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domingo, fevereiro 17, 2013

Ela

O mundo dá voltas, o tempo passa, as coisas mudam, nada permanece, mas ela continua atravessando minha mente toda semana, dia após dia. Eu saí, eu fiz amigos, eu me abri, me acerquei de outras pessoas, mas ela continua sendo a minha referência de ombro amigo e de ouvido aberto. Eu ri, me diverti, me permiti se eu mesma, mas eu nunca fui tão eu quanto fui diante dela.
É que as pessoas não entendem o que é conhecer o outro tão profundamente, que explicações se tornam desnecessárias. As pessoas não sabem o que é poder falar o que vem no peito e não se sentir julgado ou exposto. Poucas pessoas conhecem a sinceridade que a gente conheceu, a leveza que a gente vivenciou, a honestidade que a gente experimentou;
Sim, eu senti e cultivei amor por outras pessoas depois dela. Mas é que quem mais se põe disposto a ouvir as minhas questões, relevantes ou não, claras ou não, racionais ou não, e as compartilha comigo com prazer, sem pressa de saber o que se passa no mundo lá fora?
As pessoas têm pressa, este mundo tem tanta pressa. Se as respostas não estão na superfície, as pessoas não se interessam em mergulhar. As pessoas não querem ouvir, não querem se dividir ou se esforçar. E se essa for a condição, eu prefiro não me dar a conhecer.
E é por isso que eu sinto tanta falta dela. De tantas horas seguidas de conversa. De tantas teorias, de tanta especulação sobre a vida, sobre o sofrimento, e sobre sentimentos tão complexos que eu nem sei que nome dar. Eu sinto falta do seu silêncio atento, do valor que dava ao que eu tinha a dizer - como se fosse, mesmo, importante -, mas sinto ainda mais falta da sua voz. Porque nenhum riso era igual ao nosso.
As pessoas em volta nos invejavam: eu podia sentir. Quem mais encontrou amizade tão plena que podia ignorar as pessoas, as horas, os acontecimentos em volta, sem sequer olhar em volta? Quem mais se satisfazia com um só abraço, um mesmo eu te amo, uma única opinião? Quem mais passava tanto tempo junto de alguém sem que isso fosse motivo de peso?
Quem mais? Muito poucos, eu diria.
Sabe porque eu sei que as pessoas tinham inveja de nós? Porque eu também teria. Porque agora, neste momento, eu tenho inveja daquela que eu fui no passado, vivendo aquela realidade, vivendo aquele momento.
Meu texto não é bonito. Mas é sincero.
Sim: eu era feliz e sabia.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

