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terça-feira, maio 29, 2012

If I could I'd bury your nightmares under my own pillow.

Um dia você veio me contar o seu pior pesadelo. Você que faz piada de tudo. Você que ri de qualquer coisa. Você que faz graça da própria desgraça. Você desabou ali na minha frente sem conseguir manter os olhos nos meus. Eu estava vivendo algo inusitado. Eu ouvi de você palavras como eu não ouvi de mais ninguém. E eu, que sempre pareço ter muito a dizer, fiquei muda. Eu não sabia que reação esboçar. Ou como olhar nos seus olhos. Eu não sabia se eu segurava a sua mão, se eu te abraçava, se eu chorava contigo ou se demonstrava toda a minha indignação. Mas quem sou eu pra falar de indignação diante de você? Te peço uma coisa: não menospreze o seu sofrimento. Há muita gente passando por muitos problemas talvez maiores por aí. Mas não menospreze a sua dor.
Cada vez em que você toca nesse assunto eu tenho vontade de te pedir desculpas trezentas mil vezes. Desculpas por o mundo ser sujo. Desculpas por as pessoas serem sórdidas. Desculpas por ninguém ter te protegido. Desculpas por não haver adivinhado. Desculpas por não poder sarar a sua dor.
É duro demais te ver desabando e não saber como te recompor. É ruim não poder limpar toda a memória e recompor cada pedacinho terso seu. É dolorido não poder fazer nada por você. Mas quem sou eu pra falar de dor?
Olha, tudo o que eu posso fazer é te amar. E isso, eu juro, eu tô tentando fazer da melhor forma que posso. Me desculpa, mas esse texto não saiu como eu planejei. Eu queria saber usar as palavras a meu favor, e te fazer entender o quanto eu sinto muito por só conseguir segurar a sua mão e olhar nos seus olhos e te abraçar e nada mais. Me desculpa por não ser o bastante.

segunda-feira, maio 28, 2012

[...] Isso ainda nem é um fato e eu já chorei desconsoladamente, já me inquietei, já perdi o apetite, já tive enxaquecas, já chorei de novo e já rolei na cama sem conseguir dormir. Isso ainda nem é um fato, mas há palavras, meu bem, que não têm volta quando são ditas. [...]

domingo, maio 27, 2012

Cause when i'm with everyone else I am thinking of you.

Eu vesti o meu melhor vestido - aquele que você disse que gostava-, me maquiei, mas não era você quem estava aqui pra ver. Eu passei meu melhor perfume, mas não foi você quem deitou a cabeça nos meus ombros e quis sentir meu cheiro. Eu arrumei meu cabelo, mas não foi você quem tentou flertar comigo passando os dedos entre os fios. Não foi você quem se inclinou pra me ouvir falar e ao mesmo tempo tentar sentir o meu hálito. Não foi você que me pediu sutilmente um beijo. Eu ensaiei a minha melhor música e não era você quem estava aqui pra ouvir. Não era você que estava em volta o tempo todo buscando uma forma de se aproximar. Meu telefone tocou mil vezes e não era você. Eu recebi centenas de mensagens e nenhuma delas vinha de você. Eu ouvi que eu estava linda como sempre. Ouvi que eu era ponto fora da curva, que eu era incrivelmente inteligente. Ouvi que alguém me desejava não tão em silêncio. Eu ouvi alguém me pedir por carinho. Eu senti os braços de alguém em volta do meu ombro. Mas nada disso veio de você e eu me pergunto se isso é melhor do que nada?

domingo, abril 29, 2012

Desde mi sangre hasta la esencia de mi ser...

Você me olha nos olhos e pergunta de novo 'o que foi'. Eu desvio rápido o olhar, suspiro e digo 'nada'. Você não se convence. Então eu corrijo minha postura, neutralizo minha expressão e repito 'nada, sério', tentando não transparecer meu desespero, tentando não gritar que não é nada e sim tudo. Mas eu não posso te contar. Não posso te contar que eu te amo mais do que meu corpo permite, que eu te amo mais do que meu horário deixa ser. Que eu te quero mais do que todas essas pessoas à minha volta juntas. Eu não posso te dizer que, apesar de que você não foi a razão de eu estar aqui, você definitivamente é a razão de eu não querer estar em nenhum outro lugar. Eu não te conto que todas as pessoas não passam de um bando de babacas fazendo fila pra chegar primeiro no fundo do poço da minha escala de relevância, e que eu nunca prefiro a presença de ninguém à sua nessa cidade. Eu não te conto que eu tenho me forçado a rir com os outros pra que você não pense que eu estou tão só. Ou que eu tenho evitado sorrir pra você pra que você não perceba o quanto eu te preciso.
Meu Deus, como eu te preciso...
[...]

sábado, abril 28, 2012

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? (jeremias 17.9)"

