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terça-feira, julho 21, 2015

"(...) torno a cair nesse dilema existencial e me pergunto se eu não deveria me fingir de polida, comedida, milimetricamente controlada, racional e compreensiva, apenas pra dar a um cara qualquer o tempo que ele precisa pra me amar tanto quanto eu o amei desde o primeiro momento em que o vi. Então eu começo a rir e penso que eu nunca me contentaria.
Eu sei que só vai ser pra sempre quando ele me amar primeiro, com olhos intensos e mãos afoitas e palavras gaguejadas. E ele irá fazer tudo errado e irá derramar café em mim e me fazer perguntas inadequadas e irá ter pressa de tudo comigo. E irá me amar no sofá e no tapete da sala e irá cuspir um eu te amo no nosso primeiro café da manha juntos. E então eu vou saber."

Mergulho

Vai entender essa mania que a gente tem de fazer perguntas sem estar pronto pra lidar com a resposta, ou, mais bravamente ainda, de fazer perguntas cujas respostas a gente já sabe, mas acha que dá conta de ouvir. A resposta geralmente dói surpreendentemente mais.
Às vezes eu acho que deveria aprender a ser mais como essas pessoas que vivem uma mentira, porque nunca têm coragem de fazer perguntas, de se questionar. As coisas são o que são e não há nada por trás. É... não procura fundo, não, que senão vem merda. Acredite, é melhor assim. Porque as pessoas não sabem lidar.
Eu sou um peso, um fardo pra se carregar. Eu com essas minhas perguntinhas infelizes e uma profundidade que ninguém quis cavar. Eu com minhas inseguranças, dúvidas e com um eterno desejo de que as coisas sejam maiores do que realmente são, grandiosas, merecedoras da minha dedicação.
Eu com uma sede de que exista algo mais profundo do que a casca, com sede de que haja uma palavra suprimida, uma declaração de amor engolida, uma memória nossa eternizada silenciosamente, uma palavra que ficou gravada, uma música que faz lembrar, um jeito que faz arrepiar, e que um dia tudo isso será confessado. Em com um desejo de transparência que simplesmente não convém. Ninguém quer falar sobre isso. As pessoas não querem falar sobre coisas profundas, pra não revelarem que na verdade elas são só isso. Que elas não pensam na vida, no futuro, no que é perene e no que só está aí de passagem. Que suas tão ditas melhores noites são memórias borradas devido ao álcool e à conversa vazia. Elas não querem revelar que, quando algo incomoda, elas se escondem em seus computadores e em seus smartphones e num copo de cerveja, porque essa é a melhor maneira que elas têm de lidar. Que as suas escolhas, suas relações são apenas consequências, sequências de dias vividos a esmo, de sensações mal-sentidas.
Eu cavo. Eu cavo e incomoda. E dói. Ninguém quer nada disso. Então eu vou ter que mergulhar sozinha. É assim, como sempre foi.

segunda-feira, março 09, 2015

Timing

Um dia eu me abri contigo. Um dia eu te pedi pra ser mais do que raso, que deixasse de fazer piada e me dissesse, lá no fundo, o que você sonha pra você. Você disse que não sonha comigo. Mais do que isso, você jurou que não sonha com nada. A turbidez do futuro se faz vencer e você não parece querer tomar as rédeas do que está por vir. 'Seja o que for, não consigo pensar à frente', você me disse, incapaz sequer de me dizer umas palavras doces, só pra acalmar minha ânsia de te ouvir dizer que um pedacinho de você já sonhou com nós dois compartilhando mais do que um sexo casual e uns finais de semana ociosos e um romance fácil e passageiro de juventude. Tudo e nada, pra você, tanto faz.
Mas o que foi dito não se pode desfazer. A ideia que atravessa a mente é como um rio que passa arrastando tudo. Nada mais ocupa o mesmo lugar. As coisas estão bagunçadas e talvez isso não seja reversível. Esse é simplesmente o novo e irrevogável lugar das coisas.
E eu, de volta ao princípio. Retornei a dezenas de incertezas e a uma dolorida descrença em nós dois. Outra vez estou naquele lugar onde vejo, a qualquer momento, emergir o fim. A certeza da despedida se materializa. O vazio de não poder acreditar em nada. Pra que apostar? Gastar meu tempo e energia e lágrimas e toda a doçura que eu sei dedicar, pra um fim categórico? Talvez semana que vem. Talvez mês que vem. Talvez ano que vem. Talvez amanhã. Por que não? Se vai ser assim, de qualquer maneira...
Queria ter esse seu sossego de não espiar o futuro, não conjecturar, de não se deixar levar nem um pouco e, muito menos então, sonhar. Queria que o fim não doesse antes da hora em mim. Queria querer ir praquele país ao invés de querer ficar pra não me separar de você. Queria ser leve. Queria ser você.
Eu apostei em você. E nós. Mas eu tenho lugar neste seu momento. Eu não caibo no seu depois.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Grief