O primeiro beijo

Eu não sei como não começar este texto de uma forma clichê e piegas, pois você sempre foi minha maior certeza, meu centro. A única coisa terrena que me fazia querer acreditar em destino e em eterno e em todas essas coisas das quais a gente não tem nenhuma garantia. E todas as minhas dúvidas se resumiam a um medo descomunal de te perder. Era sempre 'o que fazer se ele partir? A quem amar se ele se for? O que mais esperar se ele não for a coisa certa nessa vida?'. Mas nunca te deixar foi uma opção, nunca partir passou pela minha cabeça.
Mas, sabe, pensar em todas as outras possibilidades me fez pensar se eu estava perdendo algo. Do que eu poderia sentir falta?
Eu sou uma criança amedrontada e, por isso, fins, términos, rupturas nunca foram atraentes pra mim. Mas elas seriam apenas o início do caminho necessário que levaria para o novo, o desconhecido: de novo as mãos suadas; outra vez não saber o que dizer; outra vez o frio na barriga e a voz tremendo ao telefone; outra vez a expectativa, a paquera, os olhares indesvendáveis. Aparentemente era isso que eu parecia estar perdendo: a emoção do primeiro olhar, do primeiro sorriso, do primeiro sinal. Do primeiro beijo.
Mas hoje, depois de tanto tempo, eu me dou conta: eu não perdi nada. Você tem ideia de quantos primeiros beijos nós tivemos?
Você se lembra do primeiro, primeiro? Nós dois sentados na escada, o barulho abafado da festa e você meio bêbado, meio empolgado, sendo carismático e fazendo piada. Eu te perguntava se estava tudo bem, se você estava bem. Você jurava que sim e, em seguida, começava a acompanhar em voz alta a música no fundo: uma grande contradição, risos. Mas você estava melhor do que nunca. Eu só te perguntava se estava bem pra ressaltar a minha preocupação com tudo o que dizia respeito. Você às vezes segurava a minha mão, às vezes dançava comigo, às veze falava no meu ouvido, e eu já estava desistindo do momento em que você iria me beijar. Foi no fim da noite: você já estava menos alterado e foi me acompanhar até em casa. Pegou na minha mão, fez carinho no meu cabelo, beijou meu ombro e eu me derreti. A sensação é indescritível. E então você me beijou e aquela rua parecia ser o melhor lugar do mundo. Aquela calçada parecia o paraíso. E eu parecia estar te amando.
Você se lembra do primeiro beijo depois que me pediu em namoro? Não faz sentido na minha cabeça, mas aparentemente o meu 'sim' foi uma surpresa, porque eu me lembro bem a urgência com que você pressionou  seus lábios contra os meus. A sua inquietação se espalhou pelos seus braços, por sua língua, por sua respiração e por mim. Você ofegante prendia meu corpo junto do seu, e seus dedos ávidos perpassavam minhas costas, meus cabelos, meu rosto, meus lábios, meu pescoço. Nunca tanta sede, nunca tanto ardor. E eu nunca tão entregue.
Você se lembra do primeiro beijo depois de casados? Sim, aquele na igreja, em frente a todos. A demonstração máxima de que nos escolhemos mutuamente pra passar o resto das nossas vidas. Não porque parecesse fácil, não porque parecesse óbvio. Mas porque queríamos. Tanto que estávamos dispostos a tentar, dia após dia, pelo resto de nossas vidas. As minhas pernas estavam bambas, eu parecia ter me transportado para uma realidade paralela. O momento era surreal. E o seu beijo foi tão fiel, tão doce, tão cheio de certeza, que sedimentou toda a minha inquietude. De repente calmaria, de repente afirmação, de repente ausência de medo do que estaria por vir. E eu de repente tão sua quanto de mim mesma.
Você se lembra do primeiro beijo depois que eu te contei que estava grávida? A minha excitação me fazia rir descaradamente ao mesmo tempo em que eu chorava desconsoladamente. Uma mistura de desconhecido e de chão firme. Algo pra que você nunca está preparado mas que você sempre espera acontecer. E ali estávamos nós, dividindo um presente tão meu quanto teu. Então você chorou junto, riu junto, e me beijou com demora, com ternura, com calma e serenidade. Um beijo que dizia algo como 'não tenhamos pressa, temos o amor à nossa disposição, o tempo a nosso favor, e o nosso final feliz está apenas começando'. E nós dois fazendo o tempo se curvar diante de nós.
Você se lembra do primeiro beijo depois que a nossa filha saiu de casa e foi fazer faculdade? Nós a tínhamos deixado na cidade e voltávamos de carro. Você se concentrava em dirigir enquanto minha mente turbilhonava pensando em tudo aquilo: na distância. Na saudade que, imposta, parece vir mais violenta. No aparente abandono. Na fragilidade da nossa menina. Na força da nossa menina. A minha mente estava tão saturada que eu só notei que eu estava soluçando quando você desligou o motor após parar o carro no acostamento. Você tentou conversar, você tentou racionalizar, você tentou fazer piada, aliviar. Mas foi só quando você beijou minhas mãos, depois meus braços, depois meu ombro, e meu pescoço e, enfim, a minha boca, foi que eu entendi que não havia nenhum outro lugar para eu estar no mundo que não aquele carro e aquela estrada e aquele momento e aquele amor e aquela vida. Nós nunca tão eternos.
Amor, esses são apenas alguns dos nossos primeiros beijos, e eu poderia relatar tantos outros, mas vou parar por aqui, porque você já está olhando pra mim com suas rugas, sua graça e seu olhar de desconfiança enquanto eu escrevo este texto. E agora eu quero te dar o primeiro beijo do dia depois de escrever sobre você.

