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domingo, janeiro 27, 2013

Leve

A leveza dentro das relações muitas vezes está erroneamente associada com a complacência diante das atitudes alheias sem qualquer posicionamento/questionamento. A falta de honestidade - não em um sentido pejorativo, mas sim num contexto da mentira social, do que é socialmente aceito e agradável - é um grande problema. A omissão excessiva como consequência da tentativa de nos preservar ou de não sermos mal-interpretados coloca-nos em situações em que não somos sinceros uns com os outros, tampouco com nós mesmos, em relação ao que sentimos/pensamos. E tudo o que nos permitimos dizer ou sentir é aquilo que é tragável ao ponto de vista da racionalidade.
A consequência disso? Aquelas pessoas que se preocupam em analisar-se o tempo todo, em cada atitude - mesmo que sem sucesso -, que buscam ser coerentes, passam por um padecimento mental que é ter que equilibrar-se entre cultivar a franqueza consigo e com o outro, enquanto se preserva dentro da esfera do socialmente aceitável - para não agredir o outro com uma honestidade com a qual a maioria das pessoas não sabe lidar.
Quando não há um real conhecimento mútuo, fazer-se claro é um desafio. E, até que esse conhecimento seja alcançado, a cada vez que decide-se dizer o que se pensa, faz-se necessária toda uma contextualização e explicação detalhada, com o máximo de clareza possível, porque qualquer interpretação mal-feita pode custar caro.
Além disso, o padrão comportamental alheio te faz ter que provar, a cada atitude ou palavra dita, que suas motivações não são as comuns e que são, de fato, embasadas, pra que você não seja interpretado de forma errônea. Quanto desgaste mental.
Volto ao cerne: na tentativa pretendida como sensata de se colocar em prática a não-cobrança, baseada na crença de que tudo o que te oferecem dentro das relações - sejam elas familiares, amorosas ou amistosas, principalmente - devem partir da vontade genuína do outro, nos calamos diante de diversas situações, nos colocamos em posição de fragilidade, ao estender o nosso leque de atitudes que consideramos aceitáveis. Neste momento, qualquer protesto que possa ser levantado soa como uma cobrança descabida, já que cada um oferece o que quer.
Na tentativa de ser leve com os outros, tem-se em troca uma maior densidade consigo mesmo, uma preocupação exacerbada em ser coerente - nada que não seja racionalmente embasado não deve ser dito -, uma infinidade de protestos engolidos em seco e, mais uma vez, em um lamentável efeito rebote, relações que não ultrapassam a superficialidade.

Gosto

O gosto do teu beijo começa doce, mas termina sempre, enfim, em um gosto amargo.
Então o que é que tanto me faz retornar?
Como é que enxergando tudo o que está gritantemente errado, do início ao fim, da cabeça aos pés, eu volto ao mesmo lugar, e pago pra ver?
Nota mental: quando se faz o que quer, há sempre um preço a se pagar.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Pilates

"Gosto de acreditar que não foi fácil. Que você quase mandou o táxi voltar, que você quase me ligou, que você quase escreveu. Que a noite você sente minha falta, que sem mim a cama parece maior, que você precisou limpar seu mp3 porque músicas demais te faziam pensar em nós dois. Que as vezes um amigo seu menciona o meu nome e você bebe sua cerveja mais rápido, que tem alguma coisa minha que você levou embora da casa e eu ainda não percebi e que em algumas noites, quando você se sente muito sozinha, você tira de dentro de um lugar escondido no seu armário enquanto imagina se a gente não merecia mais tempo junto.

Gosto de imaginar que você ainda vai ser feliz, mas nem tanto. Que ao menos você ainda lembra, que ao menos você ainda pensa, que ao menos um pouquinho disso ficou, mesmo depois de você ter ido embora."

Trecho do texto Pilates, de João Baldi Jr.

segunda-feira, janeiro 07, 2013


O tempo tem o dom de banalizar acontecimentos notáveis e de desvalorizar sentimentos grandiosos.

As Últimas Flores...

