então sai da minha frente e volte para seus 500 canais de vida com som surround." (Neil Strauss)

sábado, setembro 01, 2012

Abismo

Eu estou aproveitando quase todo o tempo ocioso de que disponho pra ser a melhor pessoa do mundo. Fiz mil planos, quero aprender francês, li sobre o nazismo, estudei sociopatia, pesquisei sobre psicanálise, deixei de ser uma analfabeta da sétima arte, li sobre a teoria das cordas, vi documentários, até aprendi técnicas estadunidenses de interrogatório. Tudo isso porque quero ser alguém mais interessante pra mim mesma. É. É isso mesmo: pra mim mesma. Eu quero me sentar com pessoas cultas e ter segurança no que dizer. Eu quero gostar das minhas opiniões e dos meus argumentos. Eu quero ter justificativas pra tudo. Eu quero saber tudo de tudo. Eu sei, sim, que é impossível. Mas eu gosto da ideia de permanecer tentando.
Então, por favor, não venha ocupar meu tempo tentando me amar. Não se aproxime de mim querendo me conhecer. Não me chame pra ver uma comédia romântica no cinema de mãos dadas que hoje eu não tô pra isso. Não me mande uma mensagem dizendo que pensou em mim antes de dormir. Não me pegue pela mão, não faça amizade com meus pais, não conquiste os meus irmãos, não converse com os meus amigos. Não cheire o meu pescoço, nem faça carinho no meu cabelo, porque, olha, eu estou muito ocupada pra isso. Não me ligue todos os dias pra saber como eu estou. Não tente me conquistar. Olha, todo o mundo que fez isso nas últimas semanas ou nos últimos meses só conseguiu de mim um maior abismo emocional.
Me desculpa, eu tô ocupada demais comigo mesma, gostando de mim mesma, cuidando de mim e de alguns amigos, e estreitando aqueles laços que me fazem bem.
Então, por favor, não diga que minha voz é linda, nem que ama a frangrância do meu perfume misturada com o meu cheiro, nem pesquise as minhas bandas preferidas e nem busque formas alternativas de se aproximar. Porque agora eu não tenho tempo pra amar ninguém.

Os opostos se atraem

"Os opostos se distraem, os dispostos se atraem..." Realejo - O Teatro Mágico

Eu me prendi várias vezes nestes versos pensando no que pretendem dizer. Ou se pretendem dizer algo. Não os deixo de admirar pela sua forma, pela maneira como brincam com o ditado tanta vez repetido. Os opostos se atraem. Um tanto cliché, um tanto verdade. Mas me pergunto se aqueles versos (des)pretensiosos não guardam uma verdade grande demais: a de que ficamos perdidos, distraídos, buscando satisfazer-nos em nossos opostos, enquanto apenas os que se põem dispostos a amar algo além das primeiras sensações são capazes de encontrar o caminho para uma relação que, mais do que intensa, é sustentável, e em que haja, mais do que uma atração irresistível, compatibilidade. Será que, na busca por alguém que nos complete emocionalmente, não nos perdemos e nos distraímos numa série de experiências que, talvez por terem tudo pra dar errado, nos parecem excitantes e atraentes e desafiadoras?
Me passa pela cabeça que talvez isso seja uma forma de buscar um relacionamento que já esteja fadado ao insucesso para que, ao final, possa-se culpar as circunstâncias ou o desgaste do tempo ou a vida. Isso nos poupa de assumir o controle das nossa atitudes e, consequentemente, nos poupa de assumir certas responsabilidades. Não culpas, responsabilidades. Isso nos poupa de olhar pra um objetivo e vê-lo como algo a ser conquistado continuamente. Os dispostos se atraem porque estão decididos a lutar e a se esforçar em prol de algo. Porque não culpam as circunstâncias, mas se dispõem a tomar as rédeas da própria vida. Porque se põem a analisar e a fazer as próprias escolhas e a aceitar as consequências delas. E porque diariamente buscam formas de fazer caminhar algo que nunca iria funcionar sem esse esforço. Porque paixão passa, porque a convivência desgasta, porque o tempo extingue. Se não há dispostos buscando atrair-se, todo relacionamento está fadado ao fim ou a um estado lamentável em que a força do hábito e o medo de enfrentar o vazio prendem duas pessoas em uma relação insatisfatória e frívola.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Air Crash

I'm flying high now, cause it's time for me to leave. I'm just trying to run away from us and our past. I'm sorry if it sounds weak, but strength it's not my gift, mostly because I have already tried to do my best. I took the first airplane, I left without saying goodbye. It wouldn't make it any easier to look into your eyes, since you told me that we don't match, don't work, don't fit, without showing any will of trying to fix my heart.
Now I'm in the middle of the air crash. I'm three thousand feet above the ground, but I've lost my fears for now. I'm gonna die in a split of second, I did a pray and I'm ready now.
Your face covers my sight, your name is all I know. My chest now is stagnant, and my lung seems so vain. But I can't understand the way I feel in soul. It's more and more calm as the fire washes the pain. But I can see your face just trying to believe it, and, even just for a while, you're going to be sorry for not holding my hands, for letting me to leave, and for a day or two you will revive our story.

segunda-feira, agosto 13, 2012

Uma breve reflexão...*

*Trecho do texto retirado do blog Just Wrapped

"[...] Isso porque apenas na vida real e não na ficção achamos razoável conviver com diálogos que não fazem sentido, pessoas que aparecem e desaparecem sem a menor explicação, eventos que parecem ser importantes mas não dão em nada e gente que passa seis anos reclamando da saudade que sente de alguém mas depois subitamente decide ficar com outra pessoa e dizer que tá tudo bem agora – here’s looking at you, Sayid. Na vida real gostaríamos de ver sentido, organização, arcos fechados com personagens que efetivamente se desenvolvem e terminam num final feliz, mas frequentemente temos que nos contentar com atuações questionáveis, gente agindo fora do personagem e eventos totalmente randômicos que não apenas não se encaixam na jornada do herói como ferem as leis de trânsito e até mesmo a constituição. [...]"