You're sitting right in front of me at this Coffee shop that is just one block away from your workplace. You just asked me how I am, with a casual politeness and a casual smile on your face that confuses me, cause that's not what you expect in a situation like this. My mouth is open, waiting for the words to come out, but, truth is, I never really thought about what I would say when I ran into you. Then I start.
I start telling you I’m doing great, thank you. The place I work at, well, is awesome. It’s a national reference in my area, so I work with capable people, which are great in what they do. I see things work, and it’s not like I’m always bending over backwards to solve problems. Things work and I’m not overcharged (and I’m well paid for it. Yey!). Well, people there are great. They’re nice and gentle and smart and they speak low. You know I like that. They are funny and also critical. In a good way. You know I like that too.

The city has great logistic, no traffic, no violence, there’s the beach, the warm temperature, and the large sidewalks to walk. There are trees everywhere, and the sea breeze. I live near to everything I could possibly need. I go to the gym. I buy my own food. I cook my own food (you know how that is important to me).
I work hard and I study hard. I am climbing. You know I aim for greater things. I pray every day, I read every day. I do things I like and watch things I like. I hang around with friends (Yeah, I made a couple of great friends). I go out to dance and meet new people.
So, my life is great. I’m doing well. Every day I have at least one good reason to smile. And why am I sitting here telling you how great I am doing? Because I need you to understand that all my grief is gone.
When I departed, leaving you behind, I knew I was taking a risk, and I suffered for that. I’ve passed that phase when it seemed impossible to even breathe without you (that really sucked). So I went through that phase where it seemed really hard to eat and to sleep without you around. And I went through that phase where I didn’t want to go out or see a movie or even make new friends. And then I went through that phase where, despite I was just fine, I was quite sure I would never be happy again without you in my life.
Then, one day, I realized that I've been happy once without you in my life. And then the finding, the epiphany: yeah. I could be happy without you in my life. And just like that, the grief was gone. All the despair and all regrets were instantly washed away.
Then I came all the way through here, trying to track you down near to the place you work at, to say that, behind all these things, at the end of this journey, what I found, right there, waiting for me, was my love for you. My pure, sweet, patient, extant and understanding love for you. The inevitable truth.
Behind all those clouded and dark thoughts, I couldn’t see it so clearly. But I see it now. I hope there’s still time for you to take me back, cause now I’m ready to love you like I never could have done before.

quarta-feira, março 05, 2014


O tempo passa e essa vidinha em ciclos nos faz repetitivos. E esse trecho insiste em voltar, cada vez fazendo mais sentido. Mesmo depois de todo esse tempo, desta vez, essa é pra você:

"Não foi fácil ficar sem você. Alguns enjoos e um pouco de vômito me acompanharam no início, mas depois só sobrou a mágoa. E em seguida inveja.                                                                  Mágoa por ter desistido tão rápido de mim.                                                                                          E inveja por ter conseguido.”