Sentou-se no sofá meio zonzo, meio fraco, meio perdido. "Em estado terminal", o filho dela disse no telefone. Vinte e um anos depois da última vez que a tinha visto, não sabia o que esperar ao encontrá-la.
"Ela está em estado terminal. O médico sugeriu que ela se despedisse dos amigos e da família. Amanhã mesmo a levaremos pra casa... (Silêncio) Desculpe o incômodo... é que você continuou sendo a referência dela de família, de marido. Desculpe se estou sendo inadequado ou algo..."
"Não, de forma alguma. Fez muito bem em ligar!"
"Bem, se quiser, pode visitá-la amanhã de manhã..."
"Não. Irei hoje mesmo... pode me passar o nome do hospital, número do quarto, por favor?" [...]
Se arrependeu de ter prometido ir ainda hoje. Não sabia o que fazer, como se comportar. Não é como se pedir desculpas a essa altura fosse ser de alguma serventia. Sentia vergonha.
Imaginava o quanto ela deveria ter sofrido depois que ele a deixou. Com o filho recém-nascido, desempregada, morando num casebre alugado. Como, depois de tudo, ele poderia continuar sendo a sua referência de família?
Não se arrependia. Não. Faria tudo de novo. Era uma questão de sobrevivência, e aquilo, pra ele, não era vida. Nunca foi. Era pior do que morrer. Era como estar morrendo a todo o tempo, incessantemente, mas sem o alívio, sem o vazio, sem a anestesia. Foi-se embora porque não poderia lidar com outros dois seres humanos retirando dele o resto de suas energias, tempo, saúde e dinheiro. Dois seres frágeis dependendo dele. Era um peso muito grande, e partir, sem sombra de dúvidas, seria o melhor pra todos. Enfim, não se arrependia.
Mas sentia vergonha. Não saberia como olhar nos olhos dela. Nem nos olhos do filho dela. Não deles: dela, apenas. Ele não tinha participação nenhuma no fato de o bebê ter se tornado um homem. E um homem forte, aparentemente.
Não saberia o que dizer. Ele não lamentava por ter partido. Mas sentia muito pelas consequências daquilo pros dois.
Até então era fácil lidar com isso. Quase nem pensava no seu passado, já tão longínquo. Mas agora ele estava sendo obrigado a vê-la prostrada, moribunda, ainda mais frágil do que quando a deixou. Não conseguiria não se ver como único responsável por tal estado, se ele saiu e a deixou de um jeito e, agora, ao voltar, a encontraria ainda mais decadente. Ele não a acompanhou ao longo de sua trajetória, não seguiu as evoluções, e temia que as imagens pontuais dos dois extremos da vida, colocadas lado a lado, pudessem atormentar sua consciência, colocando-o como o culpado. E ele não era. Não poderia ser...
Tomou fôlego e, junto, alguma coragem. Levantou-se, enfim, pegou as chaves e caminhou até o carro.
Trancou-se dentro do seu Audi A8 e, ao tentar dar a ignição, viu-se, de novo, paralisado. Precisava saber o que dizer quando a visse...
Teve uma ideia... passou pela floricultura e comprou orquídeas. Era um gesto muito bonito, com certeza. Levar flores era reconfortante. Isso o pouparia de dizer muita coisa: as flores falavam por si, só.
As flores seriam o conforto para a alma da mulher. Representavam o que restou de belo do passado, representavam todo o encanto do que poderia ter sido, representavam a esperança de algum milagre repentino.
E pra ele, pra sua vergonha, pros seus ombros, pra sua consciência, representavam o alívio.
Seus ombros de repente ficaram leves, seus pensamentos ficaram em paz, e ele, com o peito cheio de honra e de orgulho de si, foi fazer esse último e bondoso gesto à mulher que tanto o amou um dia.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Gravata