sábado, fevereiro 02, 2013

Alívio

Posso ser sincera contigo? Aliás, meu pedido é mais profundo: posso ser sincera comigo? Se me permite, arrisco dizer que eu meio gosto de você, do jeito que você se dirige a mim, do jeito que você segura a minha mão, de como fala comigo, e de como parece ter cuidado com o que me diz respeito. E, sim, eu aceito totalmente a possibilidade de que tudo isso é fruto de conclusões turvas de uma série de sensações mal-interpretadas. Mas eu tenho aprendido que o instinto é uma arma poderosa, se utilizado adequadamente. E meu instinto me diz coisas que minha razão não quer aceitar, simplesmente como forma de me manter em um perímetro seguro, sem me expor. Porque eu sei que não posso me apegar a nada disso pra depois estar errada. É uma simples relação custo-benefício.
Eu, dentro das minhas relações, de todas elas, procuro dar ao outro a liberdade de oferecer o que quer, de ser o que quer. E, em contrapartida, dou-me o direito de me retirar de qualquer relação que me faça mal, ou em que o que se oferece é pouco, ilegítimo ou superficial.
E essa é a primeira razão pela qual eu escolho partir: tudo isso me parece arriscado, impensado, cheio de armadilhas. Eu me vejo exposta, com o peito aberto e sem retaguarda, porque em algum ponto do caminho eu pus de lado a minha armadura e desempunhei a minha arma. É que eu achei que você tinha ido embora sem intenção de voltar, e que elas não seriam mais necessárias. Mas aí você voltou e eu me vi pisando em ovos, com medo de usar as palavras erradas, com medo de me colocar de maneira errada, com medo de confundir os sinais... com medo de que você fosse tão louco que estivesse jogando fora das regras do jogo. É que depois de tudo o que houve, você não deveria olhar pra trás sem pensar duas vezes. E você me disse que o fez, que pensou duas vezes. Mas você não percebe que eu procuro mais do que isso? Que eu procuro mais do que alguém que está comigo pensando em outro alguém? Você me diz que não está, o meu instinto diz que não está, mas os fatos falam contra nós.
As minhas sensações me maltratam quando eu te vejo todas as horas do dia tentando se manter por perto. A minha percepção me subjuga quando você escolhe passar comigo a noite do seu sábado. O meu instinto me debulha quando você se mostra vulnerável comigo. Será que mesmo eu racionalmente jurando pra mim mesma que essas percepções são insidiosas, seria capaz de inventar tudo isso, repetidas vezes, diariamente? Será que eu sou assim tão insensata?
Talvez eu seja, sim, porque eu já perdi de vista aquela linha divisória que nos mostra em que ponto estamos. E eu não estou pronta pra arriscar.
E você e mais meio mundo podem vir me dizer que tudo isso é um medo juvenil de se expor e de sofrer, mas você e eu sabemos que a história não acaba por aí.
E o que vem depois é tão lamentável, tão destrutivo, que pesa meu ânimo, satura minha mente, densifica todas as minhas sensações e torna tudo isso pesado, carregado, obscuro.
E algo que era pra ser leve, pueril, insensato de uma forma quase ingênua, se torna inaceitável, e isso encerra mentalmente todas as minhas questões. Porque eu não vou pedir por favor, não vou te pegar pela mão e tentar te arrastar por um caminho que só você pode fazer, não vou pedir nada por mim.
Então, por favor, entenda. Entenda que eu quero seu bem, mas que seus lábios nos meus ombros não são mais uma opção segura. Entenda que eu não guardo nenhuma mágoa, mas que suas mãos segurando as minhas são uma cilada. Entenda que eu espero muito mais de você, mas que eu não vou estar do seu lado aguardando você perceber que você pode ser mais do que isso.
Entenda que tudo isso é pesado demais pra mim, e que eu preciso de alívio.
(...)

domingo, janeiro 27, 2013

Leve

A leveza dentro das relações muitas vezes está erroneamente associada com a complacência diante das atitudes alheias sem qualquer posicionamento/questionamento. A falta de honestidade - não em um sentido pejorativo, mas sim num contexto da mentira social, do que é socialmente aceito e agradável - é um grande problema. A omissão excessiva como consequência da tentativa de nos preservar ou de não sermos mal-interpretados coloca-nos em situações em que não somos sinceros uns com os outros, tampouco com nós mesmos, em relação ao que sentimos/pensamos. E tudo o que nos permitimos dizer ou sentir é aquilo que é tragável ao ponto de vista da racionalidade.
A consequência disso? Aquelas pessoas que se preocupam em analisar-se o tempo todo, em cada atitude - mesmo que sem sucesso -, que buscam ser coerentes, passam por um padecimento mental que é ter que equilibrar-se entre cultivar a franqueza consigo e com o outro, enquanto se preserva dentro da esfera do socialmente aceitável - para não agredir o outro com uma honestidade com a qual a maioria das pessoas não sabe lidar.
Quando não há um real conhecimento mútuo, fazer-se claro é um desafio. E, até que esse conhecimento seja alcançado, a cada vez que decide-se dizer o que se pensa, faz-se necessária toda uma contextualização e explicação detalhada, com o máximo de clareza possível, porque qualquer interpretação mal-feita pode custar caro.
Além disso, o padrão comportamental alheio te faz ter que provar, a cada atitude ou palavra dita, que suas motivações não são as comuns e que são, de fato, embasadas, pra que você não seja interpretado de forma errônea. Quanto desgaste mental.
Volto ao cerne: na tentativa pretendida como sensata de se colocar em prática a não-cobrança, baseada na crença de que tudo o que te oferecem dentro das relações - sejam elas familiares, amorosas ou amistosas, principalmente - devem partir da vontade genuína do outro, nos calamos diante de diversas situações, nos colocamos em posição de fragilidade, ao estender o nosso leque de atitudes que consideramos aceitáveis. Neste momento, qualquer protesto que possa ser levantado soa como uma cobrança descabida, já que cada um oferece o que quer.
Na tentativa de ser leve com os outros, tem-se em troca uma maior densidade consigo mesmo, uma preocupação exacerbada em ser coerente - nada que não seja racionalmente embasado não deve ser dito -, uma infinidade de protestos engolidos em seco e, mais uma vez, em um lamentável efeito rebote, relações que não ultrapassam a superficialidade.