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Playlist

Eu cheguei do trabalho, pus as chaves no chaveiro, a carteira sobre a mesa, lavei o rosto e, em seguida, me sentei em frente ao computador e botei pra tocar outra vez aquela playlist. Nesse momento eu não abri o facebook, ou o email, ou o jornal, ou qualquer outra coisa que pudesse me distrair daquela playlist. Ela tem o seu nome, sabia? Eu sei dizer o nome de cada uma das músicas na ordem em que elas tocam e até mesmo de trás pra frente. Eu queria que fossem mais músicas. A playlist... ela tem o seu nome, já disse? Bom, eu abri a playlist e concomitantemente fechei os olhos. Tentei pensar em você. No seu rosto. No cheiro do seu shampoo. Naquela cicatriz que você tinha no queixo. Nas suas mãos com as unhas que você odiava porque não conseguia parar de roer. Eu tentei me lembrar de tudo, mas está cada dia mais difícil. Me perdoa, cricket, mas eu vou continuar tentando, eu juro.
Faz três anos que estávamos nós dois sentados na minha cama, que ainda era de solteiro. Você tomou conta do meu notebook e ficou falando sem parar o quanto minhas músicas eram ruins e que eu não sabia nada sobre arte. Disse que ia tentar fazer uma intercessão entre os nossos gostos musicais. Das tantas músicas que havia ali, você separou aquelas de que você também gostava, e fez uma playlist com um nome engraçado que fazia referência ao meu mau gosto musical. E pôs a lista pra tocar. Chovia, fazia frio, e a gente se enrolou na coberta, se abraçou e fez amor ao som daquelas músicas.
Uma hora depois nos levantamos apressados pois você tinha uma prova pra fazer e eu tinha que cumprir hora no laboratório. Como sempre, passamos tempo demais na cama e saímos atrasados pros nossos afazeres. A chuva tinha parado, você deixou o prédio, me beijou e se virou pro lado contrário do meu, com seu fone de ouvido recheado de bom gosto musical, e sua distração que eu costumava achar graça na época.
A gente pode tentar culpar as circunstâncias, ou a gente pode acreditar que há uma hora pras coisas acontecerem. Mas até hoje eu não decidi se a nossa pressa, a sua distração ou seus fones de ouvido tiveram ou não alguma culpa naquele acidente horrível que te levou de mim naquela tarde.
O tempo abriu logo depois, parecia o céu sorrindo pra te receber. E eu morri um pouco junto com você. Deus, como eu queria que esse pouco de mim que morreu pudesse também ir contigo. Mas não. Eu fiquei, com uma ferida aberta, daquelas bem grandes, que podem até cicatrizar um dia, mas deixam um vazio, e sempre, sempre deixam rastros evidentes.
Eu te amava tanto. Eu me lembro que, sempre que a gente fazia amor, você me pedia pra não te esquecer. Mesmo se a gente terminasse, mesmo se a gente nunca mais se visse, mesmo se a gente amasse outras pessoas, você pedia que me lembrasse de você sempre com carinho, que sempre lembrasse o quanto a gente se amou, e o quanto tudo isso fez sentido, dia após dia, enquanto estávamos juntos.
E é isso que eu estou fazendo, meu bem. Já faz três anos. As pessoas esperam que a esse ponto eu já tenha chorado, sofrido, e que esteja pronto pra seguir em frente, pra caminhar com minha vida. Mas eu sei que você não iria querer isso. Você não iria querer que eu sofresse, sentisse sua falta, falasse de você como se fosse minha vida, pra simplesmente, algum tempo depois, te deixar no passado, esquecida, como alguém que simplesmente passou... você não iria querer ser esquecida, porque hoje você não está aqui pra se fazer ser lembrada por outro alguém, e não seria justo da minha parte simplesmente te deixar ir, sem que houvesse outro alguém pra pensar em você toda noite, pra guardar uma foto sua na carteira, pra saber o cheiro do seu perfume de cor, pra saber de quais piadas você iria rir.
E é por isso, meu bem, que até hoje eu preparo a comida sem cebola porque eu sei que você odeia, e que eu limpo o espelho só com água pra não manchar, que eu faço o café bem forte e sem açúcar, e que eu não uso camisa polo com bermuda. Você me detestaria, rs.
E é por isso que, quando eu estou só, meu amor, a sua playlist é a única, a única que eu ponho pra tocar.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Eu bem tentei. Mas é que agora... eu não saberia falar de amor.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Quinze minutos

Eram quinze minutos a pé quando eu fazia o caminho da minha casa até a sua. Aqueles quinze minutos de distância eram longos demais, a cada vez que tudo o que eu queria era me transportar pra o teu lado. E vez após vez eram quinze minutos de espera ansiosa, de pés tropeçando na própria pressa. Minutos a menos com você. Contados. Havia um trecho isolado e escuro, e uma outra boa parte do trajeto de rua não asfaltada. E eu passava por eles, fosse noite ou chuva, sem me preocupar com um perigo qualquer ou com a água entrando nos meus sapatos, só pensando em quantos minutos mais faltavam pra eu alcançar seus braços. O meu guarda chuva e o meu all star já sabiam o caminho de cor. Eu ia pensando em como você iria me receber, se eu estava bonita pra você, se eu havia esquecido o perfume ou o filme que a gente combinou de ver. Ia pensando em como eu ia te sorrir, nas maneiras que eu queria te beijar, e se fosse noite eu ainda olhava pro céu, que gentilmente abraçava minhas expectativas e me prometia que tudo seria grandioso. E era. Quando você abria a porta, eu deixava a angústia do lado de fora, assim como a poeira no tapete. E quando você me beijava, eu sabia que caminharia trinta minutos ou vinte horas a pé, só pra te ver de novo. Quando a gente se encaixava, eu te olhava nos olhos tentando gravar seu rosto, seu cheiro, nosso prazer, pra lembrar a cada momento em que eu estivesse a insistentes quinze minutos de distância de você. Ou mais.
Faz tempo. Já faz muito mais que quinze minutos. Já faz um bilhão de vezes quinze minutos que eu não vejo você. Já faz tanto tempo que eu talvez nem saiba mais o caminho. Você provavelmente já nem mora lá. Você provavelmente tem outro alguém. Eu provavelmente nem saberia mais amar você. A gente não se conhece mais, pelo que eu pude perceber. Mas a minha espera sempre foi sincera, e a minha busca, fiel. E tudo o que eu ainda consigo me lembrar são aqueles quinze minutos, porque, de tudo, foram o que, até o fim, nunca deixou de ser real.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Comunicação Não-Violenta