Coração

Meu estômago revira, meu corpo se recusa a reagir e minha cabeça dói. E eu só consigo me perguntar como é que o meu cérebro consegue me pregar essa peça? Ele não deveria ser racional e preservar o meu físico de toda essa destruição? Mas a dor que eu estou sentindo se espalha por todo o meu corpo. Eu me enrolo, deito de barriga pra baixo, de barriga pra cima, e espero o sono vir. Eu não consigo ficar em pé, eu não consigo estudar, eu não consigo fazer nada do que eu tenho que fazer. Eu estou com fome e até agora não comi. Mas o meu cérebro não me deixa dormir. O sono não vem. Estou prostrada mas não consigo dormir em paz. 
Eu não consigo enganar meu corpo porque ele sabe que já chegou o fim. Ele vê isso nos seus olhos. Ele sente isso na forma como você me toca.
E ele me subjuga. Eu não vou dar nenhum passo porque eu não saberia como. Se eu tentasse, eu tropeçaria no meu próprio pé. E como eu iria explicar aos outros que eu soltei sua mão porque escolhi soltar? Depois de te amar tanto e de continuar amando? Te amando e sendo amada por você de forma tão intensa e simplesmente escolhendo que não deveria ser assim?
É verdade, sim, eu te amo. Sei disso porque eu ando na rua mas eu só me importo com o olhar que você dirige a mim. Sei disso porque eu conheço um tanto de caras legais mas é só de você que eu sinto solidão. Sei disso porque cada gesto bonito seu me deixa inebriada. Porque eu passo a semana ocupada mas quando chega a sexta feira a noite meu corpo procura avidamente por você. Sei disso porque quando você me abraça eu não tenho pressa de mais nada.
Sei disso porque sei com cada célula do meu corpo.

segunda-feira, abril 16, 2012

Agenda

Eu estou enrolada em dois cobertores e isso não é suficiente porque meu corpo ainda está frio. E isso não é por causa do clima instável ou de uma frente fria inesperada ou por causa do cobertor fino. Isso tudo é porque falta calor em volta dos meus braços trêmulos e em volta das minhas mãos vacilantes sobre esse papel tosco.
Eu fecho os olhos e tento dormir mas a minha memória estúpida insiste em repetir tudo aquilo que parece estar errado e em reprimir todas as memórias que poderiam fazer bem ao meu estômago. Náuseas. Então eu espremo as órbitas tentando esconder a imagem de você sentado à minha frente enquanto eu fazia papel de idiota abrindo meu coração, parecendo uma criança mimada chorando sem motivos e eu sei que eu não sou só isso.
Eu sou mais do que alguém que quer dominar o objeto do seu amor. Eu sou mais do que uma pirralha mimada que esqueceu de amadurecer. Eu sou mais do que alguém que não sabe lidar com responsabilidades ou compromissos. Eu sou mais do que isso. Ou não. (?)
Eu sou mais. Insistentemente mais do que isso. Eu sou alguém que infelizmente ama na hora que dá na telha e que sente saudades na véspera do dia de provas e que quer andar de mãos dadas atrasada pra ir pro trabalho. Eu sou alguém que não se cansa de olhar nos olhos. Eu sou alguém que tem urgência de sentir intensamente e que se importa com demonstrações de afeto. Eu sou alguém que corre pra abraçar.
Então eu te pergunto: porque você insiste em me amar dessa forma tão lamentavelmente pouca e tediosamente sóbria, com hora pra chegar, com olhar cansado, com segundos contados e pressa de partir?
Eu preferi(ri)a te ver uma vez em muito tempo se a cada vez você viesse com pressa de me amar e com lábios urgentes, se você deixasse o mundo de lado e tivesse olhos só pra mim por meia hora. Então porque você insiste em me marcar entre um horário e outro? E porque você está sempre tão ocupado enquanto eu choro de solidão? E porque você insiste em esperar que eu adivinhe de onde é que vem essa droga de amor que você não me conta nem me mostra nem me faz sentir?
Eu não vou ser mais a criança mimada que reclama porque preparou a refeição e comeu sozinha. Ou que chora porque passou o final de semana sem receber uma ligação.
Ao invés disso eu vou tentar ser essa adulta débil e insegura que pensa que não é amada mas que passa maquiagem às 6h da manhã pra conquistar elogios fúteis e se sentir bonita, que almoça com os colegas de trabalho e que sai à noite com o que costumam chamar de amigos, que ri e se diverte, e que dorme na casa de uma garota legal só pra ocupar seu final de semana vazio e infeliz, e que chora à noite porque nada disso é verdade.
Eu vou ser essa adulta que ama se der tempo e que dá carinho quando encaixar no horário e que finge entender essa falta constante de tempo pra tudo e que se ocupa com suas próprias coisas e obrigações só pra abafar a miserabilidade do ser, tudo isso pra não te atrapalhar a viver sua vida tão ocupada e satisfatoriamente preenchida com tudo menos eu.

terça-feira, abril 03, 2012

Ela

Não é que ela não seja linda, ou que ela não mereça você. Não é que a voz dela não seja macia feito algodão-doce ou que o mundo não se curve diante daquele olhar de dia de Sol. Não é que eu tenha ciúmes dela, ou que eu deseje a vocês algum mal. 

Mas é que nós dois, na minha mente, somos tão melhores juntos.

quarta-feira, março 28, 2012

Xícara

Na minha xícara falta café e sobra amor.
Quem diria que um beijo só bastava pra tornar meu sono em vigília?

terça-feira, março 27, 2012

Enquanto isso...

Eu vejo garotas à minha volta se passando por mulheres, falando de caras bonitos. Eu as vejo compartilhando experiências, colecionando conquistas, se exibindo mutuamente, e tudo me parece um ritual do tempo das cavernas, me parece estúpido demais. Eu vejo gente à minha volta se abraçando, andando em bandos e juntando os amigos pra beber, e tudo isso soa falso, impensado, superficial demais. Eu vejo pessoas colecionando melhores amigos, trocando de amores eternos, passeando entre diversos círculos sociais, com a certeza de que são queridos e imprescindíveis, com uma confiança no peito de que é tudo pra sempre, e eu acho tão ingênuo que eu quase chego a rir sozinha.
Enquanto isso eu olho pra mim mesma e penso que sou uma criança, que eu não sei nada da vida, que já me apeguei à minha viseira, que to tão bem encaixada no meu cantinho que eu não sei se sou capaz de me deslocar.
Enquanto isso eu choro à noite antes de dormir, abafando os gemidos com o travesseiro, porque eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.