Gosto

O gosto do teu beijo começa doce, mas termina sempre, enfim, em um gosto amargo.
Então o que é que tanto me faz retornar?
Como é que enxergando tudo o que está gritantemente errado, do início ao fim, da cabeça aos pés, eu volto ao mesmo lugar, e pago pra ver?
Nota mental: quando se faz o que quer, há sempre um preço a se pagar.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Pilates

"Gosto de acreditar que não foi fácil. Que você quase mandou o táxi voltar, que você quase me ligou, que você quase escreveu. Que a noite você sente minha falta, que sem mim a cama parece maior, que você precisou limpar seu mp3 porque músicas demais te faziam pensar em nós dois. Que as vezes um amigo seu menciona o meu nome e você bebe sua cerveja mais rápido, que tem alguma coisa minha que você levou embora da casa e eu ainda não percebi e que em algumas noites, quando você se sente muito sozinha, você tira de dentro de um lugar escondido no seu armário enquanto imagina se a gente não merecia mais tempo junto.

Gosto de imaginar que você ainda vai ser feliz, mas nem tanto. Que ao menos você ainda lembra, que ao menos você ainda pensa, que ao menos um pouquinho disso ficou, mesmo depois de você ter ido embora."

Trecho do texto Pilates, de João Baldi Jr.

segunda-feira, janeiro 07, 2013


O tempo tem o dom de banalizar acontecimentos notáveis e de desvalorizar sentimentos grandiosos.

As Últimas Flores...

Sentou-se no sofá meio zonzo, meio fraco, meio perdido. "Em estado terminal", o filho dela disse no telefone. Vinte e um anos depois da última vez que a tinha visto, não sabia o que esperar ao encontrá-la.
"Ela está em estado terminal. O médico sugeriu que ela se despedisse dos amigos e da família. Amanhã mesmo a levaremos pra casa... (Silêncio) Desculpe o incômodo... é que você continuou sendo a referência dela de família, de marido. Desculpe se estou sendo inadequado ou algo..."
"Não, de forma alguma. Fez muito bem em ligar!"
"Bem, se quiser, pode visitá-la amanhã de manhã..."
"Não. Irei hoje mesmo... pode me passar o nome do hospital, número do quarto, por favor?" [...]
Se arrependeu de ter prometido ir ainda hoje. Não sabia o que fazer, como se comportar. Não é como se pedir desculpas a essa altura fosse ser de alguma serventia. Sentia vergonha.
Imaginava o quanto ela deveria ter sofrido depois que ele a deixou. Com o filho recém-nascido, desempregada, morando num casebre alugado. Como, depois de tudo, ele poderia continuar sendo a sua referência de família?
Não se arrependia. Não. Faria tudo de novo. Era uma questão de sobrevivência, e aquilo, pra ele, não era vida. Nunca foi. Era pior do que morrer. Era como estar morrendo a todo o tempo, incessantemente, mas sem o alívio, sem o vazio, sem a anestesia. Foi-se embora porque não poderia lidar com outros dois seres humanos retirando dele o resto de suas energias, tempo, saúde e dinheiro. Dois seres frágeis dependendo dele. Era um peso muito grande, e partir, sem sombra de dúvidas, seria o melhor pra todos. Enfim, não se arrependia.
Mas sentia vergonha. Não saberia como olhar nos olhos dela. Nem nos olhos do filho dela. Não deles: dela, apenas. Ele não tinha participação nenhuma no fato de o bebê ter se tornado um homem. E um homem forte, aparentemente.
Não saberia o que dizer. Ele não lamentava por ter partido. Mas sentia muito pelas consequências daquilo pros dois.
Até então era fácil lidar com isso. Quase nem pensava no seu passado, já tão longínquo. Mas agora ele estava sendo obrigado a vê-la prostrada, moribunda, ainda mais frágil do que quando a deixou. Não conseguiria não se ver como único responsável por tal estado, se ele saiu e a deixou de um jeito e, agora, ao voltar, a encontraria ainda mais decadente. Ele não a acompanhou ao longo de sua trajetória, não seguiu as evoluções, e temia que as imagens pontuais dos dois extremos da vida, colocadas lado a lado, pudessem atormentar sua consciência, colocando-o como o culpado. E ele não era. Não poderia ser...
Tomou fôlego e, junto, alguma coragem. Levantou-se, enfim, pegou as chaves e caminhou até o carro.
Trancou-se dentro do seu Audi A8 e, ao tentar dar a ignição, viu-se, de novo, paralisado. Precisava saber o que dizer quando a visse...
Teve uma ideia... passou pela floricultura e comprou orquídeas. Era um gesto muito bonito, com certeza. Levar flores era reconfortante. Isso o pouparia de dizer muita coisa: as flores falavam por si, só.
As flores seriam o conforto para a alma da mulher. Representavam o que restou de belo do passado, representavam todo o encanto do que poderia ter sido, representavam a esperança de algum milagre repentino.
E pra ele, pra sua vergonha, pros seus ombros, pra sua consciência, representavam o alívio.
Seus ombros de repente ficaram leves, seus pensamentos ficaram em paz, e ele, com o peito cheio de honra e de orgulho de si, foi fazer esse último e bondoso gesto à mulher que tanto o amou um dia.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Gravata