Para quem tiver a oportunidade, recomendo fortemente uma pausa para a leitura:

Esse texto fala sobre como estamos habituados a nos comunicar de forma violenta, e de como isso nos impede de nos conectar efetivamente com as pessoas. É preciso entender que respeito e compaixão são necessários mesmo, e principalmente, quando se discorda de algo ou alguém. Quando alguma necessidade/desejo não nos é atendido ou saciado, nós muitas vezes reagimos de forma agressiva com o outro e - por que não? - com nós mesmos.
Usamos um esquema de culpabilização, seja das circunstâncias, do outro, ou de nós, ao invés de assumirmos responsabilidade por nossa parte em cada acontecimento. Ao fazer uma análise clara e detectar qual é a nossa participação naquele resultado, porque não sermos transparentes quanto a isso e fazermos algo para mudar? É muito fácil culpar o outro, ou culpar a si mesmo e pedir desculpas vazias, e assim encerrar um assunto ou discussão. Mas com essa atitude nós não estamos nos conectando nem enriquecendo nossas relações, e sim fugindo daquilo que realmente nos aflige, pois evitamos nos aprofundar em uma discussão aparentemente densa, em busca do que foi que de fato gerou insatisfação.
Para isso nós precisamos exercitar honestidade e leveza. Honestidade para reconhecer a nossa participação e assumir diante dos outros o papel exercido por nós, sem que isso signifique culpa, vergonha ou punição. E leveza para dizer ao outro aquilo que, nele, nos atinge, incomoda, sem que isso pareça uma acusação ou ameaça. Os conflitos devem ser resolvidos, ou não seremos nunca capazes de nos relacionar intimamente com ninguém, já que toda e qualquer relação humana resultará, com maior ou menor frequência e em maior ou menor grau, em conflito, e se nossa única reação for a fuga, nunca formaremos um vínculo efetivo.
Parte da tentativa de agir com leveza tem, creio eu, a ver com evitar generalizações ou reducionismos. Só porque alguém agiu de forma egoísta por um momento, não quer dizer que tal pessoa seja sempre autocentrada e incapaz de agir com generosidade. Por isso, seria bom evitar pensamentos reducionistas, taxativos, que desconsideram a possibilidade de se reverter um comportamento. Até por que esse tipo de discurso não abre muito espaço para se acreditar que maus hábitos podem com esforço, sim, morrer, ou para aceitar que o ser humano mais “erra” do que “acerta”. Isso sem falar de que, quando julgamos, o fazemos de acordo com a nossa perspectiva. Tudo começa com a NOSSA projeção do que seria um comportamento ideal vindo do outro. E quando o outro age de determinada forma, acreditamos que ele age motivado pelas mesmas forças que nos movem, quando na verdade o outro tem motivações e impulsos diferentes dos nossos.
Ao se comunicar, o alvo não deve ser encontrar um responsável, culpabilizar alguém, e sim achar um modo de reverter uma situação ou comportamento. Um clima hostil com tom de ameaça e de provocação podem minar totalmente as chances de que as relações evoluam de forma benéfica. Franqueza, empatia e compaixão podem nos ajudar a nos colocar de forma mais humana diante do outro, e fazê-lo baixar a guarda e, em retorno, se comunicar de forma amistosa, favorecendo assim uma relação saudável e construtiva.
Por fim, vale lembrar que mudança de comportamento exige muita autoanálise e observação de si e do que está ao redor, além de vontade genuína e esforço contínuo.