sábado, março 24, 2012

Trégua

Você pode não ter entendido, mas eu to num campo de guerra. Você pode não ter percebido, mas eu estou, agora, vestindo uma armadura. E ao contrario do que possa parecer, eu estou vestindo essa armadura me preparando pra recuar. Quando eu comecei essa guerra eu decidi jogar limpo. Você sabe melhor do que ninguém que eu não tive tempo pra me preparar, que eu vim com a roupa do corpo e com a cara lavada. Tudo isso porque eu não sei nem nunca quis jogar jogos com você. Sinceridade pode não ser meu dom, mas é um dos meus grandes esforços. Então eu pedi cessar-fogo e te contei baixinho as regras do jogo, pra gente poder lutar juntos. Mas cada dia que passa eu te vejo cada vez mais do outro lado do campo. É quase como se estivéssemos jogando de lados opostos. E não seria tão estranho não fosse o fato de haver apenas nós dois aqui. Não fosse o fato de que já passamos por todos aqueles empecilhos –ou será que fui só eu que passei por tudo aquilo, que só eu me abstive, que só eu abri mão?, e agora, na hora de abrir o champanhe e comemorar vitória, você está do outro lado e seus olhos estão perdidos, porque você não olha em volta e não enxerga o que está acontecendo. Eu vesti minha armadura, mas eu nunca soube fazer isso direito, por isso quando eu fui tentar te buscar do outro lado eu tropecei em uma pedra ou em uma dúzia delas e caí. E agora eu estou sangrando. Você me pediu pra chamar seu nome quando eu precisasse e neste momento eu o estou gritando. Mas você não consegue ouvir porque você tá longe demais. Seus olhos estão perdidos ao redor, você não vê que eu estou morrendo aqui, e que eu perdi a capacidade de lutar. Eu já fiz pose de forte, mas eu desisti de tentar ser resistente. Eu estou trincando. Meus pulmões doem e eu já não consigo nem sussurrar. Eu preciso agora de alguém que queira cuidar de mim. Eu vou esperar você me enxergar de soslaio e, quando você vier, eu vou pedir por uma trégua, porque eu não sei mais como lutar nessa guerra.

sexta-feira, março 23, 2012

Braços

Eu acho que eu nunca escrevi sobre você, não é?  Não nos últimos anos, pelo menos. Bem, eu te disse ontem, no telefone e com lágrimas nos olhos que a saudade é uma coisa boa. E por mais que agora seja difícil acreditar nas minhas próprias palavras, eu vou me apegar ao significado delas, assim como ao significado das lágrimas que meu corpo está expulsando agora.
Estando longe a gente percebe que não tá pronto pra nada, que tudo deixa a gente frágil demais, trincado, sensível, a ponto de quebrar. Meu choro agora é de desespero, porque você tá longe demais, e às vezes me dá uma angústia e um medo descomunal de não dar tempo de eu te ver nunca mais se algo acontecer a mim ou a você. Mas voltando às minhas primeiras palavras: a saudade é uma coisa boa, porque ela me certifica da validade e da profundeza de tudo o que eu sinto por você, e de tudo o que eu já passei e não consigo imaginar nada disso sem você. Eu sei como dói em você me apoiar e segurar a minha mão e depois se despedir de mim só porque eu quero viver o meu sonho. Eu sei que eu sou a caçula e mesmo assim eu fui a primeira a partir, e você não se opôs, ao contrário disso me deu os dois braços pra eu me apoiar. E se você pudesse, os daria de novo agora pra eu chorar neles. E com esses mesmos braços você me abraçaria no dia seguinte quando eu decidisse que era hora de ir embora e voltar pro caminho que eu escolhi seguir.
Eu me lembro de eu chorar e de você chorar comigo só de ver a minha dor. Eu me lembro de eu reclamar de algumas coisas, mas agora eu me sinto tão estúpida, porque eu só consigo me lembrar de você ser a melhor pessoa do mundo.
Às vezes eu me esqueço um pouco do quanto eu queria ser como você. Ou de como eu queria conseguir ser parecida com você, porque você é o meu melhor ponto de referência nessa vida.
"O fardo pesado que levas deságua na força que tens". Eu ouço essa estrofe dessa música e seu rosto se concretiza na minha mente, porque você é a sensibilidade mais forte que eu já vi nessa vida. Você, aos desvios de curso aos quais essa vida nos submete, sempre responde com uma suavidade, com uma segurança, com uma sabedoria. "Me mostre um caminho agora, um jeito de estar sem você. O apego não quer ir embora. Caramba, ele tem que querer".
Eu preciso de muitas coisas nessa vida, e eu preciso buscá-las. Mas eu nunca vou deixar de precisar de você. Eu sei que se eu estivesse aí agora, ou se você estivesse aqui comigo, eu provavelmente não estaria mais chorando, e você provavelmente já teria feito eu me sentir melhor com quaisquer duas palavras.
Eu fui carregada até agora no colo, com muito cuidado e dedicação por essas "tuas mãos de fazer tudo". A sua comida, ou as vezes em que você me chamava pra me contar alguma de que eu ainda não sabia, ou quando você me perguntava algo de Biologia, ou as coisas das quais você achava graça, ou as vezes em que eu te pedia algo e você se mostrava disposta a fazer, e eu nem achava que merecia. A tua capacidade infinita de perdoar e de deixar de lado todas as vezes em que eu fui ingrata, a tua forma de ser boa como você é. Tudo o que você me ensinou. Eu sinto falta de tudo. Eu sinto falta porque eu amei e continuo amando, e é por isso que eu digo que saudade é bom. E eu nunca vou deixar de amar e de precisar de você porque você me mostrou a maior forma de amor que eu conheço nessa terra. E no dia em que eu aprender a lidar, que eu aprender a te amar de longe sem doer tanto assim, sem chorar quando falo de você, nesse dia eu vou ficar feliz por conseguir lembrar de você e sorrir em paz.
Sinceramente, te amo.
"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o nosso amor, nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você"