Acordou às 5h30. Detestava aquela hora da manhã. Detestava aquele meio termo entre a noite e o dia, a luz fraca que apenas se insinuava vindo de fora, e o fato de o seu corpo, mesmo depois de tanto tempo, não ter se acostumado a acordar naquele horário. Mas ele precisava trabalhar...
Levantou-se, vestiu-se e caminhou até a padaria. Comprou pães de sal, que não queria, porque a mulher gostava, suco de goiaba, que não tomava, porque a filha queria, coca-cola, que detestava, porque o filho exigia. Mas não comprou aquela rosca caseira que desejava porque estava cara e ele precisava economizar..
Pegou o ônibus para o trabalho. Ele detestava a mistura de cheiros, odiava ouvir as histórias e conversas alheias, abominava permanecer em pé enquanto o ônibus se deslocava. Mas a mulher precisava do carro pra ir pra academia, e depois pra buscar as crianças, e então pra visitar a mãe...
Chegou ao trabalho quinze minutos mais cedo. Ele poderia chegar no horário, mas o chefe gostava de encontrá-lo em sua mesa sóbrio, sério, produtivo, com as tarefas do dia já encaminhadas. E ele precisava manter o emprego...
Detestava as pessoas com quem trabalhava, suas conversas superficiais, suas vidas medíocres, e odiava ainda mais a ilusão que tinham de que eram importantes. Mas ainda assim era educado e papeava durante o café e participava das confraternizações de fim de ano e fingia interesse pois precisava ser educado pra manter um clima agradável...
Depois do almoço, sentou-se em sua cadeira e folgou o nó da gravata. Odiava ter que usar a gravata e a calça social. O que mais queria era por uma bermuda e caminhar no sol enquanto ouvia música no seu fone de ouvido. Mas ele precisava passar uma boa impressão no trabalho...
Mal podia esperar pra entrar de férias. O que mais queria era ir passar o mês na praia. Mas o dinheiro das férias ele iria gastar na festa que a filha exigia e a mulher queria porque a filha da vizinha fez e ela precisava fazer melhor. Ele odiava gente e festas e odiava ainda mais a vizinha e a sua filha. Mas...
O nó na gravata agora já não parecia mais apertado o suficiente. Tudo o que ele queria naquele momento era se sufocar com aquela maldita gravata.
Ele estava, há muito tempo, cercado de pessoas que ele detestava, fazendo coisas que abominava, engolindo uma realidade que execrava, vivendo uma vida que odiava. E tudo isso pra quê?
Duvidava achar uma resposta...
A vida é este infindável questionamento, mas a morte anestesia... e ela parecia agora ser a melhor das opções.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Descuido