Quases

Se eu pudesse resumir nós dois em uma palavra, seria essa. É que a nossa história foi uma curta e intensa sucessão de 'quases'. A começar pelo começo que foi por pouco. Foi bem entre aqueles dois minutos de eu e você, exatamente ao mesmo tempo, esperando o elevador, que a gente começou. Eu estava meio bêbada, como quase nunca fico, e você carente, como quase nunca está. Uma implosão de acasos resultou nos seus lábios sobre os meus de uma forma incerta e tímida. Você quase me ligou no dia seguinte, mas não me ligou porque ainda era cedo. Dias depois a gente se esbarrou em uma festa qualquer e você quis me beijar. Eu quase disse que não, mas cedi. Depois disso a gente passou a se ver com frequência. Eu quase disse que era melhor não, mas nunca disse. Você quase me avisou que nunca daria certo, mas não o fez. E então a gente mergulhou um no outro. Mas não por inteiro. Só quase. Como quem nada sem afundar a cabeça dentro d'água, sabe? Era quase ótimo. Era quase verdadeiro. Você quase gostou de mim e eu quase quis acreditar. Mas a gente nunca realmente chegou lá.
Todo o dia era quase o fim, mas nunca era. Então tudo foi crescendo até quase virar algo grande, e a gente se viu prestes a atravessar a linha. Eu quase mudei por você e você quase enfrentou o mundo por mim. Mas na hora H, a gente viu que não era assim tão adulto, só quase... então a gente calou a boca e o espírito e voltou pro nosso confortável quase, que não precisa 'sim' nem 'não', onde tudo é devagar e sem pressa. Onde tudo pode ficar pra depois, afinal, ninguém sabe mesmo o que vai ser, não é mesmo? E aí a gente esperou esperou, até que o quase foi diminuindo e se acabando, e até que ele se tornou tão fraco que você foi levando suas coisas embora do meu apartamento, e eu fui tirando suas fotos do meu celular, e até que a gente quase não se via, quase não se falava, e enfim, assim, quase mesmo sem doer, o nosso quase virou nada. Só um quase: nada digno de se lembrar.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Aquela música era sobre você*


O ano era 1990 quando eu assisti a este por-do-sol pela primeira vez. Eu tinha quatorze anos. Eram as férias de dezembro. Estávamos longe de ter imóveis no litoral. Nestas férias que sofri o acidente submarino que me concedeu inúmeras perfurações no tímpano direito, uma cirurgia com problemas pós-anestésicos e diminuição da capacidade auditiva. Lembro muito bem de tudo. Eu acordava, comia muitos pães com qualquer coisa dentro, bebia um copo gigante de Nescau (não era esse horrível 2.0) e ia apressado para a praia. Lá eu ficava o dia inteiro. Acredito que meu corpo cansava de produzir melanina - não tinha mais espaço para a molécula da melanina nas células. Todo dia, o dia inteiro era feliz. Eu e o mar e os colegas que insistiam em atravessar a arrebentação com o filho de Poseidon. Como eu disse, lembro muito bem de tudo. Quando o dia ia terminando e o sol caminhava para a morte meu humor sofria alteração significativa. Eu saía do mar, me secava, pegava meu walkman (de fita cassete), sentava a uma distância segura de todos de modo que eu não seria importunado e me sentisse próximo e "dava play". A música que tocava era sempre a mesma porque eu sou assim - ouço sempre as coisas que já gosto e se ninguém me apresentar nada novo, tudo bem. Como eu disse, lembro muito bem de tudo. Quando eu saía do mar e me afastava com os fones nos ouvidos, o fazia porque sentia um vazio dentro de mim. Um vazio estranho. Eu não chorava, não me emocionava. Apenas sentia um vazio e ficava vendo o sol morrer de novo. Eu não estava apaixonado. Era como se eu estivesse. Era como se algo me faltasse e eu passaria a vida sem saber o que era. A música que eu ouvia pedia-me paciência. Falava sobre sentir falta, sobre chorar de saudade, sobre um futuro certo e bom, sobre não podermos acelerar o tempo, sobre não fingir, sobre não romper, sobre não suportar a dor do afastamento, sobre precisar de alguém. Alguém. Mas quem? O ano era 1990! Tudo que eu fazia era estudar e ir à praia com meus pais... Os anos se passaram e eu conheço este por-do-sol há vinte e quatro anos. Duas décadas e meia, quase. Desde dezembro de 1990 que não lhe assisto ouvindo aquela música. No sábado passado, 31 de agosto, eu saí sozinho de casa só para assistir ao meu por-do sol preferido. Não, não ouvi aquela música e não me senti vazio. Eu senti saudade, pela primeira vez neste por-do-sol, e entendi o que aquela música quis me dizer há vinte e quatro anos.

*Texto de Angelo Amaral

segunda-feira, agosto 05, 2013

Casa

Cada canto que eu arrumava eu pensava ser só mais um canto frio que nunca chegaria a te conhecer. Cada lugar, cada prateleira daquelas nunca iria sentir o seu cheiro, ou ouvir as suas graças, o seu vocabulário inadequado ou tudo o que você diz querendo chocar. Aquelas paredes não conheceriam sua voz. Os novos lençóis nunca experimentariam o seu calor. Nunca mais a gente deitados, entrelaçados, conectados. Aquele chão, aquelas paredes, aquele chuveiro: eles nunca conheceriam a gente fazendo amor. Pra sempre, agora, um pouco de pressa, na espera pelo momento em que tudo isso vai passar. Em que tudo isso vai deixar de ser.
A casa que eu deixei tem o seu cheiro e a sua cara e as suas memórias. Eu entrei quase ao mesmo tempo naquela casa e nessa nossa história.
E agora eu simultaneamente deixo ambos para trás. E nem um nem outro foi tanto assim por escolha.
É só que a gente precisa saber a hora boa de partir. A gente precisa entender quando aquele lugar deixa de nos pertencer. Aquela casa me abrigou, mas nunca foi minha. Foi abrigo, mas nunca foi lar. E assim foi você. Você me cercou. Você me tocou. Me prendeu e me teve. Mas nunca foi meu lar.
Eu confesso, eu nunca fui capaz de te olhar e me sentir em paz. E nossos finais repetidos e insistentes nunca me pegaram de surpresa. É que eu bem sei o caminho das coisas. A gente pode serpentear, pegar a estrada mais longa e parar no acostamento enquanto o tempo passa. Mas há algo logo ali na frente que nos espera. Um final frio, feio e impiedoso. É que seu coração, menino, ele não sabe perdoar. E isso ainda vai te custar muita leveza.

