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terça-feira, junho 12, 2012

Só (você)*

*Texto de Karolina Figueiredo. Encomendado por mim, risos.

eu amava as mulheres. todas elas. a feminilidade sempre me encantou mais do que um par de belas pernas. a sensualidade de me atrair pelo olhar, pelo toque meigo que apenas uma mão feminina pode oferecer, a voz suave ao acordar, a inteligência emocional, a sensibilidade, o cabelo curto e a franja caindo nos olhos. ou os cabelos longos caindo na boa. a perna arrepiada quando uma mão masculina a toca. eu amei tudo isso. amei os desafios, os jogos sexuais, as transas em lugares inusitados. tanto amei que vivi disso. toda a adolescência impulsionada por relacionamentos fugazes e perigosos. então no verão de uma década qualquer, eu esbarrei na única mulher do bar que não vestia poucas roupas. e ela não sorriu com meu pedido de desculpas, pois nem parecia reparar o mundo à volta dela, então eu insisti num drinque. ela aceitou como quem não tem nada a perder e a partir disso nos tornamos nós. foi a única mulher que me manteve mais interessado no que tinha a dizer do que a mostrar. não porque eu seja um pervertido, não me entendam mal, mas é que conversar eu posso fazer com qualquer pessoa. posso ligar pro meu psiquiatra a qualquer hora que ele me atende, mas eu era viciado em sentir o cheiro das mulheres. vê-las desfilando, se trocando, rindo de alguma piada minha, me tocando, se maquiando. cada uma fazendo as coisas à sua maneira: umas quando bravas controlam a voz quase já não suave, outras lançam olhares ansiosos e aguardam a percepção e bom senso do outro, ou as que, muito bravas, se tornam impulsivas e exalam sua raiva na altura da voz. mas você pela primeira vez me fez imaginar como seria uma mulher brigando com nossos filhos em vez de eu querer saber que som você faz quando atinge o orgasmo. você, com seus pontos de vista avessos e incomuns, me fez encontrar em você mais mulheres do que todas com as quais já dormi. e é claro que eu não descobri isso numa noite apenas. foi necessário te convidar várias vezes pra sair e forjar encontros acidentais. eu que vivia rodeado de mulheres fui atrás de você. mas você não foi suficiente. e não foi necessária muita inteligência da sua parte pra saber que vocÊ não era exclusiva. eu sempre achei que amasse mais as mulheres do que apenas uma. você sabia que eu preferia sua companhia, seu toque, seu sexo oral, sua voz agressiva, sua voz suave me ajudando a escolher a gravata. mas você também sabia que quando eu viajava a trabalho eu procurava outras mulheres, não pra suprir a sua falta física, e sim porque eu não perdia o interesse na pele, cheiro, nuca e mãos das outras mulheres. mesmo eu sabendo que eu preferia tudo em você a de qalquer outra mulher no planeta, eu nunca parei de explorar. também nunca achei uma explicação que me convencesse. até o dia que eu cheguei em casa e liguei a tv, pra te esperar, como eu sempre fazia. tudo que recebi foi uma ligação anunciando o tão fatídico acontecimento: um acidente de carro que resultou na sua morte. eu nunca havia ficado taquicardíaco e mudo, nem quando descobri que te amava, nem quando descobri que seria você com quem eu me casaria, nem quando você me confessou que me amava desesperadamente e isso te assustava. tudo isso me causou um vazio tão grande que ocupou toda a minha existência, em fração de segundos. eu nem precisei de tempo pra digerir a informação e sofrer em doses. eu era totalmente consciente do que você era pra mim. e eu que procurei todas, encontrei em você motivos pra me apegar. e obviamente minha reação natural foi me culpar, me martirizar pelos relacionamentos fora do nosso. e eu sabia que isso não fazia sentido nenhum, que vocÊ já sabia de tudo e me amava mesmo assim e que isso não te traria de volta, porém não consegui não sentir raiva de mim. raiva por ter sido negligente com a obviedade da minha preferência por você e não ter aproveitado o tempo de que eu era disponível pra ficar com você. raiva de quando fiquei com as outras se eu poderia estar com você. raiva do meu egoísmo pensar que eu nunca iria me confortar com a ideia de ter perdido você mesmo que não tenha sido algo sob o qual eu tivesse controle. e não era uma questão universal, eu não amava as mulheres, eu só ainda não tinha encontrado você. faz dois anos desde a ligação que me calaria, e eu ainda não superei meu amor, só amo você.

Mensagem

Ele desceu as escadas do escritório às 16h como de costume. E, como de costume, não voltou pra casa. O celular vibrou. Ele rejeitou a ligação e mandou a mensagem típica: 'Estou em reunião'.

Ela terminou de lavar a louça do almoço nas exatas 16h, como acontecia todo santo dia. Ela olhou em volta. Tédio. Ninguém. Mas que bom, eu tenho alguém que me ama. Isso basta, não? Vou ligar pra ele...

Ele sacou o telefone, ligou pra outra. Chamou, chamou e nada. Então ele entrou no carro e se dirigiu à casa dela, como sempre fazia. Decidiu tentar uma SMS.

Ele estava em reunião. Então ela se sentou no sofá pensando em como a sua vida era vazia. A sua única paz era a presença dele. Apenas. Se acostumara tanto com aquilo que desconhecia qualquer outra forma de vida. 'Só mais umas duas horas até ele chegar, calma...'

Ele digitou a mensagem: "Tô morrendo de saudade, Ju... já tô indo pra tua casa, meu amor... me atende logo. Prepara algo pra comermos que hoje eu posso ficar até mais tarde, falei pra 'ela' que tô em reunião."

Ela recebeu uma mensagem estranha no celular: "Tô morrendo de saudade, Ju... já tô indo pra tua casa, meu amor... me atende logo. Prepara algo pra comermos que hoje eu posso ficar até mais tarde, falei pra 'ela' que tô em reunião."