Um toque que desmanchou antigos planos e despertou novas expectativas. Um beijo que dizimou minha cautela e transcendeu barreiras psicológicas. Um abraço que liquidou minha sensatez e tirou o meu controle. Um convite que desmascarou minha maturidade e expôs minha puerilidade. Uma respiração que desmantelou minha resistência e exibiu minha vulnerabilidade.
Eu, de novo, pequena, exposta, inadvertida.
Ele, então, no controle, tomando a maior parte da minha consciência sem sequer se dar conta do estrago.
O abismo cada vez mais próximo, inevitável, atraente. Ele cada vez mais longe, alheio, inatingível.
Tudo tão físico, carnal, superficial. Recheado de ofegâncias, de peles se tocando, de lábios hábeis e corpos colados. 
Filmes, músicas, pessoas, a noite: tudo posto em terceiro plano. E nós dois roubando a cena no meu palco pessoal.
Ao mesmo tempo tudo tão sentido e revivido e idealizado numa mente adolescente - e que beira a infantil.
Todo um diálogo interno sobre cuidados e sobre não cair pela pessoa errada. Todo o autocontrole, adquirido em anos, jogado pela janela do carro. Toda a maturidade emocional pisoteada por seus pés descuidados. Todo um discurso sobre não se envolver esmagado entre nossos corpos.
Eu andei pisando torto. Eu andei fazendo escolhas ruins. Eu estive perdida. E gostei.
Mas agora eu quero o controle de novo. E pra isso você vai ter que partir.

sábado, dezembro 08, 2012

– Vamos lá, me ver não vai arrancar nenhum pedaço – diz.
Como se ainda houvesse algum pedaço para arrancar.
– O que de tão urgente temos a dizer que não possa ser adiado? 

Gabito Nunes

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Quatro mil pés

Estou a um passo do abismo, e já deveria ser suficientemente assustador o fato de que eu posso cair a qualquer momento. Qualquer. Se eu respirar errado, se eu tropeçar, se eu me desequilibrar, se eu cair no sono, se eu me distrair, se alguém me empurrar, se passar um vento forte; a qualquer momento eu posso cair.
Mas o mais aterrorizador de tudo isso é que este abismo me é estranhamente convidativo. Esse mar de desconhecido me magnetiza de uma forma que eu mal consigo compreender. Quando me dou conta, já estou com um pé para dentro desse despenhadeiro, jogando com o pouco fôlego de vida que me restou depois de tudo.
Acordo e durmo cercada por este precipício: ele agora ocupa toda a minha visão, e eu já perdi de vista o caminho de volta. As minhas chances estão fora do meu alcance.
Mas será que é o bastante essa consciência?
Será que é o suficiente eu estar vestida com uma armadura, com uma arma empunhada, estar vigil e esperando o ataque? Será que basta reconhecer a queda para que ela não se torne dolorosa? Será que basta perceber o abismo para não cair?
Estou a quatro mil pés da superfície, mas eu quero cair.

domingo, dezembro 02, 2012

Garrafa

Eu tenho do meu lado essa garrafa vazia e eu já nem me lembro de quê. O álcool que eu bebi irrita o meu estômago, me dá náuseas, e mesmo assim eu estou feliz. Eu espero que ele me faça mal o bastante para que eu consiga vomitar tudo. Vomitar você, suas lembranças, sua voz, sua saliva, seu suor, sua risada sarcástica, seu silêncio. Quero vomitar você inteiro, te extrair de cada célula do meu corpo. Faz tanto tempo que estou tentando metabolizar esse veneno que você espalhou no meu sangue, que meu fígado já não aguenta mais. Esse cheiro que você deixou impregnado em todo o meu corpo me cansa e me enoja. Esse gosto que você deixou na minha boca me dá náusea. Essa saudade que você deixou no meu corpo me subjuga. Essa mensagem que você deixou na minha caixa de entrada me faz querer voltar no tempo e fazer tudo ao contrário.
O tempo passa, mas resiste em ficar pra trás. Seu corpo está longe do meu, mas ainda posso sentir os calafrios que o seu toque provocou em mim. Há muito tempo não ouço a sua voz, mas eu ainda tremo só de lembrar.
E tudo isso me dá nojo.
Esse passado insistente, esses regressos intermináveis, essa vida que anda em círculos e que parece querer nos confundir: tudo isso me faz querer pular um mês ou um ano ou uma década de minha vida, só pra alcançar aquele ponto em que o seu nome não vai mais causar absolutamente nenhum efeito em mim.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Relief

I faced the most distressful ten-minutes walk ever just to say thank you. Thank you for killing all my hopes. My hopes that there could be any future for us. My hopes that there were any step I could give on your direction. Thank you for killing all our chances, for giving me enough reasons to never look behind.
Thank you for all the times you ignored me, for being always so far and unachievable. Thank you for making it hurt day after day, till I got numbed.
Thank you for not giving a damn for my pain, for my issues, for my questions. Thank you for not answering my messages, my questions or even my expectations.
You made it easier. You made it faster.
Thank you for your unbreakable silence, your monosyllabic speach, your empty words. They've left enough space. And this space I filled with the worst possibilities, occupied it with my own version of the story. And I can swear to you, I've been living with the worst. I've been dealing with the emptiness day after day. I've been feeling lonely enough for grabbing any chance of conection with someone else. I've been so sad, that I get happy when the noises around me get to supress my outcry.
So far there's always something missing. But I really want to thank you 'cause seems to be closer the day in which I'll look at the past with indifference.
It's a climb. A sudden climb. The top is still cloudy. But I'll keep climbing.
The closer you get, the lighter things will be, and I'll get relief.