Acordou às 5h30. Detestava aquela hora da manhã. Detestava aquele meio termo entre a noite e o dia, a luz fraca que apenas se insinuava vindo de fora, e o fato de o seu corpo, mesmo depois de tanto tempo, não ter se acostumado a acordar naquele horário. Mas ele precisava trabalhar...
Levantou-se, vestiu-se e caminhou até a padaria. Comprou pães de sal, que não queria, porque a mulher gostava, suco de goiaba, que não tomava, porque a filha queria, coca-cola, que detestava, porque o filho exigia. Mas não comprou aquela rosca caseira que desejava porque estava cara e ele precisava economizar..
Pegou o ônibus para o trabalho. Ele detestava a mistura de cheiros, odiava ouvir as histórias e conversas alheias, abominava permanecer em pé enquanto o ônibus se deslocava. Mas a mulher precisava do carro pra ir pra academia, e depois pra buscar as crianças, e então pra visitar a mãe...
Chegou ao trabalho quinze minutos mais cedo. Ele poderia chegar no horário, mas o chefe gostava de encontrá-lo em sua mesa sóbrio, sério, produtivo, com as tarefas do dia já encaminhadas. E ele precisava manter o emprego...
Detestava as pessoas com quem trabalhava, suas conversas superficiais, suas vidas medíocres, e odiava ainda mais a ilusão que tinham de que eram importantes. Mas ainda assim era educado e papeava durante o café e participava das confraternizações de fim de ano e fingia interesse pois precisava ser educado pra manter um clima agradável...
Depois do almoço, sentou-se em sua cadeira e folgou o nó da gravata. Odiava ter que usar a gravata e a calça social. O que mais queria era por uma bermuda e caminhar no sol enquanto ouvia música no seu fone de ouvido. Mas ele precisava passar uma boa impressão no trabalho...
Mal podia esperar pra entrar de férias. O que mais queria era ir passar o mês na praia. Mas o dinheiro das férias ele iria gastar na festa que a filha exigia e a mulher queria porque a filha da vizinha fez e ela precisava fazer melhor. Ele odiava gente e festas e odiava ainda mais a vizinha e a sua filha. Mas...
O nó na gravata agora já não parecia mais apertado o suficiente. Tudo o que ele queria naquele momento era se sufocar com aquela maldita gravata.
Ele estava, há muito tempo, cercado de pessoas que ele detestava, fazendo coisas que abominava, engolindo uma realidade que execrava, vivendo uma vida que odiava. E tudo isso pra quê?
Duvidava achar uma resposta...
A vida é este infindável questionamento, mas a morte anestesia... e ela parecia agora ser a melhor das opções.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Descuido

Um toque que desmanchou antigos planos e despertou novas expectativas. Um beijo que dizimou minha cautela e transcendeu barreiras psicológicas. Um abraço que liquidou minha sensatez e tirou o meu controle. Um convite que desmascarou minha maturidade e expôs minha puerilidade. Uma respiração que desmantelou minha resistência e exibiu minha vulnerabilidade.
Eu, de novo, pequena, exposta, inadvertida.
Ele, então, no controle, tomando a maior parte da minha consciência sem sequer se dar conta do estrago.
O abismo cada vez mais próximo, inevitável, atraente. Ele cada vez mais longe, alheio, inatingível.
Tudo tão físico, carnal, superficial. Recheado de ofegâncias, de peles se tocando, de lábios hábeis e corpos colados. 
Filmes, músicas, pessoas, a noite: tudo posto em terceiro plano. E nós dois roubando a cena no meu palco pessoal.
Ao mesmo tempo tudo tão sentido e revivido e idealizado numa mente adolescente - e que beira a infantil.
Todo um diálogo interno sobre cuidados e sobre não cair pela pessoa errada. Todo o autocontrole, adquirido em anos, jogado pela janela do carro. Toda a maturidade emocional pisoteada por seus pés descuidados. Todo um discurso sobre não se envolver esmagado entre nossos corpos.
Eu andei pisando torto. Eu andei fazendo escolhas ruins. Eu estive perdida. E gostei.
Mas agora eu quero o controle de novo. E pra isso você vai ter que partir.

sábado, dezembro 08, 2012

– Vamos lá, me ver não vai arrancar nenhum pedaço – diz.
Como se ainda houvesse algum pedaço para arrancar.
– O que de tão urgente temos a dizer que não possa ser adiado? 