Ele se deu conta, de repente, que enviou a mensagem pro número errado. 'E agora, o que faço?'. Não tinha muito o que ser feito. Parou o carro, respirou fundo, pensou em alguma mentira satisfatória para o ocorrido... mas estava tão nervoso que não conseguia pensar em absolutamente nada.

Ela se perguntou sobressaltada 'quem é Ju?'. Depois, indignada 'eu sou 'ela', assim, com aspas?'. Enfim, fez a pergunta certa: 'quem é este homem que eu amo?'.

Ele decidiu ligar de volta pra pedir desculpas pela mensagem que o amigo enviou pelo seu celular e esqueceu de assinar e acabou mandando pro número errado e que poderia causar algum transtorno caso ela entendesse mal. Mas ela não atendeu. 

Ela, com sua autoestima no ponto mais baixo da escala internacional de autoestima, com a depressão no seu ápice, se perguntava o porquê. O que tinha feito de tão errado. E agora, o que faria?

Ele deu meia volta no carro. 'Droga, o que eu menos preciso agora é de uma discussão. Nossa, e se todo mundo ficar sabendo vão me crucificar... E meus pais? Droga, na festa de família semana que vem, como eu vou contar pra eles se ela não quiser ir comigo?'

Ela, conclusiva, sentou-se no sofá e começou a repetir 'Eu não posso viver sem ele. Eu não sei. Simplesmente não sei. Mas isso é demais. É demais pra mim. O que eu faço agora?'

Ele, uns vinte e cinco minutos depois, estacionou na porta de casa e nem trancou o carro quando entrou em casa. Gritou por ela desesperadamente. 'Mas ela com certeza foi pra casa de alguma amiga...'. Ele se esqueceu de que ela não tinha amigas.

[...]

Ele, sentado no sofá, apreciando compulsoriamente o silêncio da casa, ouviu gotas de água caindo. De onde vinham? Ele tentou seguir o barulho, chegando rapidamente no banheiro. E lá estava ela, numa banheira cheia de sangue, com os pulsos muito bem cortados, o rosto patético e uma faca de cozinha jogada de lado.

domingo, junho 10, 2012

Visita

Eu olho pro meu prato e penso no quanto minha mãe se esforçou pra me fazer comer. Tem tantas cores nele que, se eu tivesse algum apetite, devoraria tudo sem sequer sentir o gosto. Eu olho pro meu prato mas minha atenção está só parcialmente nele. O telefone toca e meu coração pula enquanto eu viro o meu tronco na direção do barulho. Depois eu rio da minha ingenuidade. É claro que não é ele. Não é como se ele fosse ligar pra avisar que está chegando. Mas eu sei que está. Eu volto os olhos pro prato e brinco com o bife, pico ele em mil pedaços que eu sei que eu não vou comer. E então eu penso que eu nunca deixei de ser criança. Então porque essa dor tão adulta? Mas calma, ele vai chegar, ele já está vindo. De novo meu coração começa a pular antes que eu tome consciência de que um carro atravessa a rua. Mas não é ele, claro. Não é como se ele fosse chegar de carro e buzinar e tocar a campainha e dizer 'oi'. Então eu rio de novo pra mim mesma pensando como seria engraçado se ele fizesse isso. Mas é mais complicado, eu sei. Passo a mão na franja que escapole do rabo de cavalo que eu fiz porque um dia alguém me confessou que gostava assim. Mas faz tanto tempo que eu mal me lembro quem. Então eu junto coragem e engulo um pouco de arroz com salada só pra minha mãe ficar satisfeita. Mas eu estou tão ansiosa esperando ele chegar que eu nem consigo comer. Ele não me disse que viria mas eu sei que vem. E eu sei que vai ser em breve, porque eu tenho esse nó no estômago e esse suor na palma das mãos e essa cabeça avoada e esse coração batendo acelerado e isso só acontece quando ele vem me visitar. E eu não sei nem como ele se chama, cada um chama de um jeito, mas chamo ele do nome mais genérico, com medo de errar. Alguns o chamam de paixão, uns de atração física, outros de pura biologia, outros de irracionalidade, outros de babaquice. Eu... eu o chamo de AMOR, e sei que ele vem me buscar... um dia a gente se acerta e fica em paz pra sempre, e ele vai me levar pra esse ponto na estrada onde haverá alguém me esperando e desejando ser meu.

sábado, junho 09, 2012

Procuro a solidão, como o ar procura o chão.

Meus passos me levam pra onde o silêncio domina. Meus pés caminham na direção onde parece não haver ninguém. Meu corpo prefere o meu quarto escuro e frio, onde eu posso lavar meus olhos enquanto meus pensamentos cegam a minha mente. Meus pensamentos me adoecem. Mas depois me fortalecem, creio eu. O que será de mim, se não puder enfrentar minha própria solidão? Meus arrependimentos, remorsos, meus fantasmas pessoais? Minha dor é minha, minha alegria também. Tenho tesouros, o que se costuma chamar de amigos, e estes, eu creio, se pudessem, carregariam um pouco dela pra mim. Mas não podem. Procuro a solidão, seja ela de tormento ou paz. Procuro a solidão porque preciso reaprender a lidar. Porque à noite, quando tudo escurece, e não há maquiagem, não há vozes, não há máscaras, não há mentiras, não há verbos, sou só eu e mim. E é hoje, como sempre foi. Ou como nunca deixou de ser.

sexta-feira, junho 08, 2012

Sense.