terça-feira, novembro 20, 2012

Carrega

Quantos passos são necessários pra que eu chegue lá? Quantos dias são necessários para que o passado se feche em si? Quanto tempo leva até que deixemos de esperar que a vida se dê em ciclos fechados? Quanta maturidade é necessária para que aprendamos a enfim lidar com perguntas sem respostas? Quantas vezes é necessário cair até que se levantar não seja doloroso? Eu tenho tentado agir normalmente, andar como andaria, falar como falaria, pensar como deveria. Eu tenho mantras que repito sempre que necessário, esperando absorvê-los e, enfim, colocá-los em prática. Eu tenho um copo que já tem o cheiro do álcool daquela garrafa de vodca que eu bebi todas aquelas vezes em que me lembrar foi dolorido. Eu tenho essa alma saudosista e esse cérebro nostálgico. Eu tenho essa graça esquisita de querer discordar da dor. Eu tenho tudo isso que hoje não me serviu pra nada.
Eu tenho tudo isso e, mesmo assim, dar de cara com esse lembrete infiel de algum passado me tirou um pouco do chão e da minha firmeza nos pés. Eu digo infiel porque ele vem com esse ar atraente de passado, mas com um gosto amargo e desapontador de um presente que se instala, peremptório.
Será que é demais que nessa vida eu peça por clareza? Será que se paga um preço muito alto pra ter respostas? Ainda que seja inútil ter certeza, eu estou aqui disposta a pagar pra ver.
Eu passo tanto tempo sem escrever, sem falar, sem sequer pensar sobre; e de repente a roda gira e troca as imagens na minha cabeça e incomoda um pouco a minha paz, só pra insinuar que talvez os nós não estejam atados. E eu pergunto pra mim mesma: como? Pra quê? Por quê? Na ausência de respostas, eu respiro fundo até que a minha mente se canse e troque de novo as imagens. E vem sendo assim uma vez a cada semana ou a cada mês.
A memória é um tanto traiçoeira, mas é igualmente falha. Daqui a pouco as coisas se ajeitam. Já diz-se por aí que o tempo se encarrega das coisas. Então, enquanto o tempo (se en)carrega (de) você, eu me (encar)rego de mais outra dose daquela vodca que já tem esse estranho cheiro de nós.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Linha

Você se lembra daquela vez, aquela primeira vez em que a gente ficou abraçados sentindo o vento que passava varrendo a nossa timidez? E a gente ficou falando de nada, com cara de bobos, e você em algum momento, de propósito, bagunçou meu rabo-de-cavalo. E eu fiquei muito, muito nervosa. Tanto que, mesmo eu tentando disfarçar, você notou... eu não sei o que você achou da minha reação, se achou infantil, exagerada ou fútil, mas eu nem quis me explicar. Como eu iria explicar pra você que o único motivo que me fez ficar irritada com isso era o fato de que isso fazia eu me lembrar de que ele sempre fazia isso? Como eu iria te dizer que essa era apenas uma das pequenas coisas que me fazia sentir saudades de estar com ele? Acredito que, naquele momento, você não gostaria de ouvir nada disso...
Então o tempo passou, essas coisas foram passando e você foi ficando.
Eu achei que você era nada, que a gente era nada, que era só uma coisa sem nome, sem definição...
Sem nomes, sem regras, sem explicações, sem decoro... apenas eu. E você. Eu e você.
Até ontem, quando você estava outra vez abraçado comigo, outra vez nós sendo bobos, e outra vez você bagunçou propositalmente meu cabelo. E eu ri. E isso me fez lembrar apenas de você, e da gente, e foi aí que eu percebi que já é tarde demais, que eu cruzei a linha de segurança, que eu já estou do lado de lá... eu estou apaixonada, eu já me rendi. Não há formas de te tirar da minha vida sem que eu sofra ao menos um pouco; não há como te levar daqui sem desequilibrar um pouco meus passos; se você chega, se você sai, tudo isso afeta minha respiração...
Então tudo o que eu posso fazer agora é esperar.. esperar você se render, esperar você ser meu assim como eu sou sua agora, meu bem.
Então você poderia, agora, segurar minha mão e me dizer que não está sendo em vão?