segunda-feira, março 19, 2012

Coisas de que eu preciso para ser feliz

Uma vez uma amiga me convidou pra um pequeno jantar em sua casa pra alguns amigos e alguns amigos de amigos. Pouca gente, uma conversa agradável, despretensiosa, aquele social de sempre. Tirando por uma coisa que estava me incomodando mais do que eu poderia admitir: entre os amigos e colegas de minha amiga, estava uma linda moça, vestida com muito bom gosto, uma maquiagem impecável e sentada em uma cadeira de rodas. Não pude deixar de reparar, de prestar atenção e de encarar e, por mais que eu tentasse disfarçar, eu não conseguia. Por fim fui ficando sem graça e com medo de a estar constrangendo. Mas o que houve é que nem de longe eu estava impressionada por ela ter uma limitação física –resultado de um acidente no auge da juventude. O mais incrível é que ela sequer parecia se dar conta. Ela sorria como se ninguém lhe tivesse contado que ela iria ficar presa ali pra sempre.
Eu já vi filmes e reportagens e páginas de revistas com histórias de superação, mas quando isso não faz parte do seu dia-a-dia é difícil de entender tamanha resignação ou aceitação das próprias limitações, é difícil de entender porque eu me conheço bem e eu sei o quanto eu apedrejaria céus e terra e culparia a todos se passasse por algo parecido. Eu sei o quanto isso seria devastador pra mim. E é bonito ver os outros enxergando além disso, mas a gente nunca é sábio a ponto de aprender a lição dos outros.
Pois bem, tomei coragem de travar uma conversa com ela. Alice, ela se apresentou. No início foi uma conversa comum e, com suavidade, eu toquei no assunto e ela me contou como foi a experiência: um acidente de carro. Nada de colegagem bêbada no volante. Nada de viagens na madrugada. Ela estava com a família, o pai no volante, e um acidente aparentemente bobo levou embora a capacidade dela de andar. Terminando o curso de Economia, namorando e com mil planos de intercâmbio no exterior e pós-graduação e mestrado e casamento, ela passou a depender de muito auxílio dos pais e amigos e namorado, e viu todos esses planos serem adiados indefinidamente para algum ponto no futuro onde ela pudesse caminhar com as próprias pernas - figurativamente falando (Perdão pelo trocadilho).
É claro que isso não me bastou: eu quis saber mais. Perguntei como diabos ela fazia pra ser a pessoa mais bem humorada e aparentemente satisfeita em volta daquela mesa; como ela fazia pra ser feliz daquela forma tão suave e natural e invejável; perguntei se as coisas eram como pareciam ou se aquilo era só uma forma de se desviar do sofrimento real pelo qual ela estava passando; perguntei se ela era feliz – sim, eu abusei de uma liberdade que ela não me deu. Mas ela simplesmente sorriu. Ah, felicidade é um conceito muito flexível, ela respondeu. Felicidade pra cada um significa uma coisa. Uma casa boa, um currículo invejável, uma carreira estável ou uma vida de aventuras. Cada um impõe condições pra própria felicidade. Eu parei de impor condições pra minha. Me ative ao essencial. Esse acidente me trouxe muito mais coisas boas do que ruins.
É lógico que eu discordei mentalmente e não me senti satisfeita e perguntei ‘Como assim coisas boas?’
Eu ouvi silenciosamente o relato que se segue:
‘Na época do acidente eu estava em um processo de negação de muitas coisas das quais eu sempre tive muita certeza. Eu não acreditava mais em quase nada, duvidava de tudo: que eu seria uma boa profissional, que o meu namorado me amava, ou que meus pais eram capazes de me ouvir. A essas alturas eu já duvidava de Deus e de metade das minhas amizades, que já eram poucas. E essas pequenas perguntas já estava esgotando todo o meu fôlego. Eu já não sabia por que fazia umas coisas ou por que queria outras. Como resultado de tantas dúvidas vinha uma série de inseguranças, e eu não tinha mesmo onde buscar resposta nenhuma. Incrivelmente, tudo o que se seguiu depois do acidente foi respondendo minhas perguntas uma por uma.
Eu me lembro de muito pouco do acidente – acho que travei grande parte dessa memória – mas eu me lembro muito bem de acordar e ver meu namorado debruçado na beira da maca. Eu achei que ele estava dormindo, mas quando o chamei ele se levantou surpreso, com os olhos vermelhos e cheios d’água, disse que me amava, e saiu correndo pra chamar outras pessoas. Surgiram meus pais e duas amigas minhas, daquelas que eu já não via há alguns meses por causa da correria do dia-a-dia. Então todos começaram a comemorar euforicamente e eu não estava entendendo nada até o momento em que alguém se deu ao trabalho de me explicar que eu estive em coma por duas semanas e meia. Duas semanas e meia, e eles, todos eles, ficaram ali de vigília. Faltaram aula e trabalho e até ali – o que eu considero tempo o suficiente - não tinham se cansado de esperar por algum sinal de consciência da minha parte. Com o meu despertar seguiu-se uma série de exames e, muito rápido, veio o diagnóstico definitivo de que eu não poderia andar nunca mais – a não ser, claro, por um milagre. O que veio depois disso foi duas semanas de depressão intensa e choro – literalmente – incansável. Eu só não chorava quando estava dormindo, e eu só dormia quando estava sedada. E eu tinha pesadelos e tudo ficava pior. É incrível – ou nem tanto - que, ao constatar e aceitar a irreversibilidade da situação, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a pena: imagina só, todo mundo com pena de mim, fazendo as coisas pra mim por obrigação, eu me tornando um peso, uma pedra no caminho das pessoas que se sentiam, agora, obrigadas a me amar. E