Gabito Nunes

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Quatro mil pés

Estou a um passo do abismo, e já deveria ser suficientemente assustador o fato de que eu posso cair a qualquer momento. Qualquer. Se eu respirar errado, se eu tropeçar, se eu me desequilibrar, se eu cair no sono, se eu me distrair, se alguém me empurrar, se passar um vento forte; a qualquer momento eu posso cair.
Mas o mais aterrorizador de tudo isso é que este abismo me é estranhamente convidativo. Esse mar de desconhecido me magnetiza de uma forma que eu mal consigo compreender. Quando me dou conta, já estou com um pé para dentro desse despenhadeiro, jogando com o pouco fôlego de vida que me restou depois de tudo.
Acordo e durmo cercada por este precipício: ele agora ocupa toda a minha visão, e eu já perdi de vista o caminho de volta. As minhas chances estão fora do meu alcance.
Mas será que é o bastante essa consciência?
Será que é o suficiente eu estar vestida com uma armadura, com uma arma empunhada, estar vigil e esperando o ataque? Será que basta reconhecer a queda para que ela não se torne dolorosa? Será que basta perceber o abismo para não cair?
Estou a quatro mil pés da superfície, mas eu quero cair.

domingo, dezembro 02, 2012

Garrafa

Eu tenho do meu lado essa garrafa vazia e eu já nem me lembro de quê. O álcool que eu bebi irrita o meu estômago, me dá náuseas, e mesmo assim eu estou feliz. Eu espero que ele me faça mal o bastante para que eu consiga vomitar tudo. Vomitar você, suas lembranças, sua voz, sua saliva, seu suor, sua risada sarcástica, seu silêncio. Quero vomitar você inteiro, te extrair de cada célula do meu corpo. Faz tanto tempo que estou tentando metabolizar esse veneno que você espalhou no meu sangue, que meu fígado já não aguenta mais. Esse cheiro que você deixou impregnado em todo o meu corpo me cansa e me enoja. Esse gosto que você deixou na minha boca me dá náusea. Essa saudade que você deixou no meu corpo me subjuga. Essa mensagem que você deixou na minha caixa de entrada me faz querer voltar no tempo e fazer tudo ao contrário.
O tempo passa, mas resiste em ficar pra trás. Seu corpo está longe do meu, mas ainda posso sentir os calafrios que o seu toque provocou em mim. Há muito tempo não ouço a sua voz, mas eu ainda tremo só de lembrar.
E tudo isso me dá nojo.
Esse passado insistente, esses regressos intermináveis, essa vida que anda em círculos e que parece querer nos confundir: tudo isso me faz querer pular um mês ou um ano ou uma década de minha vida, só pra alcançar aquele ponto em que o seu nome não vai mais causar absolutamente nenhum efeito em mim.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Relief

I faced the most distressful ten-minutes walk ever just to say thank you. Thank you for killing all my hopes. My hopes that there could be any future for us. My hopes that there were any step I could give on your direction. Thank you for killing all our chances, for giving me enough reasons to never look behind.
Thank you for all the times you ignored me, for being always so far and unachievable. Thank you for making it hurt day after day, till I got numbed.
Thank you for not giving a damn for my pain, for my issues, for my questions. Thank you for not answering my messages, my questions or even my expectations.
You made it easier. You made it faster.
Thank you for your unbreakable silence, your monosyllabic speach, your empty words. They've left enough space. And this space I filled with the worst possibilities, occupied it with my own version of the story. And I can swear to you, I've been living with the worst. I've been dealing with the emptiness day after day. I've been feeling lonely enough for grabbing any chance of conection with someone else. I've been so sad, that I get happy when the noises around me get to supress my outcry.
So far there's always something missing. But I really want to thank you 'cause seems to be closer the day in which I'll look at the past with indifference.
It's a climb. A sudden climb. The top is still cloudy. But I'll keep climbing.
The closer you get, the lighter things will be, and I'll get relief.