quinta-feira, agosto 01, 2013

O medo da armadilha*


Suas mãos atadas, o sorriso no rosto e o cheiro do seu abraço. te confesso, menino, que seu beijo tem gosto de torta de amora e que eu não quero sair dali, mesmo querendo. e que se você me liga, eu atendo não querendo querer. porque eu te conheço e sei bem do que é capaz. fará de tudo por mim se me amar, mas se um deslize no seu sentimento houver, você logo me cospe, me trai e me amordaça. eu sei, menino, que você é movido por paixão e por prazer. e que isso tudo que você faz e que é parte de quem você é, é uma armadilha pra me envolver. é tudo bom demais pra eu viver em paz, porque se eu sinto prazer na tua companhia é porque você me inquieta e bagunça meus hormônios e neurônios e me deixa assim, feliz, sorrindo com suas mensagens bobas e seu ciúme disfarçado de piada. eu sei que vai acabar. eu sei que eu nunca vou ficar com os dois pés alinhados, vai ter sempre um mais atrás. eu sei que isso é uma armadilha, porque tudo isso é bom demais pra ser real por tanto tempo. e enquanto isso durar eu vou me manter atenta, pra você jamais achar que eu sou boba, meu amor, porque eu não sou. eu vivo a gente e eu vivo o medo, mas eu tô vivendo, e você que tá armando isso tudo?


*Texto de Karolina Figueiredo

domingo, maio 26, 2013

Ausência*


[...] Me lembro de te oferecer café da manhã na cama e de você rejeitar porque estava perto da hora de partir. Eu me lembro de travar meus braços e pernas em volta de você e em seguida dizer 'ok, pode ir'. E você ria, porque você queria que eu dissesse, com palavras, que tudo o que eu mais queria era que você ficasse um pouco mais o tempo todo, pra sempre.
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Hoje o dia passou e eu senti falta de [...] como você se esquecia - e me fazia esquecer - de um mundo inteiro de verdades obscuras e inadiáveis que nos aguardavam de forma categórica.
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Eu te pedi pra ir, mas de ti guardei algo comigo: hoje eu dormi abraçada com sua ausência.


*Trechos de Ausência

quinta-feira, maio 23, 2013


"They call you heartless; but you have a heart and I love you for being ashamed to show it."

Nietzsche

sexta-feira, maio 03, 2013

You got a stone where your heart should be

Menina, eu me acostumei ao teu olhar. É que tanto tempo vendo esse olhar leve e ansioso por rir de algo, isso é o mais perto que eu consigo chegar da paz. E esses seus olhos me despiram. Me despiram de mim mesmo e me fizeram querer te amar. E eu tentei te amar. Insistentemente. Mas eu nunca tive realmente a chance.
O tempo todo você teve medo de sair do controle, mas isso nunca foi um problema, porque você tem uma pedra onde seu coração deveria estar. Mas, mais do que isso, o tempo todo você teve medo de que eu te amasse. E eu quis te amar, menina, como eu quis. Mas você insistia em ser racional e repetia todos os motivos pelos quais não era pra ser. Eu queria que você, assim como eu, se entregasse por inteiro, mas você vivia repetindo que queria porque queria o controle de si. Eu quis ser seu, menina, mas você estava muito determinada a não possuir ninguém. Eu quis mudar por você, mas você estava ocupada demais desacreditando do que o amor é capaz. Eu quis me manter por perto, mas você vivia me afastando dizendo que as coisas estavam indo rápido demais - e lá tem hora certa quando tudo se trata de um chute no escuro?
Eu te chamo de menina, mas a verdade é que a sua alma é velha e cautelosa, como quem espera o pior a qualquer hora. Você mal passou dos vinte, mas parece que faz bem mais de oito décadas que você não sabe o que é fechar os olhos e se deixar levar. A sua racionalidade te atou os pés no chão, te deixou covarde. Você não sabe mais sentir o que não tem explicação. Você teme tudo o que te sai do controle e, por isso, menina, você teme a vida.
Eternamente condenada por sua pressa em acertar.