eu, sinceramente, não sei o que teria sido de mim se minha mãe e meu pai não tivessem estado ali do meu lado, não só me auxiliando no óbvio, mas me dando apoio sentimental e psicológico. Às vezes eu acordava no meio da noite chorando e eu conseguia ver o desespero nos olhos da minha mãe porque ela não podia fazer simplesmente nada. E eu queria morrer só de ter que vê-la passar por isso. E ela ficou ali o tempo todo tão intensamente, sofrendo cada sentimento que eu sentia, porque tudo o que me passava pela cabeça eu falava, e ela não sucumbiu em momento algum. E meu pai, que sempre foi silencioso, compartilhou comigo mais naqueles meses do que em toda a nossa vida. E eu me desconsertava de uma forma irreparável quando eu via – e, infelizmente, ainda vejo – culpa nos olhos dele, e na sua postura, e na forma como ele se dirigia a mim, com os ombros pedindo desculpas por algo que ele sequer poderia evitar. E eu só descobri bem depois quantos cheques especiais e empréstimos ele fez só pra me dar o máximo de conforto dentro daquela situação, mesmo sabendo que era irreversível. Tudo isso pra eu me sentir o mínimo melhor. Ele fez, definitivamente, tudo o que ele podia.
Aos primeiros sinais de melhora, eu chamei meu namorado no quarto de hospital e tive uma conversa um tanto definitiva com ele: terminei o nosso namoro, inventei mil motivos – e fui bastante convincente -, mas tudo o que eu queria era desobrigá-lo daquela situação. E eu juro que o que eu mais queria era tê-lo ali, pois nunca havia sentido tanta necessidade dele de todas as formas possíveis. E ele jurava que me amava, que queria se casar comigo e que não tinha desistido dos nossos planos, e eu enxerguei o desconserto dele diante daquela situação que era tão nova pra ele quanto era pra mim. E, de certa forma, igualmente desafiadora e desestabilizadora. E percebi o quanto ele estava agindo de forma impensada, tentando provar algo pra si mesmo. Mandei-o de volta pra casa insistentemente e ele foi, contrariado. Depois de voltar pra casa, depois de meses de fisioterapia, de adaptação, e de todo aquele processo de ressocialização e reestruturação de hábitos, ele bateu na minha porta, com toda a calma do mundo, com uma serenidade e uma segurança imensa no peito. A gente conversou sobre nada e, do nada, ele disse que me amava e me pediu em namoro. Eu conversei com ele, expliquei minhas limitações, a dimensão do meu problema, falei tudo o que era necessário e o que não era também. E ele respirou calmamente e respondeu: eu já sei de tudo isso, quer namorar comigo? Então eu tive certeza, naquele momento, de que ele me amava. Bem, que eu o amava, eu já tinha chegado há essa conclusão fazia tempo. Respondi que sim, é claro, e hoje a gente namora já faz dois anos depois do acidente e, com muita calma, o nosso cantinho, o casamento, tudo está sendo preparado. E ele sempre lidou com tudo de uma forma que só fez me ensinar.
Os meus amigos, bem, é intenso demais pra descrever porque eu teria que exemplificar em tantos tópicos, só pra você ter uma noção, que você provavelmente pensaria que eu estou me gabando. Mas uma coisa eu posso te dizer, e isso resume com simplicidade o que eu estou sentindo: eu fiz poucos amigos ao longo da vida, mas, sinceramente, eu não consigo enxergar de que forma eu poderia ter escolhido melhor.
Ah, não pouco importante, eu ressalto que, ao voltar para a faculdade, dois semestres depois, qual não foi minha surpresa ao descobrir que tinha um empregador literalmente esperando por mim, porque ele viu o meu currículo e conversou com os professores sobre meu desempenho e decidiu que eu seria a escolhida para uma possível contratação, e esperou três meses e meio até eu voltar às minhas atividades curriculares pra me convidar pra estagiar em sua empresa, com contratação posterior.
Eu posso colocar ‘andar’ como primeiro tópico da minha lista de ‘coisas que eu preciso para ser feliz’, mas isso não é o mesmo que assinar atestado de infelicidade? Eu não vou optar pela miserabilidade da amargura se me restam outras opções. Ninguém fica numa cadeira de rodas porque escolheu assim, mas a vida às vezes – quase sempre - força as escolhas por nós, não é? Ela tá lá, sempre empurrando a gente pra diversas situações indesejáveis. Eu consegui fazer isso com ‘andar’, e vi que era capaz de fazer isso com muito mais coisas muito mais tolas e incalculavelmente menos necessárias. Você tem tudo o que você quer? A sua resposta provavelmente é não e por isso eu te digo: vai ficar esperando por essas coisas pra ser feliz com quem você ama? Ou pra curtir o show da banda que você gosta? Ou pra dormir uma boa noite de sono? Ou pra viajar num final de semana e tirar tempo pra ler um bom livro? Ou pra fazer todas aquelas coisas que te dão algum prazer, mesmo que pareçam insignificantes? Bem, eu não estou esperando por nada pra fazer tudo isso que eu amo fazer.
E por último, nem por isso desimportante, eu te digo que, depois disso tudo, depois de passar por tudo o que eu passei e de chegar onde estou, é natural e assertivamente que eu te digo, com convicção e fé – que são intransferíveis – que Deus existe, sim.
Pronto, todas as perguntas que me incomodavam foram respondidas. Agora, se eu tivesse continuado a minha vida da forma como eu estava, bem... Ninguém nunca vai saber, não é?’
Será que todo mundo não deveria passar por uma situação assim pra reaprender a olhar a vida, ou às coisas à sua volta? Eu não sei os outros, mas eu, muito provavelmente, sim. Porque eu vou continuar pensando que lidar com tudo isso de uma forma tão singela ultrapassa o conceito de ‘dom’.

"Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu; porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou pra quem chorou, pra quem sofreu; (...)
Não há mal pior do que a descrença, mesmo um amor que não compensa é melhor que a solidão;
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair, pra quê somar se a gente pode dividir? (...)"
Como Dizia o Poeta - Vinícius de Moraes e Toquinho

Sobre Razões


Você me pediu pra te amar não pelo que você faz ou pelo que você tem ou mesmo pelo que você acredita. Você me pediu pra te amar pelo que você é. E eu me pergunto: qual a diferença? Eu não te amo pelo que você faz ou tem ou acredita. Eu te amo por tudo isso junto, pois tudo isso é o que você é. E se você mudasse ou fosse diferente você não seria você da forma como eu te conheço e isso poderia mudar tudo. Eu não posso te jurar que eu vou te amar pra sempre independentemente do que você faça ou tenha ou acredite, pois tudo isso diz um pouco sobre você. E porque eu estou dizendo toda essa baboseira que parece não fazer sentido nenhum? Porque você me pediu por um motivo pelo qual eu te amo, e eu te amo por muito mais do que aquilo que você acredita ou tem ou faz, eu te amo pelas razões que te levam a acreditar ou ter ou fazer ou ser cada uma dessas coisas que você é, e incrivelmente da forma como você o é.
Eu não te amo simplesmente porque você é bom. Sua bondade vai além de um instinto natural ou de ações impensadas ou de gestos automáticos ou de uma ingenuidade incauta. Você é bom porque escolheu ser. Mesmo conhecendo toda a maldade que pode haver por aí, mesmo conhecendo gente com a alma tão pútrida e rochosa, você decidiu ser bom e faz isso com esforço, cautela e determinação.
Eu não te amo porque você nasceu com alguma inteligência sobrenatural ou algo do tipo. Ao contrário disso, você se esforça e busca o conhecimento e maravilhosamente se apraz nele, e se interessa por cada novo assunto que lhe é apresentado. Porque você é culto, informado e se esforça constantemente para ser cada vez mais eficiente.
Eu não te amo apenas porque você é sincero. Mais do que isso eu admiro o seu esforço contínuo pra ser honesto consigo mesmo e pra reproduzir com fidelidade aquilo que você pensa e sente, independentemente de como você julga seus pensamentos e sentimentos e, principalmente, independentemente de como você acha que eu ou qualquer outra pessoa vá julgar. Eu te amo porque você transpõe, ainda que com dificuldade, as barreiras necessárias para ser franco dessa forma tão cuidadosa e não imposta. Eu te amo porque eu vejo o quanto é doloroso pra você falar comigo e se abrir pra mim, e porque eu sei que você se empenha, tudo isso tentando construir um laço cada vez mais forte e se esmerando em fazer com que participemos cada vez mais um do outro.
Eu te amo porque você não é nada apenas por ser, ou não tem nada apenas por ter, ou não faz nada simplesmente por fazer. Eu te admiro infinitamente porque você não permite que suas convicções e seus ideais se cristalizem e se tornem mero hábito ou conceitos ou rótulos de si mesmo, e porque você não os defende com olhos cegos e ouvidos tapados, mas reavalia diariamente as razões pelas quais você vive. E, porque eu sei que você reavalia, é bom acordar todo dia e perceber que você continua tendo certeza de nós dois.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Eu sou mais eu

Essas quatro palavrinhas tão utilizadas por tantas pessoas que não sabem a dimensão do que elas podem querer dizer.
Eu sou mais eu e isto me impede diariamente de me entregar de qualquer forma que seja. Seja numa conversa legal num barzinho qualquer com algum (des)conhecido -que sempre parece pouco interessante-, seja num relacionamento com promessas de eternidade -que nunca dura esse tanto porque sempre tem algo no outro que não me satisfaz. Eu sou mais eu e isso me impede de evoluir no trabalho, porque sempre acho que estou à frente, que o meu trabalho é melhor e que as minhas ideias são mais viáveis que as dos outros. Eu sou mais eu e às vezes nem permito que as pessoas conheçam o meu modo de ver o mundo porque a maioria deles sequer seria capaz de compreendê-lo. Eu sou mais eu e por isso não posso aceitar que nenhum ser humano me obrigue a me anular em circunstância alguma, mesmo que eu ame esse alguém. Eu sou mais eu constantemente, o tempo todo, a cada segundo. Como uma bomba-relógio, sem descanso. A qualquer momento de entrega a qualquer sensação, sentimento ou pessoa, eu me dou conta de que ninguém merece esse risco e então volto ao meu centro e decido caminhar por conta própria. Eu sou mais eu e por isso não consigo baixar a guarda, ceder, dar o braço a torcer, porque simplesmente é demais pra esse EU tão grande que ocupa tanto espaço e que me sufoca mas que concomitantemente rejeita qualquer traço de anulação. Eu sou tão mais o meu jeito de viver que isso me impede de compreender quando as pessoas preferem um jeito alternativo. Eu sou tão mais os meus gostos e as minhas preferências que rejeito tudo o que é novo, diferente, inovador.
Eu sou mais eu e isso me faz só. Ninguém mais cabe nesse egocentrismo todo, não há espaço para outros pontos de vista, outros planos de vida, outros personagens. Alguém que venha mudar meu centro de lugar, que venha me apontar novos horizontes, ou que me faça abrir mão de qualquer convicção. Eu sou mais eu, por isso mesmo não sou mais outro alguém. Muito menos sei ser dois.
E tudo o que eu queria nessa vida é ser menos eu. Ser menos eu e ser mais você. Ser menos eu e mais qualquer outra coisa nessa vida. Qualquer plano maior, qualquer sonho coletivo. Qualquer vida em par.
Eu-sou-mais-eu e este é o meu maior defeito.

domingo, fevereiro 19, 2012

"O primeiro passo dado na direção certa abre precedente pros demais, que se tornam mera consequência. Toma impulso. O que faz a diferença é não hesitar."