terça-feira, novembro 20, 2012

Carrega

Quantos passos são necessários pra que eu chegue lá? Quantos dias são necessários para que o passado se feche em si? Quanto tempo leva até que deixemos de esperar que a vida se dê em ciclos fechados? Quanta maturidade é necessária para que aprendamos a enfim lidar com perguntas sem respostas? Quantas vezes é necessário cair até que se levantar não seja doloroso? Eu tenho tentado agir normalmente, andar como andaria, falar como falaria, pensar como deveria. Eu tenho mantras que repito sempre que necessário, esperando absorvê-los e, enfim, colocá-los em prática. Eu tenho um copo que já tem o cheiro do álcool daquela garrafa de vodca que eu bebi todas aquelas vezes em que me lembrar foi dolorido. Eu tenho essa alma saudosista e esse cérebro nostálgico. Eu tenho essa graça esquisita de querer discordar da dor. Eu tenho tudo isso que hoje não me serviu pra nada.
Eu tenho tudo isso e, mesmo assim, dar de cara com esse lembrete infiel de algum passado me tirou um pouco do chão e da minha firmeza nos pés. Eu digo infiel porque ele vem com esse ar atraente de passado, mas com um gosto amargo e desapontador de um presente que se instala, peremptório.
Será que é demais que nessa vida eu peça por clareza? Será que se paga um preço muito alto pra ter respostas? Ainda que seja inútil ter certeza, eu estou aqui disposta a pagar pra ver.
Eu passo tanto tempo sem escrever, sem falar, sem sequer pensar sobre; e de repente a roda gira e troca as imagens na minha cabeça e incomoda um pouco a minha paz, só pra insinuar que talvez os nós não estejam atados. E eu pergunto pra mim mesma: como? Pra quê? Por quê? Na ausência de respostas, eu respiro fundo até que a minha mente se canse e troque de novo as imagens. E vem sendo assim uma vez a cada semana ou a cada mês.
A memória é um tanto traiçoeira, mas é igualmente falha. Daqui a pouco as coisas se ajeitam. Já diz-se por aí que o tempo se encarrega das coisas. Então, enquanto o tempo (se en)carrega (de) você, eu me (encar)rego de mais outra dose daquela vodca que já tem esse estranho cheiro de nós.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Linha

Você se lembra daquela vez, aquela primeira vez em que a gente ficou abraçados sentindo o vento que passava varrendo a nossa timidez? E a gente ficou falando de nada, com cara de bobos, e você em algum momento, de propósito, bagunçou meu rabo-de-cavalo. E eu fiquei muito, muito nervosa. Tanto que, mesmo eu tentando disfarçar, você notou... eu não sei o que você achou da minha reação, se achou infantil, exagerada ou fútil, mas eu nem quis me explicar. Como eu iria explicar pra você que o único motivo que me fez ficar irritada com isso era o fato de que isso fazia eu me lembrar de que ele sempre fazia isso? Como eu iria te dizer que essa era apenas uma das pequenas coisas que me fazia sentir saudades de estar com ele? Acredito que, naquele momento, você não gostaria de ouvir nada disso...
Então o tempo passou, essas coisas foram passando e você foi ficando.
Eu achei que você era nada, que a gente era nada, que era só uma coisa sem nome, sem definição...
Sem nomes, sem regras, sem explicações, sem decoro... apenas eu. E você. Eu e você.
Até ontem, quando você estava outra vez abraçado comigo, outra vez nós sendo bobos, e outra vez você bagunçou propositalmente meu cabelo. E eu ri. E isso me fez lembrar apenas de você, e da gente, e foi aí que eu percebi que já é tarde demais, que eu cruzei a linha de segurança, que eu já estou do lado de lá... eu estou apaixonada, eu já me rendi. Não há formas de te tirar da minha vida sem que eu sofra ao menos um pouco; não há como te levar daqui sem desequilibrar um pouco meus passos; se você chega, se você sai, tudo isso afeta minha respiração...
Então tudo o que eu posso fazer agora é esperar.. esperar você se render, esperar você ser meu assim como eu sou sua agora, meu bem.
Então você poderia, agora, segurar minha mão e me dizer que não está sendo em vão?