sábado, outubro 20, 2012

Você chegou com um ar de quem estava só se divertindo... você me pegou de surpresa e roubou um beijo meu. E eu pensei que isso era tudo. Então você quis repetir a dose, e eu, não tão pega de surpresa assim, deixei... eu decidi que, se pela primeira vez em tanto tempo eu quis me envolver, eu faria isso. Mas sem pretensão, sem perspectivas, sem olhar muito à frente. Então 'a gente' não passava de uma coisa casual, até que, de um dia pro outro, você falou de mim pras pessoas, quis andar de mãos dadas, fez planos comigo... as pessoas olham pra mim esperando que eu diga o que é que eu estou fazendo. E a verdade é que eu não sei. E se você sabe, ainda não me contou.
Por que você está dizendo pras pessoas que eu sou mais do que algo casual, se você nunca me disse nada? Hoje eu senti algum medo, medo de estar enganada. Medo de ser pega de surpresa. Porque eu ainda não estou pronta pra nada dessas coisas que escapam do meu controle...

Sobre pertencer

E então eu voltei pra essa cidade fria e vazia, e - não sei se porque eu realmente procurei por isso, e/ou se porque eu precisava disso - eu projetei em você o meu porto-seguro. O lar, aquele que sempre está lá quando você precisa voltar. Aquele que te faz se sentir confortável, e que espera você e o seu momento. A decoração nem era do meu jeito, a fachada nem tinha a minha cara, mas era o meu lar...
Então esse mundinho sacana deu meia volta, sacudiu e te jogou pra fora do meu mundo. Foi pá-pum. Não tive tempo de pensar, de planejar, só vi você chegar sorrindo e comemorando, e tudo o que eu consegui fazer foi dar um sorriso de lábios cerrados e ficar por ali uns cinco minutos, até que eu sufoquei e procurei um canto escuro pra eu poder chorar e chorar e chorar. Por quê? Nossa, quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Eu não entendi no início, nem sei se entendo agora. Mas é que, e aí? Você vai embora e eu o quê? Vou dividir com quem minhas coisas? Vou contar pra quem aquelas surpresinhas agradáveis ou não que o dia me faz? Vou cozinhar com quem? Vou ser ouvida por quem? É, a verdade é que agora, mais do que nunca, eu me sinto só. E eu estou, mesmo, só.
Passar a pertencer tem sido um processo trabalhoso demais pra mim...

quinta-feira, outubro 18, 2012

Ninguém se importa*

Enquanto você dorme… ninguém se importa.
O dia amanhece, anoitece, bebemos, ficamos sóbrios… ninguém se importa.
Sou o muro onde o medo se apóia, sou o nada que alguém quer usar… ninguém se importa.
Sou a pedra na rua que você vai chutar,
Sou lixo que quer descartar,
Sou o que você não sabe lidar.
Sou destrato com um confidente,
Sou importante como um indigente,
Sou nada em forma de imponente.
Ninguém se importa.
Sou o que você mal vai se lembrar…
Ninguém se importa.
Especialmente você.

*Texto de Artur Caneda

domingo, setembro 16, 2012

De novo

Abriu as páginas do livro velho - presente ganhado havia anos. Estava amarelado e gasto nas bordas, mas, abertas as páginas, um cheiro particular tomava lugar nos seus sentidos. Escolheu o capítulo que mais lhe marcou. Demorou a achar, mas quando o encontrou, leu-o novamente. E chorou.
Não, o drama que as páginas traziam não era nenhuma surpresa, e ele nem vinha dentro daquela fórmula melodramática e piegas. Era muito sutil - tanto que não chorara da primeira vez; mas a sua alma sofreu com a decadência ali presente, com a ausência do futuro, com o contraste entre a lucidez miserável e o delírio deleitoso; qual seria pior? A alma sofre com essas perguntas.
Mas não foi nada disso que a fez chorar. Foi a memória - que nos prega dessas peças. Foi a memória de uma voz, de um cheiro, de um sentimento, de uns sonhos. Foi a memória de uma época.
Lembrou-se da janela de vidro que dava vista para outra janela de vidro, e as janelas comunicavam melhor que qualquer telefone.
'_Mas não acaba, não. Não acaba nunca. A gente não deixa', falou-lhe um rosto turvo e uma voz um tanto indefinida.
Queria muito e de novo a fé que tinha, àquele tempo, de que podia e iria tomar as rédeas. Sofreu porque a vida, às vezes, não deixa escolhas. E sofreu porque percebeu que, quando a gente percebe, às vezes é tarde demais. Mas parcebeu-o tarde demais.
Tentou relembrar ao máximo, tentou quase reviver umas piadas, umas histórias, umas graças, uns carinhos. E chorava, e chorava, e padecia. Tudo isso até a alma se assentar e se acalmar e respirar.
Abriu, então, novamente o capítulo e começou tudo outra vez.