Trecho do texto Pequenas Coisas do blog Live in Skin, de Nicolle Albiero

Toda Paz Que Houver no Caminho

Cada segundo em que eu sofri por você, cada um deles. Cada minuto em que eu observei seus gestos de longe. Cada momento em que eu pensei em nós dois. Cada um dos dias que eu passei esperando seu amor. Nenhum deles se compara ao que eu estou sentindo agora. Aquela dor toda me consumia por inteiro, revirava meu estômago, devorava meu fígado, exauria meus pulmões. Mas, ironicamente, isso me mantinha viva. Era como um tapa na cara dessa vida ingrata dizendo 'ei, você tá viva, enche esse pulmão de ar e continue andando, ainda que com o rosto arrastando no chão'. E funcionava, como se o seu amor me cortasse em pedaços e como se eu deixasse de existir por dentro só pra abrigar essa dor excruciante e latente e irritantemente perseverante. E isso me mantinha acesa, eu tinha algo por que viver, eu tinha alguém em quem pensar à noite, eu tinha um motivo pra acordar de manhã. E na falta de um par de ouvidos pacientes pra tamanha intensidade, pra tamanha profusão de sentimentos, minhas mãos afoitas usavam qualquer pedaço de papel como válvula de escape.
Depois de tudo o que a gente passou juntos e separados, depois desse tudo que agora já nem parece tanto, depois de dois cadernos e meio gastos com seu nome, com a descrição dos seus olhos, com nosso passado, com nosso presente e, principalmente, com nosso futuro, meu coração finalmente voltou a bater em um ritmo normal, meu cérebro finalmente encontrou um horário adequado pra repousar, meus órgãos voltaram a exercer suas funções vitais que é viverem em função do meu bem estar físico e mental e eu finalmente encontrei um cantinho nessa vida em que eu pudesse me acomodar. Eu finalmente encontrei um ponto na estrada que eu pudesse chamar de lar.
E agora tudo parece tão calmo e milimetricamente encaixado que eu poderia dizer que cheguei no fim, na morte. Não há nada que eu tenho que fazer que não possa esperar até amanhã ou até semana que vem ou que não possa ser feito por outro alguém. Não há ninguém esperando minha ligação e não há ninguém pra quem eu queira ligar às 1h07 da manhã. Não há ninguém por quem eu possa derramar uma lágrima, de alegria ou de tristeza. Não há nada que me faça querer escrever palavras de amor ou de ódio.
É assim essa paz, essa calma. É vazia assim?
Chego a duas possíveis conclusões: eu preciso me apaixonar de novo ou eu preciso reaprender a escrever quando em paz.
Porque pra me sentir viva de novo, intensa de novo, e cheia de novo, e inteira de novo, mesmo que de cheia e inteira e intensa só me reste a dor, pra ser parte de algo ou alguém, mesmo que as custas de mim mesma, eu deixo pra trás toda paz que houver no caminho.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Descabido

Você percebe que as coisas estão fora do lugar quando você esquece que nome dar pra tudo o que você já viveu, quando você não se lembra mais de como se sentia. E, quando você se dá conta de que já é tarde demais, de que já passou pra todo mundo e você é o único preso naquela realidade puída, o único que não se apegou a mais nada, é aí que você começa a mendigar umas razões pra viver. Você passa uma semana sem se lembrar e, quando se lembra, sente culpa, e culpa insana já que você é o único que segue cultivando aquele apego bobo, infantil e ultrapassado. É aí que você começar em vão a tentar se lembrar do que te faz feliz. E então você percebe que, de alguma forma inexplicável, essas coisas que te fazem feliz já nem existem mais. E que você não consegue, nem emagrecendo vinte quilos ou se cortando em mil pedaços, se encaixar no óbvio. E que você não é capaz há muito tempo de ser feliz ou sequer de caber no espaço milimetricamente pouco e ingrato que o universo é capaz de te oferecer.

Amorescendo

Tudo na gente era fabulosa e alegoricamente bom até o dia em que você tropeçou nas suas promessas e fez aquilo que eu mais poderia odiar. Você atropelou nosso sonho de perfeição e capotou todos os nossos planos, fez tudo virar uma ilusão confusa. No espelho atrás de você eu pude assistir o pavor cisalhando meu rosto, fazendo-o parecer amargo, enquanto você procurava palavras pra explicar os motivos de você não poder me amar da forma que eu sempre pedi. Você misturava uns pedidos desajeitados de desculpas com justificativas bem elaboradas e eu não sabia mais se você queria o perdão ou um jeito suave de jogar tudo pela janela. Eu não me aguentei muito tempo naquela intensidade toda e saí correndo, esquecendo de pegar meu casaco, de terminar a conversa e de dizer adeus ou volto logo.
Eu cheguei na minha casa ainda me esquecendo de toda a força que eu prometi ter quando as coisas saíssem do jeito errado, quando a vida forçasse as escolhas por mim. E foi assim que eu dormi, chorando pela inevitabilidade de ser eu mesma naquele momento vivendo aquele desvio de curso. De amar como eu amava e de necessitar especificamente e intensamente da forma como eu precisava, não bastando pra mim outra forma qualquer de amor. E eu chorei e me escondi um dia. E outro. E mais outro até se alterarem os padrões de cores no pedaço de céu que eu via da janela do meu quarto, e até mudar a temperatura da noite e até que eu mudasse.
Ao longo de alguns dias ou algumas semanas ou alguns anos eu percebi que a vida brinca com aquilo que chamamos de destino e troca as nossas opções de lugar, mas não nos impede de seguirmos o alvo que escolhemos, só nos obriga a andar por um trajeto diferente. Eu precisava de que o meu amor fosse como eu queria. Mas no meio dessa espera do dia em que eu iria mudar a forma como eu via o nosso amor eu descobri algo de que precisava muito mais do que estar certa: eu precisava de você, com toda a sua insegurança, seus desvios e oscilações. Eu precisava de você por tempo indeterminado, pois era a minha única chance de te ter pra sempre.
Eu aprendi de uma forma desgostosa que eu amava você de verdade, e pela primeira vez eu me senti pronta pro nosso amor porque agora sim eu estava pronta pra amar seus defeitos, e eu não estou falando do seu mau gosto pra filmes ou do seu corte de cabelo inadequado, estou falando dos seus desvios morais e das suas falhas de caráter que eu entendi que todo mundo tem um pouco. Estou falando daquilo que você sempre vai fazer ou dizer mesmo que eu sempre reclame e mesmo que você me ame demais, porque você é você muito antes de ser meu.
Eu não fui atrás de você enquanto as lágrimas ainda escorriam só de ver sua foto, mas sim quando meus olhos já tinham amadurecido e aprendido a lidar com o fato de eu te amar mais do que meu orgulho. De quando meu coração aprendeu a pesar os prós e contras dessa exposição toda que é o amor. E se amor rima com dor e não rima com felicidade não deve ser coincidência. Porque rimar amor com dor é fácil, mas rimar amor com felicidade requer muito peito pra enfrentar o caos deste universo transposto, deslocado e aparentemente injusto e muita maturidade pra se permitir arriscar numa incerteza tão profusa e assertivamente insana.
Eu não sei se eu sou madura pra aguentar, mas eu amo o suficiente pra apostar todas as minhas fichas e pagar com a minha alma no final se eu tiver as cartas erradas.
Eu te amo, meu bem, e eu quero pagar pra ver. E é por isso que é bom olhar nos seus olhos agora e enxergar não a surpresa de quem não sabia que eu viria depois de tantas estações, mas sim o esgotamento da espera de quem creu que eu era inteligente demais pra entender tudo e voltar rápido.
Eu demorei mas cheguei, meu bem. E agora eu tô pronta pra gente se amar da forma que der, do seu jeito fundido com o meu, com sorriso satisfeito, torto, orgástico, surpreso, feliz, alegre, amarelo, desgastado e, principalmente, com um sorriso enrugado de quando chegarmos juntos ao final de nossas vidas.

Book Me

A coisa mais sexy em você não é o jeito que você penteia o seu cabelo ou deixa de pentear, e sim esses óculos que não saem do seu rosto, que te tornam sempre pronto para uma nova leitura. O lugar mais sensual do seu apartamento não é a sua cama com lençóis de seda egípcia ou com travesseiros de penas de ganso, mas sim aquela prateleira amontoada de livros sobre uma escrivaninha que já está abarrotada de papeis, de livros gastos, com cheiro de poeira, orelhas e páginas amarelas, porque você não tem dó de usá-los e de tirar o máximo deles. A coisa mais atraente em você não é a forma como você se veste e nem o fato de você ir ou não à academia, e sim a sua inteligência que parece querer transbordar. O seu vocabulário desafiador e os seus assuntos intermináveis. A sua capacidade de falar de tudo e de convencer todo e qualquer ser humano do que você quiser, sem sequer ousar se impor. A coisa mais fascinante no nosso amor é você se importar tanto com a minha forma de pensar, a ponto de se esquecer de que eu tenho celulites ou de que eu passei duas semanas do dia de retocar a tintura do cabelo. A coisa mais sedutora da sua boca não é o sorriso, e sim a agilidade com que ela se move pra falar de qualquer coisa, e a forma como tudo nela vira poesia. O melhor gosto da sua boca não é de pasta de dente, de bala halls, tampouco de um whisky. O melhor gosto da sua boca é do beijo que você me dá ainda com gosto do café que você bebeu pra aguentar terminar aquele capítulo fascinante daquele livro que você tá lendo pela quarta vez porque te faz lembrar de nós dois por motivos que você repete pra mim quando vem pra cama, e este é o melhor começo de todo o resto. O lugar onde eu mais gosto de ir com você não é aquele restaurante chique no centro da cidade que precisa de reserva com um mês de antecedência, e sim cada lugar que você me revela, me ensina, me descreve, me permite viver. Cada lugar de cada capítulo de cada livro, todos saindo da sua boca, enquanto eu te interrompo com beijos sedentos. A minha melhor roupa não é aquele vestido caríssimo de marca que você me deu no nosso primeiro aniversário de namoro, mas sim aquela camisa desbotada que já tem o cheiro do seu perfume, dos seus livros e da sua esperteza. A coisa mais sensual em mim não são meus olhos com uma cor incomum, tampouco é um formato curvilíneo tipicamente brasílio.
A coisa mais sensual em mim é, de longe, o fato de você me desejar.