sábado, outubro 20, 2012

Você chegou com um ar de quem estava só se divertindo... você me pegou de surpresa e roubou um beijo meu. E eu pensei que isso era tudo. Então você quis repetir a dose, e eu, não tão pega de surpresa assim, deixei... eu decidi que, se pela primeira vez em tanto tempo eu quis me envolver, eu faria isso. Mas sem pretensão, sem perspectivas, sem olhar muito à frente. Então 'a gente' não passava de uma coisa casual, até que, de um dia pro outro, você falou de mim pras pessoas, quis andar de mãos dadas, fez planos comigo... as pessoas olham pra mim esperando que eu diga o que é que eu estou fazendo. E a verdade é que eu não sei. E se você sabe, ainda não me contou.
Por que você está dizendo pras pessoas que eu sou mais do que algo casual, se você nunca me disse nada? Hoje eu senti algum medo, medo de estar enganada. Medo de ser pega de surpresa. Porque eu ainda não estou pronta pra nada dessas coisas que escapam do meu controle...

Sobre pertencer

E então eu voltei pra essa cidade fria e vazia, e - não sei se porque eu realmente procurei por isso, e/ou se porque eu precisava disso - eu projetei em você o meu porto-seguro. O lar, aquele que sempre está lá quando você precisa voltar. Aquele que te faz se sentir confortável, e que espera você e o seu momento. A decoração nem era do meu jeito, a fachada nem tinha a minha cara, mas era o meu lar...
Então esse mundinho sacana deu meia volta, sacudiu e te jogou pra fora do meu mundo. Foi pá-pum. Não tive tempo de pensar, de planejar, só vi você chegar sorrindo e comemorando, e tudo o que eu consegui fazer foi dar um sorriso de lábios cerrados e ficar por ali uns cinco minutos, até que eu sufoquei e procurei um canto escuro pra eu poder chorar e chorar e chorar. Por quê? Nossa, quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Eu não entendi no início, nem sei se entendo agora. Mas é que, e aí? Você vai embora e eu o quê? Vou dividir com quem minhas coisas? Vou contar pra quem aquelas surpresinhas agradáveis ou não que o dia me faz? Vou cozinhar com quem? Vou ser ouvida por quem? É, a verdade é que agora, mais do que nunca, eu me sinto só. E eu estou, mesmo, só.
Passar a pertencer tem sido um processo trabalhoso demais pra mim...

quinta-feira, outubro 18, 2012

Ninguém se importa*

Enquanto você dorme… ninguém se importa.
O dia amanhece, anoitece, bebemos, ficamos sóbrios… ninguém se importa.
Sou o muro onde o medo se apóia, sou o nada que alguém quer usar… ninguém se importa.
Sou a pedra na rua que você vai chutar,
Sou lixo que quer descartar,
Sou o que você não sabe lidar.
Sou destrato com um confidente,
Sou importante como um indigente,
Sou nada em forma de imponente.
Ninguém se importa.
Sou o que você mal vai se lembrar…
Ninguém se importa.
Especialmente você.