quarta-feira, abril 10, 2013

Distrações

E foi dentro de um trem, com uma passagem na mão, uma mochila nas costas e meus sonhos, que eu te vi pela primeira vez. Nós tínhamos em comum muito mais do que o destino a que o trem nos levava: tínhamos em comum a vontade de descobrir o mundo. E medo. Muito medo de tudo o que poderia dar errado.
Aquela passagem nas minhas mãos representava muito mais do que a passagem para uma outra cidade: era a minha chance de entrar numa nova e determinante etapa da minha vida. E foi ali, no meio de tanta confusão mental, que eu te encontrei.
Você sabe, garoto, que eu tenho dificuldade de conversar com estranhos? Não sabe, não é? É que eu tenho preguiça de conversas superficiais. Eu tenho um profundo desinteresse em socializar. Mas, de repente, estávamos eu e você falando de sonhos e da vida e do futuro e de probabilidades e de tantas outras coisas, assim, sem esforço algum, por horas a fio, até que a viagem terminasse e nós fôssemos obrigados a nos despedir. E eu disse adeus desejando - assim, de leve - que não fosse aquele o momento em que você sairia definitivamente da minha vida.
Ironicamente, a vida te colocou outra vez no meu caminho. Mais ironicamente ainda, você pareceu gostar. E nada como a madrugada para aproximar duas almas notívagas.
Por algumas vezes, deixei de lado minhas obrigações, meu sono e minha serenidade pra falar contigo - é que você me deixa assim, alvoroçada. As nossas conversas, tão íntimas e cheias de entrega, me fizeram sentir vontade de amar alguém pelo diálogo honesto e pela sintonia. Vontade de querer bem alguém sem estorvos, dúvidas, angústias.
O seu rosto, a sua voz e as suas mãos começam a se desenhar como sendo meu ponto de equilíbrio. É que há muito tempo eu venho tropeçando, esperando por um ponto na estrada em que eu possa repousar. Me deixa repousar no seu colo e na sua voz? E se eu também sou aquilo que você estava esperando eu te digo:
Vem. Eu te espero nessa cidade com minha solidão e minhas expectativas. Vem, que eu estou disposta a dividir com você o meu tempo, os meus lugares, os meus amigos e o início de um sonho.
Traz numa mala os seus medos, as suas inseguranças e os seus desvios, que eu te ajudo a lidar.
Eu nunca soube como fazê-lo, mas, meu bem, por ti eu estou disposta a tentar.

segunda-feira, abril 08, 2013

Cuida dela*


Rapaz, diz pra ela que o meu bom dia ainda é dela. E que, se der, outro dia a gente se esbarra e eu levo umas flores pra ela. Faz dela um porto inseguro pra não se deixar levar pela rotina da maré calma. Beija o nariz dela que ela acorda na mesma hora e ainda dá uma espreguiçada com um sorrisão de partir o meu coração por não poder mais acordar ao lado dela. Ô rapaz, cuida dela com ternura. Essa garota precisa de alguém com tempo e com todo o coração do mundo pra entender a alma dela. Deixa ela descansar a cabeça no seu ombro, mesmo que você sinta um pouco de medo de se mexer. Eu nunca consegui ficar quieto com ela do lado.
Diz pra ela que ela é meu sonho bom. E que vai ser dureza não ter ligação nenhuma no meu celular pra responder. Coloca um toque personalizado, mas não escolhe nenhuma música especial pra vocês dois, rapaz. Puxa pruma valsa que ela sabe dançar bem demais. Ela tem um jeitinho de fugir dos meus braços que dá gosto. E não cai na armadilha dela, não. Se enroscar no pescoço dela é perigoso porque você pode ficar ali por tempo demais e se esquecer de olhar bem nos olhos dela. Diz pra ela que eu sei que eles não são castanhos, rapaz. Os olhos e ela são doces como mel. Dá pra sentir no gosto do primeiro beijo na chuva. E carrega sempre um remédio pra alergia na carteira. Dá pra prevenir os olhos dela de lacrimejarem por algum motivo bobo. Cuida bem pra ela não chorar, viu?
Diz pra ela que eu guardei os ingressos do nosso primeiro cinema e que ontem tava passando o filme na Sessão da Tarde. Pergunta se ela viu e se lembrou de mim durante os comerciais. Pergunta se ela ainda discute Godard com alguém ou se gostou de algum blockbuster recente e não quis confessar. Rapaz, ela sabe de tudo no mundo. Puxa assunto com ela, mas não deixa o silêncio consumir vocês dois. Ela é tagarela demais – e boa coisa não é se ela começar a ficar quieta. Aquieta o rosto no colo dela e deixa uma barbinha rala pra ela sentir cócegas. Ah, você faz bem em levar dois edredons pra cama porque senão corre o risco de passar frio. Ela é meio egoísta durante o sono. Diz pra ela que eu sinto falta das conchinhas e que até parei de reclamar da dor nos braços. Abraça forte sempre que der e escreve uns poemas também.  Garanto que ela vai te inspirar a escrever um livro inteiro.
Ô rapaz, diz pra ela que eu soluço só de pensar em como vai ser daqui pra frente e que o meu norte foi embora junto dela. E diz também que eu reconheço que ela deve ser mais feliz com você do que comigo. Diz que eu não me conformo, mas vou tentar pensar nisso como um desvio de percurso – e que, até a gente se reencontrar, eu vou tentar garantir a felicidade dela por meio de umas dicas e recomendações que eu vou dar pra você. Ela gosta de beijos molhados e pouca agilidade na hora de se despir. O suor dela tem um gosto bom, rapaz, então não precisa – e nem pode – ter nojinho com ela. Compra cerveja ao invés de vinho e põe o chinelo dela na entrada pra ela se livrar logo do salto quando chegar. Não trabalha muito até tarde porque ela vai depender de alguma atenção sua pra ter certeza de que fez uma escolha justa em me deixar. E fala sobre música, sobre algo de blues e jazz e deixa ela sentar pra tocar piano naquele restaurante grã-fino dos Jardins. Diz pra ela que eu aprendi uma partitura pra poder me lembrar dela.
Cuida bem dela e diz pra ela que um dia a gente se encontra se ela resolver que dá pra ser feliz aqui. Mas se ela preferir ficar por aí, faz dela o seu grande amor, rapaz. Diz pra ela que a solidão só anda doce porque eu ainda penso nela. E dá um beijo de boa noite na testa dela por mim, rapaz. E não precisa dizer nada depois disso. Ela vai fechar os olhos e se lembrar de mim.

*Texto de Daniel Oliveira, originalmente publicado no blog Entre Todas as Coisas

quarta-feira, abril 03, 2013


"And though you are right, I've been looking as well, babe, I'm not looking for you.
(...) And the one thing that keeps me from falling for you is I'm truly alone and I like it."

segunda-feira, abril 01, 2013

Promessas que eu nunca quis ouvir

Se tem uma coisa que me dá asco e medo e preguiça e me irrita e me deixa com os dois pés atrás é essa mania que as pessoas têm de te dizer algo só porque acreditam que é o que você quer ouvir. Não é que fosse preciso dizer algo, não é que você tivesse perguntado, não é que o silêncio precisasse ser quebrado. A pessoa simplesmente decide, por uma razão frouxa e rasa, te dizer palavras que, insinceras, têm o objetivo de mobilizar ou te comover, te tornando um pouco mais dependente emocionalmente, te prendendo ali naquela realidade. Decide, mesmo que a base de tudo isso seja enganosa, mesmo que as palavras sejam insidiosas, mesmo que não haja nem um pouco de verdade ou de entrega em nada do que foi dito. A única intenção real por trás de tudo isso é alimentar um jogo de sedução não-declarado, onde vence quem é mais frio e capaz de trazer o outro pra brincadeira sem se envolver, saindo, ao fim, ileso.
Por que as pessoas tem essa mania de achar que pedir por franqueza e transparência é como pedir por comprometimento? Por que essas não são coisas naturais a todo tipo de relação?
Por favor, não venha me fazer promessas e me oferecer afeto achando que você sabe o que eu quero ou do que eu preciso. Não venha me dizer coisas agradáveis achando que é o único capaz de fazer eu me sentir bem. Não me elogie com esse tom de como se estivesse me fazendo um favor, como se eu tivesse esperado a noite inteira por isso. Não faça nada disso se não for sincero e legítimo. Acredite: você se assustaria com o quanto eu posso ser autossuficiente. Você se espantaria com quão cética eu posso ser diante de demonstrações de afeto e de palavras dóceis e de posturas surpreendentes. Eu racionalizo todas elas e tendo a catalogá-las como evasivas, vazias e superficiais.
É que eu não sei ler as pessoas. Esse talvez seja o meu maior erro nessa minha pose de tão analítica: eu não sei analisar as pessoas isoladamente. Apenas os padrões comportamentais. Então no fim, na minha cabecinha, é tudo uma questão de probabilidade.
E o mundo está tão cheio de pessoas frias e vazias e rasas que é uma simples questão de probabilidade que tudo isso que você diz seja simplesmente um bando de baboseira cuspida em cima de mim de forma descuidada pelos mesmos lábios que querem apenas tocar os meus como único objetivo final.