[...] Houve um momento desse nosso amor em que eu apostei meu último fôlego e resolvi esperar pelo dia em que as cartas fossem dadas em meu nome, em meu lugar. E você as deu. Alívio. Depois o desespero, porque foi na hora errada. Eu pensei, amor, que isso pudesse ser daqui a um ou seis anos, quando eu me formasse e eu fosse pra uma cidade muito longe da sua, ou quando a gente achasse que estava cansado um do outro. Eu não sei você, meu bem, mas eu acho que eu nunca iria me cansar de você. Eu acho que nós poderíamos passar todo o nosso futuro pensando que não temos futuro, e ainda assim nós iriamos nos amar. Ia passar um dia e um mês e um ano e um filho e nós pensaríamos ‘será que isso é o melhor?’, mas nós nos amaríamos tanto que não teríamos coragem de arriscar. Eu não iria me esgotar de você, eu iria viver pra sempre nesse limbo entre a incerteza e uma felicidade estonteante porém incompleta. Como explicar? Isso não faria sentido pros meus amigos nem pros seus pais nem pra muita gente nem pra única pessoa que vai ler este texto porque é a única pessoa que sempre lê o que eu escrevo. Mas faz tanto sentido pra nós dois. Eu não posso te culpar porque eu te entendo. Esse é o único ponto onde eu e você não conseguiríamos apostar tão alto, só torcendo pra que desse certo. Esse é o único ponto onde -conscientemente falando- nenhum de nós está(ria) disposto a ceder. E eu vou tentar acreditar que essa é a razão por ora, porque não quero me deixar ser invadida por esses pensamentos que me dizem que eu não significo mais nada pra você. [...]

I want you to notice when I'm not around. I wish I was special.

Você sabe o que é ter a mesma coisa na cabeça vinte e quatro horas por dia? Você sabe o que é ter o mesmo assunto voltando a todo segundo, tomando conta de toda a tua atenção? Você sabe o que é acordar no meio da noite e, antes de tomar consciência de sua existência, estar pensando em alguém, e então não conseguir voltar a dormir? Você sabe o que é, literalmente, sentir o coração acelerar no peito? Você sabe o que é ficar o dia inteiro com um nó no estômago que te atrapalha a comer, e que por isso você só come depois que seu corpo implora, e que te atrapalha a respirar, e que por isso há dias que você só respira superficialmente? Você sabe o que é aceitar com seu cérebro, entender que é racional e que, talvez, seja mesmo a melhor opção, mas ainda assim sentir vontade, a cada minuto, de chorar, e de ser capaz de tomar alguma atitude justificável para mudar o imutável? Você sabe o que é querer voltar no tempo e fazer algo diferente mesmo achando que todo passo seria em vão? Você sabe o que é amar e não se sentir amado de volta? Se sim, então você provavelmente sabe o que é sofrer por amor.

terça-feira, maio 29, 2012

If I could I'd bury your nightmares under my own pillow.

Um dia você veio me contar o seu pior pesadelo. Você que faz piada de tudo. Você que ri de qualquer coisa. Você que faz graça da própria desgraça. Você desabou ali na minha frente sem conseguir manter os olhos nos meus. Eu estava vivendo algo inusitado. Eu ouvi de você palavras como eu não ouvi de mais ninguém. E eu, que sempre pareço ter muito a dizer, fiquei muda. Eu não sabia que reação esboçar. Ou como olhar nos seus olhos. Eu não sabia se eu segurava a sua mão, se eu te abraçava, se eu chorava contigo ou se demonstrava toda a minha indignação. Mas quem sou eu pra falar de indignação diante de você? Te peço uma coisa: não menospreze o seu sofrimento. Há muita gente passando por muitos problemas talvez maiores por aí. Mas não menospreze a sua dor.
Cada vez em que você toca nesse assunto eu tenho vontade de te pedir desculpas trezentas mil vezes. Desculpas por o mundo ser sujo. Desculpas por as pessoas serem sórdidas. Desculpas por ninguém ter te protegido. Desculpas por não haver adivinhado. Desculpas por não poder sarar a sua dor.
É duro demais te ver desabando e não saber como te recompor. É ruim não poder limpar toda a memória e recompor cada pedacinho terso seu. É dolorido não poder fazer nada por você. Mas quem sou eu pra falar de dor?
Olha, tudo o que eu posso fazer é te amar. E isso, eu juro, eu tô tentando fazer da melhor forma que posso. Me desculpa, mas esse texto não saiu como eu planejei. Eu queria saber usar as palavras a meu favor, e te fazer entender o quanto eu sinto muito por só conseguir segurar a sua mão e olhar nos seus olhos e te abraçar e nada mais. Me desculpa por não ser o bastante.

segunda-feira, maio 28, 2012

[...] Isso ainda nem é um fato e eu já chorei desconsoladamente, já me inquietei, já perdi o apetite, já tive enxaquecas, já chorei de novo e já rolei na cama sem conseguir dormir. Isso ainda nem é um fato, mas há palavras, meu bem, que não têm volta quando são ditas. [...]

domingo, maio 27, 2012

Cause when i'm with everyone else I am thinking of you.

Eu vesti o meu melhor vestido - aquele que você disse que gostava-, me maquiei, mas não era você quem estava aqui pra ver. Eu passei meu melhor perfume, mas não foi você quem deitou a cabeça nos meus ombros e quis sentir meu cheiro. Eu arrumei meu cabelo, mas não foi você quem tentou flertar comigo passando os dedos entre os fios. Não foi você quem se inclinou pra me ouvir falar e ao mesmo tempo tentar sentir o meu hálito. Não foi você que me pediu sutilmente um beijo. Eu ensaiei a minha melhor música e não era você quem estava aqui pra ouvir. Não era você que estava em volta o tempo todo buscando uma forma de se aproximar. Meu telefone tocou mil vezes e não era você. Eu recebi centenas de mensagens e nenhuma delas vinha de você. Eu ouvi que eu estava linda como sempre. Ouvi que eu era ponto fora da curva, que eu era incrivelmente inteligente. Ouvi que alguém me desejava não tão em silêncio. Eu ouvi alguém me pedir por carinho. Eu senti os braços de alguém em volta do meu ombro. Mas nada disso veio de você e eu me pergunto se isso é melhor do que nada?

domingo, abril 29, 2012

Desde mi sangre hasta la esencia de mi ser...

Você me olha nos olhos e pergunta de novo 'o que foi'. Eu desvio rápido o olhar, suspiro e digo 'nada'. Você não se convence. Então eu corrijo minha postura, neutralizo minha expressão e repito 'nada, sério', tentando não transparecer meu desespero, tentando não gritar que não é nada e sim tudo. Mas eu não posso te contar. Não posso te contar que eu te amo mais do que meu corpo permite, que eu te amo mais do que meu horário deixa ser. Que eu te quero mais do que todas essas pessoas à minha volta juntas. Eu não posso te dizer que, apesar de que você não foi a razão de eu estar aqui, você definitivamente é a razão de eu não querer estar em nenhum outro lugar. Eu não te conto que todas as pessoas não passam de um bando de babacas fazendo fila pra chegar primeiro no fundo do poço da minha escala de relevância, e que eu nunca prefiro a presença de ninguém à sua nessa cidade. Eu não te conto que eu tenho me forçado a rir com os outros pra que você não pense que eu estou tão só. Ou que eu tenho evitado sorrir pra você pra que você não perceba o quanto eu te preciso.
Meu Deus, como eu te preciso...
[...]

sábado, abril 28, 2012

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? (jeremias 17.9)"

Coração

Meu estômago revira, meu corpo se recusa a reagir e minha cabeça dói. E eu só consigo me perguntar como é que o meu cérebro consegue me pregar essa peça? Ele não deveria ser racional e preservar o meu físico de toda essa destruição? Mas a dor que eu estou sentindo se espalha por todo o meu corpo. Eu me enrolo, deito de barriga pra baixo, de barriga pra cima, e espero o sono vir. Eu não consigo ficar em pé, eu não consigo estudar, eu não consigo fazer nada do que eu tenho que fazer. Eu estou com fome e até agora não comi. Mas o meu cérebro não me deixa dormir. O sono não vem. Estou prostrada mas não consigo dormir em paz. 
Eu não consigo enganar meu corpo porque ele sabe que já chegou o fim. Ele vê isso nos seus olhos. Ele sente isso na forma como você me toca.
E ele me subjuga. Eu não vou dar nenhum passo porque eu não saberia como. Se eu tentasse, eu tropeçaria no meu próprio pé. E como eu iria explicar aos outros que eu soltei sua mão porque escolhi soltar? Depois de te amar tanto e de continuar amando? Te amando e sendo amada por você de forma tão intensa e simplesmente escolhendo que não deveria ser assim?
É verdade, sim, eu te amo. Sei disso porque eu ando na rua mas eu só me importo com o olhar que você dirige a mim. Sei disso porque eu conheço um tanto de caras legais mas é só de você que eu sinto solidão. Sei disso porque cada gesto bonito seu me deixa inebriada. Porque eu passo a semana ocupada mas quando chega a sexta feira a noite meu corpo procura avidamente por você. Sei disso porque quando você me abraça eu não tenho pressa de mais nada.
Sei disso porque sei com cada célula do meu corpo.

segunda-feira, abril 16, 2012

Agenda

Eu estou enrolada em dois cobertores e isso não é suficiente porque meu corpo ainda está frio. E isso não é por causa do clima instável ou de uma frente fria inesperada ou por causa do cobertor fino. Isso tudo é porque falta calor em volta dos meus braços trêmulos e em volta das minhas mãos vacilantes sobre esse papel tosco.
Eu fecho os olhos e tento dormir mas a minha memória estúpida insiste em repetir tudo aquilo que parece estar errado e em reprimir todas as memórias que poderiam fazer bem ao meu estômago. Náuseas. Então eu espremo as órbitas tentando esconder a imagem de você sentado à minha frente enquanto eu fazia papel de idiota abrindo meu coração, parecendo uma criança mimada chorando sem motivos e eu sei que eu não sou só isso.
Eu sou mais do que alguém que quer dominar o objeto do seu amor. Eu sou mais do que uma pirralha mimada que esqueceu de amadurecer. Eu sou mais do que alguém que não sabe lidar com responsabilidades ou compromissos. Eu sou mais do que isso. Ou não. (?)
Eu sou mais. Insistentemente mais do que isso. Eu sou alguém que infelizmente ama na hora que dá na telha e que sente saudades na véspera do dia de provas e que quer andar de mãos dadas atrasada pra ir pro trabalho. Eu sou alguém que não se cansa de olhar nos olhos. Eu sou alguém que tem urgência de sentir intensamente e que se importa com demonstrações de afeto. Eu sou alguém que corre pra abraçar.
Então eu te pergunto: porque você insiste em me amar dessa forma tão lamentavelmente pouca e tediosamente sóbria, com hora pra chegar, com olhar cansado, com segundos contados e pressa de partir?
Eu preferi(ri)a te ver uma vez em muito tempo se a cada vez você viesse com pressa de me amar e com lábios urgentes, se você deixasse o mundo de lado e tivesse olhos só pra mim por meia hora. Então porque você insiste em me marcar entre um horário e outro? E porque você está sempre tão ocupado enquanto eu choro de solidão? E porque você insiste em esperar que eu adivinhe de onde é que vem essa droga de amor que você não me conta nem me mostra nem me faz sentir?
Eu não vou ser mais a criança mimada que reclama porque preparou a refeição e comeu sozinha. Ou que chora porque passou o final de semana sem receber uma ligação.
Ao invés disso eu vou tentar ser essa adulta débil e insegura que pensa que não é amada mas que passa maquiagem às 6h da manhã pra conquistar elogios fúteis e se sentir bonita, que almoça com os colegas de trabalho e que sai à noite com o que costumam chamar de amigos, que ri e se diverte, e que dorme na casa de uma garota legal só pra ocupar seu final de semana vazio e infeliz, e que chora à noite porque nada disso é verdade.
Eu vou ser essa adulta que ama se der tempo e que dá carinho quando encaixar no horário e que finge entender essa falta constante de tempo pra tudo e que se ocupa com suas próprias coisas e obrigações só pra abafar a miserabilidade do ser, tudo isso pra não te atrapalhar a viver sua vida tão ocupada e satisfatoriamente preenchida com tudo menos eu.

terça-feira, abril 03, 2012

Ela

Não é que ela não seja linda, ou que ela não mereça você. Não é que a voz dela não seja macia feito algodão-doce ou que o mundo não se curve diante daquele olhar de dia de Sol. Não é que eu tenha ciúmes dela, ou que eu deseje a vocês algum mal. 

Mas é que nós dois, na minha mente, somos tão melhores juntos.

quarta-feira, março 28, 2012

Xícara

Na minha xícara falta café e sobra amor.
Quem diria que um beijo só bastava pra tornar meu sono em vigília?

terça-feira, março 27, 2012

Enquanto isso...

Eu vejo garotas à minha volta se passando por mulheres, falando de caras bonitos. Eu as vejo compartilhando experiências, colecionando conquistas, se exibindo mutuamente, e tudo me parece um ritual do tempo das cavernas, me parece estúpido demais. Eu vejo gente à minha volta se abraçando, andando em bandos e juntando os amigos pra beber, e tudo isso soa falso, impensado, superficial demais. Eu vejo pessoas colecionando melhores amigos, trocando de amores eternos, passeando entre diversos círculos sociais, com a certeza de que são queridos e imprescindíveis, com uma confiança no peito de que é tudo pra sempre, e eu acho tão ingênuo que eu quase chego a rir sozinha.
Enquanto isso eu olho pra mim mesma e penso que sou uma criança, que eu não sei nada da vida, que já me apeguei à minha viseira, que to tão bem encaixada no meu cantinho que eu não sei se sou capaz de me deslocar.
Enquanto isso eu choro à noite antes de dormir, abafando os gemidos com o travesseiro, porque eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.

sábado, março 24, 2012

Trégua

Você pode não ter entendido, mas eu to num campo de guerra. Você pode não ter percebido, mas eu estou, agora, vestindo uma armadura. E ao contrario do que possa parecer, eu estou vestindo essa armadura me preparando pra recuar. Quando eu comecei essa guerra eu decidi jogar limpo. Você sabe melhor do que ninguém que eu não tive tempo pra me preparar, que eu vim com a roupa do corpo e com a cara lavada. Tudo isso porque eu não sei nem nunca quis jogar jogos com você. Sinceridade pode não ser meu dom, mas é um dos meus grandes esforços. Então eu pedi cessar-fogo e te contei baixinho as regras do jogo, pra gente poder lutar juntos. Mas cada dia que passa eu te vejo cada vez mais do outro lado do campo. É quase como se estivéssemos jogando de lados opostos. E não seria tão estranho não fosse o fato de haver apenas nós dois aqui. Não fosse o fato de que já passamos por todos aqueles empecilhos –ou será que fui só eu que passei por tudo aquilo, que só eu me abstive, que só eu abri mão?, e agora, na hora de abrir o champanhe e comemorar vitória, você está do outro lado e seus olhos estão perdidos, porque você não olha em volta e não enxerga o que está acontecendo. Eu vesti minha armadura, mas eu nunca soube fazer isso direito, por isso quando eu fui tentar te buscar do outro lado eu tropecei em uma pedra ou em uma dúzia delas e caí. E agora eu estou sangrando. Você me pediu pra chamar seu nome quando eu precisasse e neste momento eu o estou gritando. Mas você não consegue ouvir porque você tá longe demais. Seus olhos estão perdidos ao redor, você não vê que eu estou morrendo aqui, e que eu perdi a capacidade de lutar. Eu já fiz pose de forte, mas eu desisti de tentar ser resistente. Eu estou trincando. Meus pulmões doem e eu já não consigo nem sussurrar. Eu preciso agora de alguém que queira cuidar de mim. Eu vou esperar você me enxergar de soslaio e, quando você vier, eu vou pedir por uma trégua, porque eu não sei mais como lutar nessa guerra.

sexta-feira, março 23, 2012

Braços

Eu acho que eu nunca escrevi sobre você, não é?  Não nos últimos anos, pelo menos. Bem, eu te disse ontem, no telefone e com lágrimas nos olhos que a saudade é uma coisa boa. E por mais que agora seja difícil acreditar nas minhas próprias palavras, eu vou me apegar ao significado delas, assim como ao significado das lágrimas que meu corpo está expulsando agora.
Estando longe a gente percebe que não tá pronto pra nada, que tudo deixa a gente frágil demais, trincado, sensível, a ponto de quebrar. Meu choro agora é de desespero, porque você tá longe demais, e às vezes me dá uma angústia e um medo descomunal de não dar tempo de eu te ver nunca mais se algo acontecer a mim ou a você. Mas voltando às minhas primeiras palavras: a saudade é uma coisa boa, porque ela me certifica da validade e da profundeza de tudo o que eu sinto por você, e de tudo o que eu já passei e não consigo imaginar nada disso sem você. Eu sei como dói em você me apoiar e segurar a minha mão e depois se despedir de mim só porque eu quero viver o meu sonho. Eu sei que eu sou a caçula e mesmo assim eu fui a primeira a partir, e você não se opôs, ao contrário disso me deu os dois braços pra eu me apoiar. E se você pudesse, os daria de novo agora pra eu chorar neles. E com esses mesmos braços você me abraçaria no dia seguinte quando eu decidisse que era hora de ir embora e voltar pro caminho que eu escolhi seguir.
Eu me lembro de eu chorar e de você chorar comigo só de ver a minha dor. Eu me lembro de eu reclamar de algumas coisas, mas agora eu me sinto tão estúpida, porque eu só consigo me lembrar de você ser a melhor pessoa do mundo.
Às vezes eu me esqueço um pouco do quanto eu queria ser como você. Ou de como eu queria conseguir ser parecida com você, porque você é o meu melhor ponto de referência nessa vida.
"O fardo pesado que levas deságua na força que tens". Eu ouço essa estrofe dessa música e seu rosto se concretiza na minha mente, porque você é a sensibilidade mais forte que eu já vi nessa vida. Você, aos desvios de curso aos quais essa vida nos submete, sempre responde com uma suavidade, com uma segurança, com uma sabedoria. "Me mostre um caminho agora, um jeito de estar sem você. O apego não quer ir embora. Caramba, ele tem que querer".
Eu preciso de muitas coisas nessa vida, e eu preciso buscá-las. Mas eu nunca vou deixar de precisar de você. Eu sei que se eu estivesse aí agora, ou se você estivesse aqui comigo, eu provavelmente não estaria mais chorando, e você provavelmente já teria feito eu me sentir melhor com quaisquer duas palavras.
Eu fui carregada até agora no colo, com muito cuidado e dedicação por essas "tuas mãos de fazer tudo". A sua comida, ou as vezes em que você me chamava pra me contar alguma de que eu ainda não sabia, ou quando você me perguntava algo de Biologia, ou as coisas das quais você achava graça, ou as vezes em que eu te pedia algo e você se mostrava disposta a fazer, e eu nem achava que merecia. A tua capacidade infinita de perdoar e de deixar de lado todas as vezes em que eu fui ingrata, a tua forma de ser boa como você é. Tudo o que você me ensinou. Eu sinto falta de tudo. Eu sinto falta porque eu amei e continuo amando, e é por isso que eu digo que saudade é bom. E eu nunca vou deixar de amar e de precisar de você porque você me mostrou a maior forma de amor que eu conheço nessa terra. E no dia em que eu aprender a lidar, que eu aprender a te amar de longe sem doer tanto assim, sem chorar quando falo de você, nesse dia eu vou ficar feliz por conseguir lembrar de você e sorrir em paz.
Sinceramente, te amo.
"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o nosso amor, nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você"

segunda-feira, março 19, 2012

Coisas de que eu preciso para ser feliz

Uma vez uma amiga me convidou pra um pequeno jantar em sua casa pra alguns amigos e alguns amigos de amigos. Pouca gente, uma conversa agradável, despretensiosa, aquele social de sempre. Tirando por uma coisa que estava me incomodando mais do que eu poderia admitir: entre os amigos e colegas de minha amiga, estava uma linda moça, vestida com muito bom gosto, uma maquiagem impecável e sentada em uma cadeira de rodas. Não pude deixar de reparar, de prestar atenção e de encarar e, por mais que eu tentasse disfarçar, eu não conseguia. Por fim fui ficando sem graça e com medo de a estar constrangendo. Mas o que houve é que nem de longe eu estava impressionada por ela ter uma limitação física –resultado de um acidente no auge da juventude. O mais incrível é que ela sequer parecia se dar conta. Ela sorria como se ninguém lhe tivesse contado que ela iria ficar presa ali pra sempre.
Eu já vi filmes e reportagens e páginas de revistas com histórias de superação, mas quando isso não faz parte do seu dia-a-dia é difícil de entender tamanha resignação ou aceitação das próprias limitações, é difícil de entender porque eu me conheço bem e eu sei o quanto eu apedrejaria céus e terra e culparia a todos se passasse por algo parecido. Eu sei o quanto isso seria devastador pra mim. E é bonito ver os outros enxergando além disso, mas a gente nunca é sábio a ponto de aprender a lição dos outros.
Pois bem, tomei coragem de travar uma conversa com ela. Alice, ela se apresentou. No início foi uma conversa comum e, com suavidade, eu toquei no assunto e ela me contou como foi a experiência: um acidente de carro. Nada de colegagem bêbada no volante. Nada de viagens na madrugada. Ela estava com a família, o pai no volante, e um acidente aparentemente bobo levou embora a capacidade dela de andar. Terminando o curso de Economia, namorando e com mil planos de intercâmbio no exterior e pós-graduação e mestrado e casamento, ela passou a depender de muito auxílio dos pais e amigos e namorado, e viu todos esses planos serem adiados indefinidamente para algum ponto no futuro onde ela pudesse caminhar com as próprias pernas - figurativamente falando (Perdão pelo trocadilho).
É claro que isso não me bastou: eu quis saber mais. Perguntei como diabos ela fazia pra ser a pessoa mais bem humorada e aparentemente satisfeita em volta daquela mesa; como ela fazia pra ser feliz daquela forma tão suave e natural e invejável; perguntei se as coisas eram como pareciam ou se aquilo era só uma forma de se desviar do sofrimento real pelo qual ela estava passando; perguntei se ela era feliz – sim, eu abusei de uma liberdade que ela não me deu. Mas ela simplesmente sorriu. Ah, felicidade é um conceito muito flexível, ela respondeu. Felicidade pra cada um significa uma coisa. Uma casa boa, um currículo invejável, uma carreira estável ou uma vida de aventuras. Cada um impõe condições pra própria felicidade. Eu parei de impor condições pra minha. Me ative ao essencial. Esse acidente me trouxe muito mais coisas boas do que ruins.
É lógico que eu discordei mentalmente e não me senti satisfeita e perguntei ‘Como assim coisas boas?’
Eu ouvi silenciosamente o relato que se segue:
‘Na época do acidente eu estava em um processo de negação de muitas coisas das quais eu sempre tive muita certeza. Eu não acreditava mais em quase nada, duvidava de tudo: que eu seria uma boa profissional, que o meu namorado me amava, ou que meus pais eram capazes de me ouvir. A essas alturas eu já duvidava de Deus e de metade das minhas amizades, que já eram poucas. E essas pequenas perguntas já estava esgotando todo o meu fôlego. Eu já não sabia por que fazia umas coisas ou por que queria outras. Como resultado de tantas dúvidas vinha uma série de inseguranças, e eu não tinha mesmo onde buscar resposta nenhuma. Incrivelmente, tudo o que se seguiu depois do acidente foi respondendo minhas perguntas uma por uma.
Eu me lembro de muito pouco do acidente – acho que travei grande parte dessa memória – mas eu me lembro muito bem de acordar e ver meu namorado debruçado na beira da maca. Eu achei que ele estava dormindo, mas quando o chamei ele se levantou surpreso, com os olhos vermelhos e cheios d’água, disse que me amava, e saiu correndo pra chamar outras pessoas. Surgiram meus pais e duas amigas minhas, daquelas que eu já não via há alguns meses por causa da correria do dia-a-dia. Então todos começaram a comemorar euforicamente e eu não estava entendendo nada até o momento em que alguém se deu ao trabalho de me explicar que eu estive em coma por duas semanas e meia. Duas semanas e meia, e eles, todos eles, ficaram ali de vigília. Faltaram aula e trabalho e até ali – o que eu considero tempo o suficiente - não tinham se cansado de esperar por algum sinal de consciência da minha parte. Com o meu despertar seguiu-se uma série de exames e, muito rápido, veio o diagnóstico definitivo de que eu não poderia andar nunca mais – a não ser, claro, por um milagre. O que veio depois disso foi duas semanas de depressão intensa e choro – literalmente – incansável. Eu só não chorava quando estava dormindo, e eu só dormia quando estava sedada. E eu tinha pesadelos e tudo ficava pior. É incrível – ou nem tanto - que, ao constatar e aceitar a irreversibilidade da situação, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a pena: imagina só, todo mundo com pena de mim, fazendo as coisas pra mim por obrigação, eu me tornando um peso, uma pedra no caminho das pessoas que se sentiam, agora, obrigadas a me amar. E eu, sinceramente, não sei o que teria sido de mim se minha mãe e meu pai não tivessem estado ali do meu lado, não só me auxiliando no óbvio, mas me dando apoio sentimental e psicológico. Às vezes eu acordava no meio da noite chorando e eu conseguia ver o desespero nos olhos da minha mãe porque ela não podia fazer simplesmente nada. E eu queria morrer só de ter que vê-la passar por isso. E ela ficou ali o tempo todo tão intensamente, sofrendo cada sentimento que eu sentia, porque tudo o que me passava pela cabeça eu falava, e ela não sucumbiu em momento algum. E meu pai, que sempre foi silencioso, compartilhou comigo mais naqueles meses do que em toda a nossa vida. E eu me desconsertava de uma forma irreparável quando eu via – e, infelizmente, ainda vejo – culpa nos olhos dele, e na sua postura, e na forma como ele se dirigia a mim, com os ombros pedindo desculpas por algo que ele sequer poderia evitar. E eu só descobri bem depois quantos cheques especiais e empréstimos ele fez só pra me dar o máximo de conforto dentro daquela situação, mesmo sabendo que era irreversível. Tudo isso pra eu me sentir o mínimo melhor. Ele fez, definitivamente, tudo o que ele podia.
Aos primeiros sinais de melhora, eu chamei meu namorado no quarto de hospital e tive uma conversa um tanto definitiva com ele: terminei o nosso namoro, inventei mil motivos – e fui bastante convincente -, mas tudo o que eu queria era desobrigá-lo daquela situação. E eu juro que o que eu mais queria era tê-lo ali, pois nunca havia sentido tanta necessidade dele de todas as formas possíveis. E ele jurava que me amava, que queria se casar comigo e que não tinha desistido dos nossos planos, e eu enxerguei o desconserto dele diante daquela situação que era tão nova pra ele quanto era pra mim. E, de certa forma, igualmente desafiadora e desestabilizadora. E percebi o quanto ele estava agindo de forma impensada, tentando provar algo pra si mesmo. Mandei-o de volta pra casa insistentemente e ele foi, contrariado. Depois de voltar pra casa, depois de meses de fisioterapia, de adaptação, e de todo aquele processo de ressocialização e reestruturação de hábitos, ele bateu na minha porta, com toda a calma do mundo, com uma serenidade e uma segurança imensa no peito. A gente conversou sobre nada e, do nada, ele disse que me amava e me pediu em namoro. Eu conversei com ele, expliquei minhas limitações, a dimensão do meu problema, falei tudo o que era necessário e o que não era também. E ele respirou calmamente e respondeu: eu já sei de tudo isso, quer namorar comigo? Então eu tive certeza, naquele momento, de que ele me amava. Bem, que eu o amava, eu já tinha chegado há essa conclusão fazia tempo. Respondi que sim, é claro, e hoje a gente namora já faz dois anos depois do acidente e, com muita calma, o nosso cantinho, o casamento, tudo está sendo preparado. E ele sempre lidou com tudo de uma forma que só fez me ensinar.
Os meus amigos, bem, é intenso demais pra descrever porque eu teria que exemplificar em tantos tópicos, só pra você ter uma noção, que você provavelmente pensaria que eu estou me gabando. Mas uma coisa eu posso te dizer, e isso resume com simplicidade o que eu estou sentindo: eu fiz poucos amigos ao longo da vida, mas, sinceramente, eu não consigo enxergar de que forma eu poderia ter escolhido melhor.
Ah, não pouco importante, eu ressalto que, ao voltar para a faculdade, dois semestres depois, qual não foi minha surpresa ao descobrir que tinha um empregador literalmente esperando por mim, porque ele viu o meu currículo e conversou com os professores sobre meu desempenho e decidiu que eu seria a escolhida para uma possível contratação, e esperou três meses e meio até eu voltar às minhas atividades curriculares pra me convidar pra estagiar em sua empresa, com contratação posterior.
Eu posso colocar ‘andar’ como primeiro tópico da minha lista de ‘coisas que eu preciso para ser feliz’, mas isso não é o mesmo que assinar atestado de infelicidade? Eu não vou optar pela miserabilidade da amargura se me restam outras opções. Ninguém fica numa cadeira de rodas porque escolheu assim, mas a vida às vezes – quase sempre - força as escolhas por nós, não é? Ela tá lá, sempre empurrando a gente pra diversas situações indesejáveis. Eu consegui fazer isso com ‘andar’, e vi que era capaz de fazer isso com muito mais coisas muito mais tolas e incalculavelmente menos necessárias. Você tem tudo o que você quer? A sua resposta provavelmente é não e por isso eu te digo: vai ficar esperando por essas coisas pra ser feliz com quem você ama? Ou pra curtir o show da banda que você gosta? Ou pra dormir uma boa noite de sono? Ou pra viajar num final de semana e tirar tempo pra ler um bom livro? Ou pra fazer todas aquelas coisas que te dão algum prazer, mesmo que pareçam insignificantes? Bem, eu não estou esperando por nada pra fazer tudo isso que eu amo fazer.
E por último, nem por isso desimportante, eu te digo que, depois disso tudo, depois de passar por tudo o que eu passei e de chegar onde estou, é natural e assertivamente que eu te digo, com convicção e fé – que são intransferíveis – que Deus existe, sim.
Pronto, todas as perguntas que me incomodavam foram respondidas. Agora, se eu tivesse continuado a minha vida da forma como eu estava, bem... Ninguém nunca vai saber, não é?’
Será que todo mundo não deveria passar por uma situação assim pra reaprender a olhar a vida, ou às coisas à sua volta? Eu não sei os outros, mas eu, muito provavelmente, sim. Porque eu vou continuar pensando que lidar com tudo isso de uma forma tão singela ultrapassa o conceito de ‘dom’.

"Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu; porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou pra quem chorou, pra quem sofreu; (...)
Não há mal pior do que a descrença, mesmo um amor que não compensa é melhor que a solidão;
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair, pra quê somar se a gente pode dividir? (...)"
Como Dizia o Poeta - Vinícius de Moraes e Toquinho

Sobre Razões


Você me pediu pra te amar não pelo que você faz ou pelo que você tem ou mesmo pelo que você acredita. Você me pediu pra te amar pelo que você é. E eu me pergunto: qual a diferença? Eu não te amo pelo que você faz ou tem ou acredita. Eu te amo por tudo isso junto, pois tudo isso é o que você é. E se você mudasse ou fosse diferente você não seria você da forma como eu te conheço e isso poderia mudar tudo. Eu não posso te jurar que eu vou te amar pra sempre independentemente do que você faça ou tenha ou acredite, pois tudo isso diz um pouco sobre você. E porque eu estou dizendo toda essa baboseira que parece não fazer sentido nenhum? Porque você me pediu por um motivo pelo qual eu te amo, e eu te amo por muito mais do que aquilo que você acredita ou tem ou faz, eu te amo pelas razões que te levam a acreditar ou ter ou fazer ou ser cada uma dessas coisas que você é, e incrivelmente da forma como você o é.
Eu não te amo simplesmente porque você é bom. Sua bondade vai além de um instinto natural ou de ações impensadas ou de gestos automáticos ou de uma ingenuidade incauta. Você é bom porque escolheu ser. Mesmo conhecendo toda a maldade que pode haver por aí, mesmo conhecendo gente com a alma tão pútrida e rochosa, você decidiu ser bom e faz isso com esforço, cautela e determinação.
Eu não te amo porque você nasceu com alguma inteligência sobrenatural ou algo do tipo. Ao contrário disso, você se esforça e busca o conhecimento e maravilhosamente se apraz nele, e se interessa por cada novo assunto que lhe é apresentado. Porque você é culto, informado e se esforça constantemente para ser cada vez mais eficiente.
Eu não te amo apenas porque você é sincero. Mais do que isso eu admiro o seu esforço contínuo pra ser honesto consigo mesmo e pra reproduzir com fidelidade aquilo que você pensa e sente, independentemente de como você julga seus pensamentos e sentimentos e, principalmente, independentemente de como você acha que eu ou qualquer outra pessoa vá julgar. Eu te amo porque você transpõe, ainda que com dificuldade, as barreiras necessárias para ser franco dessa forma tão cuidadosa e não imposta. Eu te amo porque eu vejo o quanto é doloroso pra você falar comigo e se abrir pra mim, e porque eu sei que você se empenha, tudo isso tentando construir um laço cada vez mais forte e se esmerando em fazer com que participemos cada vez mais um do outro.
Eu te amo porque você não é nada apenas por ser, ou não tem nada apenas por ter, ou não faz nada simplesmente por fazer. Eu te admiro infinitamente porque você não permite que suas convicções e seus ideais se cristalizem e se tornem mero hábito ou conceitos ou rótulos de si mesmo, e porque você não os defende com olhos cegos e ouvidos tapados, mas reavalia diariamente as razões pelas quais você vive. E, porque eu sei que você reavalia, é bom acordar todo dia e perceber que você continua tendo certeza de nós dois.