*Texto de Artur Caneda

domingo, setembro 16, 2012

De novo

Abriu as páginas do livro velho - presente ganhado havia anos. Estava amarelado e gasto nas bordas, mas, abertas as páginas, um cheiro particular tomava lugar nos seus sentidos. Escolheu o capítulo que mais lhe marcou. Demorou a achar, mas quando o encontrou, leu-o novamente. E chorou.
Não, o drama que as páginas traziam não era nenhuma surpresa, e ele nem vinha dentro daquela fórmula melodramática e piegas. Era muito sutil - tanto que não chorara da primeira vez; mas a sua alma sofreu com a decadência ali presente, com a ausência do futuro, com o contraste entre a lucidez miserável e o delírio deleitoso; qual seria pior? A alma sofre com essas perguntas.
Mas não foi nada disso que a fez chorar. Foi a memória - que nos prega dessas peças. Foi a memória de uma voz, de um cheiro, de um sentimento, de uns sonhos. Foi a memória de uma época.
Lembrou-se da janela de vidro que dava vista para outra janela de vidro, e as janelas comunicavam melhor que qualquer telefone.
'_Mas não acaba, não. Não acaba nunca. A gente não deixa', falou-lhe um rosto turvo e uma voz um tanto indefinida.
Queria muito e de novo a fé que tinha, àquele tempo, de que podia e iria tomar as rédeas. Sofreu porque a vida, às vezes, não deixa escolhas. E sofreu porque percebeu que, quando a gente percebe, às vezes é tarde demais. Mas parcebeu-o tarde demais.
Tentou relembrar ao máximo, tentou quase reviver umas piadas, umas histórias, umas graças, uns carinhos. E chorava, e chorava, e padecia. Tudo isso até a alma se assentar e se acalmar e respirar.
Abriu, então, novamente o capítulo e começou tudo outra vez.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Tarde

Eu me lembro de que eu estava quase curada, e eu tinha até outros braços em volta de mim. Eu tinha outros lábios atrapalhando o ritmo da minha respiração. Eu estava lá, um pouco perdida, um pouco deslocada, mas enfim, no meu canto. Então eu dei três passos e me deparei com ele. Eu torci um pouco o nariz, como que pra sinalizar o meu fechamento e a minha reprovação a tudo o que ele (não) havia dito ou feito até ali. Ao mesmo tempo eu mantive minha postura de pessoa sã e socialmente correta e interagi. Um assunto - certamente superficial - não se prolongou por muito tempo, e ele olhou pra mim com um ar um tanto incerto, um tanto indagador, e falou as palavras que eu esperei ouvir por muito, muito tempo. A gente precisa conversar, não é mesmo? Eu assenti com a voz, com a cabeça, com o corpo e com o espírito. E então eu comecei um diálogo interno me interrogando o que dizer e como dizer. É óbvio que não havia nenhum objetivo naquela conversa, mas que mal faz termos sede de entender o porquê das coisas? Todo, alguém diria. Dois segundos eu me retive nestes pensamentos e ele prontamente adiou o colóquio. Deu-me um motivo e pronto. Eu esperei muito por isso, pensei. Tudo bem. Antes tarde do que nunca. Teríamos tempo pra isso.
É (quase) sempre uma pena quando o sono acaba antes do sonho.

terça-feira, setembro 11, 2012

Em poucas palavras...

Why don't you get the fuck out of my life?

domingo, setembro 09, 2012

Queda

É uma queda vertiginosa, de uma altura muito elevada, desastrosa e constrangedora. Eu tento esconder os vestígios, mas às vezes fica difícil. Eu tento, nem sei por quê. Talvez pra poupar todos que estão por perto, talvez porque a distração é a melhor cura para o pesar. Tem dias que eu me levanto e vejo que preciso sacudir uma poeira da qual pensei ter me livrado. Tem noites em que eu me deito e penso que talvez o tempo - diferente do que diria Nicolas Boileau* - não passa assim tão rápido. Eu tenho vontade de escrever algo, mas eu não sei exatamente o quê, sobre qual assunto e muito menos pra quem ou com qual objetivo. Eu tenho vontade de falar algo, mas as palavras se embaralham no meu estômago, fazem alguma bagunça, sobem pelo esôfago e ficam encravadas na garganta. Eu tenho vontade de chorar, mas eu não sei se há bem um motivo, e é pretensão demais achar que eu posso sofrer assim, sem ter razão. Eu me esqueço dos motivos, eu ponho de lado as memórias, eu ignoro os sinais, e o que resiste, depois de tudo, é uma dor petulante e um vazio insistente.
Foi uma queda muito alta, mas as feridas já começam a parecer cicatrizes.

*"Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim."